Crítica | O Homem de Palha (1973)

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SPOILERS!

A década de 1970 se mostrou muito produtiva para o cinema de terror, cujas obras exploravam diversas vertentes que tal gênero permite se desenvolver. Assim, uma destas vertentes foi o terror com temática sobrenatural, que por vezes se mesclava com assuntos ligados à religião, o que resultou em diversos trabalhos com atmosferas macabras e horripilantes. Se O Bebê de Rosemary abriu as portas para esta possibilidade de se fazer cinema, o sucesso de O Exorcista a consolidou. Porém, simultaneamente, diversas obras menores e não tão conhecidas buscaram fazer estudos encima de tal subgênero, como é o caso deste O Homem de Palha.

Lançado em 1973 (mesmo ano do clássico sobre exorcismo citado acima) e dirigido por Robin Hardy, o filme conta a história do sargento Howie (Edward Woodward), que é enviado para uma ilha da Escócia que abriga um vilarejo comandado pelo lorde Summerisle (Christopher Lee), onde supostamente uma garota desapareceu; porém, ao chegar lá, os habitantes da ilha afirmam que a menina jamais existiu. Enquanto investiga tal mistério, o sargento começa a perceber a existência de uma série de rituais extravagantes e costumes anormais por parte dos moradores, o que lhe causa surpresa e espanto.

Por mais que O Homem de Palha possua como propulsor narrativo a investigação da garota desaparecida, o roteiro escrito por Anthony Shaffer trata, essencialmente, de religião. Assim, a forma com que o roteirista trabalha com um tema delicado como este é fundamental para o funcionamento da narrativa: não de maneira escrachada, mas sutil, Shaffer faz uso de músicas e coreografias, máscaras e fantasias, rituais e até mesmo de educação escolar para construir e compor a cultura daquele vilarejo, cuja, diga-se de passagem, gira em torno principalmente de assuntos relacionados a sexo e reprodução. E isto não deixa de ser uma escolha corajosa do roteiro, pois tal tema era – e continua sendo – um tabu para muitas religiões mundo afora.

Porém, evidentemente, o roteiro contrapõe o paganismo dos moradores com o cristianismo do Sargento Howie, que fica apavorado perante o erotismo que presencia na ilha. Assim, quando este encontra o Lorde Summerisle de Christopher Lee, a crescente fúria com que o cristão exige que o líder da população local abra mão de seus costumes o transforma praticamente em um fanático religioso – o que é uma estratégia certeira do roteiro e da interpretação de Woodward, pois isto encontra ecos na intolerância religiosa muito vista nos dias de hoje.

Mas a construção do universo pelo roteiro de Shaffer é auxiliada pela direção de Robin Hardy, que também aposta em delicadezas para incrementar a cultura local, como quando o sargento Howie vai até a escola e apaga parte do quadro, cujo contém explicações do que significa cada uma das pedras que estão no local onde alguns eventos do filme se passam – um detalhe sutil que, para o espectador atento, enriquece ainda mais a narrativa. Mas é claro que Hardy (que dirigiu apenas três filmes em toda a sua carreira) também é eficaz ao construir um clima de suspense em torno dos habitantes e dos estranhos costumes da ilha, bem como em torno do próprio sumiço da jovem garota. Da mesma forma, a atmosfera de suspense é apoiada pela forma natural com que o diretor exibe certas situações ao longo da projeção, como por exemplo, o ritual mostrado momentos antes do primeiro encontro do sargento com o Lorde que comanda a ilha.

E por falar no líder do vilarejo, é em tal personagem interpretado por Christopher Lee que se encontra o grande destaque do elenco. O Lorde Summerisle do veterano ator sempre surge em cena imponente e seguro de si, bem como com um ar macabro e misterioso – e veja que, antes mesmo de sua primeira aparição, o roteiro é hábil ao construí-lo como uma figura poderosa e extremamente influente naquele lugar. Deste modo, é uma pena que o longa deslize ao deixar algumas pontas soltas sobre os planos arquitetados pela população local envolvendo o sargento Howie, cujas ficam evidentes após a revelação que o personagem de Lee faz no terceiro ato – afinal, como eles supostamente controlaram todas as ações do protagonista, sendo que algumas delas se deram pelo acaso? Também, como os habitantes da ilha sabiam tanto sobre a personalidade do sargento, como sobre sua castidade?

Portanto, O Homem de Palha nos apresenta um universo riquíssimo construído ao longo da projeção, contando ainda com um final impiedoso, irreversível e memorável. De fato, o filme é classificado como pertencente ao gênero de terror; porém, para alguns, pode parecer que careça ao trabalho características que o classifiquem como tal – mas talvez o verdadeiro horror esteja em algumas ações contestáveis dos personagens concebidos por Shaffer. Não causou o mesmo impacto e não é tão popular como as obras que citei no começo deste texto, mas é um filme envolvente e reflexivo que vale a pena ser conferido.

O Homem de Palha (The Wicker Man, Reino Unido, 1973)
Direção: Robin Hardy
Roteiro: Anthony Shaffer
Elenco: Edward Woodward, Christopher Lee, Diane Cilento, Britt Ekland, Ingrid Pitt, Lindsay Kemp, Russell Waters, Aubrey Morris, Irene Sunters, Walter Carr, Gerry Cowper
Duração: 88 minutos.

LUIS EDUARDO BERTOTTO . . . Quando vi pela primeira vez Marty McFly viajar para 1955, passei a me interessar pelo fabuloso e caótico processo construtivo de um filme. Desde então, venho me fascinando e me surpreendendo cada vez mais pela composição das mise-en-scènes e a forma com que elas enriquecem o universo de uma produção cinematográfica. Não apresento restrições a gêneros e épocas – pelo contrário, apenas tenho uma leve queda pela explosão criativa dos anos 70 e possuo uma adoração descomunal pela obra de Scorsese. Em suma, um estudante de engenharia civil que, em meio à correria do dia a dia, encontra abrigo na arte das imagens em movimento e no som psicodélico e poético de Floyd.