Crítica | O Homem de Ferro (1981)

estrelas 4,5

O ano de 1980 entrou para os livros de história da Polônia. Foi nesse período que os trabalhadores de vários um estaleiros declararam greve geral, gerando uma enorme tensão no país, uma vez que, o governo socialista enfrentou os protestos de maneira violenta e combativa. Diante de tal história, Andrzej Wajda baseou O Homem de Ferro, deixando claro que os personagens são fictícios, mas utiliza imagens reais de arquivo para mostrar pontos importantes da história.

A obra conta a história de Winkel (Marian Opania), um repórter alcoólatra, que foi enviado a Gdansk pelo  Paritdo Comunista para investigar as greves dos trabalhadores portuários. Um dos principais líderes do movimento é o jovem Maciej Tomczyk (Jerzy Radziwiłowicz), cujo pai foi morto durante os protestos de 1970. Infiltrado, Winkel consegue entrevistar os que estão ao redor de Tomczyk, incluindo sua companheira, Agnieszka (Krystyna Janda). O jornalista acaba se deparando com uma realidade diferente da que imaginava, o que muda completamente sua visão do regime comunista e do próprio Tomczyk.

O repórter Winkel, além de ser a visão do público sobre os fatos, funciona como condutor da trama, contudo, por mais que seu personagem pareça ser o principal no filme, pode-se dizer que ele divide o protagonismo com Maciej. Portanto, não apenas vemos como as entrevistas fazem com que o jornalista mude sua visão sobre a greve, como também os motivos que levaram o grevista a lutar contra o governo de seu país, mostrando-se uma escolha acertada dos roteiristas para humanizar os personagens e não reduzi-los a meros símbolos do que acreditam.

Além de trazer um olhar intimista sobre o protagonista da história, o roteiro é hábil em desenvolvê-los de forma completamente diferente, ou seja, enquanto a construção de Winkel é gradativa, a de Maciej baseia-se em flashbacks, impedindo que a trama torne-se cansativa ou repetitiva. Aliás, outro recurso inteligente do filme é contar a história do manifestante através de declarações de pessoas próximas, exemplificando porque ele tem tanto poder de liderança sobre as pessoas.

A atuações que dão vida aos personagens também contribuem para que ambos tornem-se atrativos a quem assiste. Marian Opania demonstra com precisão o temor de Winkel com as consequências de seus atos, sempre inquieto, com a voz trêmula e uma respiração ofegante. Já a composição de Jerzy Radziwilowicz possui mais nuances, uma vez que, quando jovem ele mostra-se um militante fervoroso e quando adulto um líder grevista cerebral.

Mas o filme não se reduz apenas aos arcos dramáticos de seus personagens, apesar de fazer isso muito bem, ele também critica duramente o regime socialista da época através do realismo. O longa utiliza imagens reais de arquivos para mostrar a violência policial, discurso de políticos e o envolvimento da população nos atos. Mas o foco da obra está em denunciar a influência do governo sobre a mídia naquela época, destacando como repórteres eram comprados, amedrontados e afastados de seus cargos caso não fizessem aquilo que o Partido Comunista queria, algo exemplificado pela trama de Winkel.

Já a direção de Wajda mostra-se aqui mais acadêmica, optando por vários close-ups, planos sobre o ombro e planos de dois, visando priorizar os diálogos dos personagens. O grande destaque da fotografia está na utilização de sombras e cores, repare como as cenas envolvendo membros do Partido sempre são escuras e sombrias, enquanto as que envolvem manifestantes são coloridas, contrastando os dois lados da história. Além disso, o figurino sutilmente altera a roupa de Winkel dependendo da situação que ele está, uma vez que, quando o jornalista fala com grevistas usa tons pastéis e quando conversa com seus chefes veste um apertado paletó preto, destacando como o envolvimento dele naquilo o incomoda.

Outros destaque da parte técnica da obra é a edição, que intercala acontecimentos presentes com flashbacks sem tornar a trama confusa. Por fim, a trilha sonora sintetizada torna o tom do filme melancólico, reforçando a tensão presente na Polônia naquele período.

O Homem de Ferro exemplifica com perfeição o tom do cinema polonês anti-censura da década de 70 e 80, criticando o governo socialista e seu poder manipulatório. Wajda ainda nos presenteia com dois arcos construídos de maneira diferente, mas que funcionam igualmente para cativar o público e desenvolver sua história.

O Homem de Ferro (Czlowiek Z Zelaza) – Polônia , 1981
Direção: Andrzej Wajda
Roteiro: Aleksander Scibor-Rylski
Elenco: Marian Opania, Jerzy Radziwilowicz, Krystyna Janda, Boguslaw Linda, Janusz Gajos, Andrzej Seweryn, Marek Kondrat, Jan Tesarz, Jerzy Trela
Duração: 13 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.