Crítica | O Homem das Cavernas (2018)

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No ano da 21ª edição da Copa do Mundo (2018), era de se esperar que o cinema reagisse à altura (como sempre acontece em anos de grandes eventos esportivos internacionais), com alguma produção que tivesse este foco. O que ninguém esperava é que essa reação viesse da Aardman Animations, o estúdio de animação britânico especializado em obras stop-motion e que já nos presentou com filmes como A Fuga das Galinhas (2000), Wallace & Gromit: A Batalha dos Vegetais (2005) e Shaun, o Carneiro – O Filme (2015).

O roteiro, com referências cênicas a Mil Séculos Antes de Cristo (1966), Duro de Matar (1988) e Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros (1993), foi escrito por Mark Burton e James Higginson e mistura, sem medo de ser feliz, a temática pré-histórica com futebol e toda a magia que o esporte pode ter se houver respeito, verdadeiro espírito competitivo e obediência às regras por parte dos atletas, algo muitíssimo bem explorado na reta final da obra, onde as diferenças e o teor de “inimizade” são transformados naquilo que muitas vezes se vê em jogos históricos — e não apenas no futebol. O esporte, nessas ocasiões, é mais uma forma de conectar as pessoas e mostrar o lado bom do homem. Mas este é o final do filme. Seu início, infelizmente, não tem a mesma sorte.

Antes de qualquer coisa, é necessário esclarecer que a técnica de O Homem das Cavernas é impecável. Eu sou um admirador embasbacado do stop-motion e tenho um enorme respeito pelos profissionais de animação que trabalham com este modelo, dada a extrema dificuldade que é produzir e dirigir uma obra em stop-motion. Sobre ela, neste filme, não há nada de negativo a dizer. A característica visual dos personagens traz mais uma vez as similaridades visuais com os bonecos da Aardman Animations, mas isso nem de longe é algo ruim. Trata-se de uma identidade visual do estúdio que é interessante ver nas telas. E essa identidade faz com que cada personagem de destaque de maneira ao mesmo tempo cômica e expressiva, seja pelo cabelo, pelo bigode, pelos grandes olhos ou pelos dentões, como é o caso de Dug, o adorável personagem de Eddie Redmayne.

Mas o filme demora muito para engatar. A primeira coisa que nos afeta, na película, é a imensa falta de propósito e conexão da trama inicial, posto que ela exige uma enorme adequação de crenças (acho que “suspensão da descrença” nem seria o termo aqui) para entendermos a realidade alternativa da Terra onde a origem do futebol foi um meteoro-pelota que extinguiu os dinossauros (?) que conviviam com os humanos (?). Notem que não estou colocando nenhum peso de verossimilhança nisso, afinal de contas, esta animação é uma comédia de aventura cheia de licenças artísticas e está tudo bem, não é de hoje que o cinema faz isso. Contudo, para que esta realidade faça sentido, é necessário um princípio compreensível, algo que localize bem essa nova realidade e não a tome por “previamente entendida”, como faz o roteiro aqui. Tanto se falou desse mesmo tipo de premissa em A Era do Gelo: O Big Bang (2016) que não imaginávamos que outros roteiristas fossem cair na mesma armadilha. A sorte é que o texto se endireita muito bem do meio para o final e salva a fita.

Depois de passar pela confusão de localização e uma bem fraca tentativa de estabelecer o modo de vida dos “homens da cavernas”, com sua caça aos coelhos (pelo menos o gancho é resgatado no encerramento… não um dos melhores, mas um coerente) e a tomada das terras pelo Lord Nooth (Tom Hiddleston, em um personagem hilário e de sotaque e maneirismos mais hilários ainda), o filme entra na preparação para o jogo, desde o conhecimento de Dug para aquilo que é o futebol, passando pelo treinamento das pessoas de sua tribo e chegando ao excelente jogo, fácil fácil, a melhor coisa de todo o filme. Do meio para o final (exceto o encerramento com o coelho e a brincadeira com as sombras, que teve sua graça, mas nada demais), a obra ganha fôlego, traz diálogos genuinamente engraçados e algumas boas gags, um presente visual da ótima equipe de animação — destaque para a direção de fotografia, pela escolha das cores, especialmente as noturnas! — e da direção de Nick Park, que acerta em cheio no ritmo e concepção das cenas na segunda metade da película.

Há uma uniformidade de recepção para os personagens, não havendo entre eles algum que pareça “perdido demais” ou seja demasiadamente clichê a ponto de estragar as cenas em que aparece. Além disso, o porco selvagem que serve de “cachorro” para os “homens da caverna” adiciona um tom extra de fofura, com uma realização bonita em um momento crítico do jogo. Assim, é possível passar por cima dos clichês e do início desconexo para se divertir bastante com o desenvolvimento e o final. As crianças e os apaixonados por futebol provavelmente serão os mais atraídos pelo filme, mas não os únicos que terão uma boa sessão nesta divertida lenda do futebol.

O Homem das Cavernas (Early Man) — EUA, Reino Unido, França, 2018
Direção: Nick Park
Roteiro: Mark Burton, James Higginson
Elenco (vozes): Tom Hiddleston, Eddie Redmayne, Maisie Williams, Timothy Spall, Richard Ayoade, Mark Williams, Miriam Margolyes, Rob Brydon, Nick Park, Johnny Vegas, Kayvan Novak, Selina Griffiths, Gina Yashere, Simon Greenall, Ben Whitehead
Duração: 89 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.