Crítica | O Hobbit: A Desolação de Smaug – Versão Estendida

estrelas 2,5

A Desolação de Smaug certamente foi uma das minhas maiores decepções de 2013. Tendo assistido o filme em pré-estreia nos cinemas, minhas expectativas estavam em alta, especialmente considerando as primeiras críticas positivas da obra (em geral de portais do exterior). O que recebi, contudo, foi um filme extenso, muito extenso, que investe um tempo desnecessário em subtramas cansativas que, no fim, não acrescentam em nada à narrativa. Não irei, porém, me alongar em tais aspectos pois eles já foram mais que contemplados na crítica escrita pelo nosso editor Ritter Fan, cuja percepção da produção foi muito similar (senão idêntica) à minha.

Nesta crítica focarei unicamente nos detalhes acrescentados pela versão estendida do filme, contemplando seus efeitos no longa-metragem como um todo. Minha intenção, contudo, não é listar ou detalhar cada minuto, dos vinte e cinco acrescentados, somente analisar seus efeitos gerais na narrativa. Sem mais delongas, portanto, vamos ao filme.

Como já deixei claro, um dos grandes problemas de A Desolação de Smaug (e até mesmo das outras duas partes da trilogia) é a sua duração. Era de se esperar, então, que minutos a mais prejudicariam consideravelmente o produto final. A resposta, contudo, não é tão simples quanto essa lógica prematura. Assim como em O Senhor dos Anéis, Peter Jackson procurou acrescentar planos ou sequências que aprimorassem a construção do universo de Tolkien transcrito para as telonas. De fato, isso ocorre com algumas das adições apresentadas, especialmente aquelas ligadas a Thrain, pai de Thorin.

O personagem ganha um tratamento mais profundo em diversas passagens da obra, oferecendo uma visão interessante sobre a trajetória dessa família perturbada. Vale lembrar que Thror sucumbiu à loucura gerada pela sua cobiça e esse destino pesa consideravelmente sobre Escudo-de-Carvalho – um olhar mais aprofundado sobre sua linhagem é, pois, bem vinda. Ao mesmo tempo, contudo, a exclusão de tais cenas pesam sobre a escolha de Jackson, que preferiu manter o romance desnecessário entre Tauriel e Kili ao invés de algo que trouxesse uma maior profundidade ao roteiro.

Infelizmente, nem todas as adições se encaixam tão organicamente quanto às ligadas ao pai de Thorin. Alguns flashbacks inseridos proporcionam à narrativa um didatismo exagerado, quebrando o ritmo já irregular da projeção. O enterro do Rei-Bruxo é a melhor prova disso, soando desconexa do plano geral. Sua inclusão teria sido menos sentida no filme anterior, que conta com uma cena similar com a mesma narração em off de Galadriel. O resultado é uma clara redundância, que torna ainda mais forçada a tentativa de Jackson em unir suas duas trilogias, que já são obviamente ligadas entre si.

Outras adições simplesmente dilatam o que já vimos na versão de cinema, trazendo-nos mais alívios cômicos pontuais. O melhor exemplo é um enfoque maior em Beorn, que passa a contar com uma cena similar à chegada dos anões em Bolsão em Uma Jornada Inesperada. São risadas garantidas, ainda que a fotografia peque em alguns enquadramentos escolhidos e cheguem a incomodar, nos trazendo constantes closes desnecessários no rosto do trocador de pele. O riso, porém, prejudica a obra como um todo, quebrando seu ritmo ainda mais. No clímax da fita (ou na ausência dele), já estamos cansados da projeção.

A versão estendida de A Desolação de Smaug, portanto, funciona como uma faca de dois gumes. Ao mesmo tempo que nos traz pontos interessantes sobre a mitologia criada por Tolkien, dilata ainda mais um filme que já tinha uma duração praticamente insustentável. Via de regra, a qualidade da obra mantém-se a mesma, mas se podemos ter o mesmo resultado narrativo com menos minutos, por que assistir a versão mais longa? A resposta, claro, virá do espectador: se gostou de A Desolação de Smaug, então, por favor, assista-o com esses adendos; já se sua percepção não foi assim tão positiva, fique longe.

P.s.: Não, não vemos mais do Smaug na versão estendida.

O Hobbit: A Desolação de Smaug – Versão Estendida (The Hobbit: The Desolation of Smaug, EUA/ Nova Zelândia – 2013)
Direção: Peter Jackson
Roteiro: Peter Jackson,  Fran Walsh, Phillipa Boyens, Guillermo del Toro
Elenco: Ian McKellen, Martin Freeman, Richard Armitage, Ken Stott, Graham McTavish, William Kircher, James Nesbitt, Stephen Hunter, Dean O’Gorman, Aidan Turner, John Callen, Peter Hambleton, Jed Brophy, Mark Hadlow, Adam Brown, Ian Holm, Sylvester McCoy, Manu Bennett, Orlando Bloom, Evangeline Lilly, Lee Pace, Benedict Cumberbatch, Mikael Persbrandt, Luke Evans, Stephen Fry
Duração: 186 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.