Crítica | O Homem de Aço (Trilha Sonora Original)

estrelas 5,0

Quando o reboot do Superman nos cinemas foi anunciado, seria um marco histórico. A primeira vez em que o clássico tema de John Williams para o filme de 1978 não seria utilizado em uma adaptação cinematográfica, já que o próprio John Osterman reutilizou o tema para Superman: O Retorno. Enquanto a pré-produção começava, rumores apontavam que Hans Zimmer seria o escolhido para compor a trilha de O Homem de Aço. O compositor alemão negou, dizendo que seria insanidade tentar criar algo que se equiparasse ao trabalho de Williams.

Bem, Zimmer é realmente insano, já que aceitou e dominou a tarefa.

A nova abordagem de Zack Snyder e do roteirista David Goyer (e vale mencionar, do produtor Christopher Nolan) era a de um Superman confuso quanto à sua identidade e sua posição na raça humana. Uma caracterização que fosse ao mesmo tempo alienígena e humana, mas nunca icônica como o tema de Williams. A trilha sonora realmente segue fielmente essas duas definições: alien e humano.

O tema que mais ouvimos para o drama de Kal-El/Clark Kent é a delicada composição de piano em Sent Here for a Reason, que perfeitamente captura a humanidade do protagonista e o medo por trás de suas ações. Ao mesmo tempo, o crescendo do piano e o elemento eletrônico de fundo sugerem a grandeza divina escondida dentro de Clark, querendo sair. É um tema que Zimmer define como tipicamente americano.

Quando essa grandeza enfim explode em cena, temos FlightWhat are you Going to Do When you’re not Saving the World?, ambas com o tema de piano como introdução, que vão lentamente culminando em uma grande orquestra de tambores, guitarras e trompetes. A melodia de Zimmer é radical e diferente da de Williams, respeitando a diegética que o longa constrói ao trazer um homem abraçando sua natureza grandiosa, soando orgânico dentro de seu universo; convenhamos, o tema de Williams é praticamente um hino que nos tira da história ao ouvirmos, já que é algo que trascende a barreira de seus respectivos filmes.

A primeira, em especial, eleva a força do longa ao oferecer o momento mais contagiante da história, quando Clark aprende a voar pela primeira vez, cena belíssima que funciona principalmente pela música. A segunda, porém, acaba ficando para a cena final e os créditos finais… Uma pena, já que merecia um uso mais memorável.

Então, chegamos ao lado alienígena da trilha. É uma faceta que muitas vezes beira o experimental, com o próprio Zimmer falando em entrevistas sobre o processo que realmente buscou músicos com diferentes visões para os sons de Krypton, e o que ouvimos em cena representa uma perceptível evolução de estilos. Look to the Stars é a faixa que abre a trilha e o filme, oferecendo uma composição serena que traz um som abstrato que se assemelha ao soprar do vento, mas que vai sendo preenchido por batimentos lentos que logo vão se revelando como o tema de Clark que ouviríamos depois no piano. DNA abraça completamente o lado sci-fi, mas preservando a serenidade com cordas abafadas por o mesmo efeito de vento da faixa anterior. E vamos falar sobre o General Zod em alguns instantes, mas vale apontar a natureza eletrônica e quase próxima do dubstep que Arcade traz para as poderosas máquinas planetárias do vilão, algo que certamente veio da cabeça de Junkie XL.

Finalmente, a eminente destruição de Krypton está presente com duas excelentes faixas. Goodbye My Son traz o melhor uso de coral da trilha, quando Jor-El e Kara-El colocam seu filho recém-nascido na nave de fuga, enquanto Krypton’s Last oferece um melancólico solo de violino de autoria de Ann Marie Calhoun para a destruição do planeta. Vale apontar que Zimmer revela-se mais inteligente do que a própria direção de Zack Snyder aqui, já que o diretor optaria por uma trilha mais… bombástica para essa cena, sendo forte sugestão de Zimmer para que tratasse a cena como algo trágico – nada longe da verdade, convenhamos.

Então, chegamos à porradaria e o General Zod. Para o grande vilão do filme, o tema em I Will Find Him é quase psicótico, onde o uso de diversos violinos nervosos nos ajudam a entender a psicopatia de Zod e sua presença implacável. O elemento mais eletrônico que vimos em Arcade também retorna aqui, musicalmente transformando-o em uma ameaça incontrolável. Em You Die or I Do, tocada durante o início do duelo entre Zod e Superman, é interessante como a música lentamente constrói a raiva subindo do personagem com uma percussão baixa e crescente, para então explodir de volta ao tema dos violinos. Esse mesmo efeito se repete em If You Love these People, quando a soturna composição nos dá a revelação de que Zod pode realmente voar.

Zimmer não larga de seus preciosos batuques, fazendo da bateria e do tambor o principal instrumento da extasiante Oil Ring, uma faixa que quase serve como um prelúdio para o uso de bateria que viria a seguir,  sendo tocada durante a cena em que Clark salva os trabalhadores de uma plataforma petrolífera. Esse tipo música para ação retorna com peso em If You Love these People, Tornado e Terraforming – sendo esta última a mais inspirada do trio. E devemos muito a Zimmer durante essas cenas de ação, já que sua explosiva e operática música ajuda a manter o espectador entretido enquanto os bonecos digitais de Superman e Zod se espatifam pelos prédios igualmente digitais na batalha final.

No fim, O Homem de Aço é facilmente um dos mais desafiadores trabalhos da carreira de Hans Zimmer. Porém, graças à abordagem experimental, alienígena e emotiva no mais poderoso dos super-heróis, é também uma de suas mais recompensadoras.

Man of Steel: Original Motion Picture Soundtrack

Composto e conduzido por Hans Zimmer
Gravadora:
WaterTower Music
Estilo: Trilha Sonora
Ano: 2013

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.