Crítica | O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick

Philip K. Dick não brinca em serviço. Não satisfeito em lidar de forma majestosa e original com a ficção científica, trazendo-nos obras como Podemos Recordar Para Você, Por Um Preço Razoável, O Relatório MinoritárioAndroides Sonham com Ovelhas Elétricas?, em 1962 ele lançou uma instigante obra do subgênero conhecido como “história alternativa” lidando com um cenário aterrador: e se as forças do Eixo tivessem ganhado a Segunda Guerra Mundial? Mesmo não sendo fundamentalmente um sci-fi, ainda que existam elementos nessa linha no pano de fundo da narrativa, O Homem do Castelo Alto é uma leitura que se justifica tanto pela premissa, como pela maneira como o autor a aborda e, também – e talvez principalmente – como ele consegue manipular a percepção de realidade de seus leitores, algo que ele sempre lidou em seus textos, mas que, aqui, ganha proporções de explodir a mente e separa essa narrativa de outras com a mesma premissa.

Afinal de contas, romances de “história alternativa”, apesar de não tão comuns, existiam bem antes de PKD mergulhar no gênero, com ele mesmo tendo afirmado que foi Bring the Jubilee, publicado originalmente em 1953 e que indaga o que aconteceria se o Sul tivesse levado a melhor na Guerra de Secessão americana, a obra que fez germinar em sua mente a ideia para fazer o mesmo com a Segunda Guerra. Mas mesmo esse grande evento que mudou o mundo já havia sido objeto de ficção especulativa em 1937 (reparem o ano!) em que sua autora, Katharine Burdekin (sob o pseudônimo Murray Constantine) não só previra a guerra, como a vitória do Eixo, com a divisão do mundo entre a Alemanha Nazista e o Império do Japão. PKD parte dessa exata ideia, colocando os EUA divididos entre os dois vitoriosos, com os alemães dominando a porção leste do país e os japoneses a porção oeste, com uma zona neutra no meio, na altura das Montanhas Rochosas. Nesse cenário, o Japão é tecnologicamente bem menos desenvolvido do que a Alemanha que domina a tecnologia de foguetes e bombas atômicas, tendo inclusive já colonizado o Sistema Solar, o que mantém os dois impérios em constante estado de guerra fria.

No entanto, para a correta apreciação do romance, é importante ter em mente que, apesar de Dick lidar com aspectos geopolíticos e macroeconômicos desse mundo às avessas no ano de 1962, ele não coloca isso como o centro de suas atenções, retirando de seu texto o que poderia acabar sendo uma espécie de subordinação ao artifício narrativo que é a premissa da obra. Ao contrário, a história é contada substancialmente a partir do “lado japonês” dos EUA, por pessoas “comuns” como Nobusuke Tagomi, um oficial japonês de relações comerciais, Robert Childan, dono de um antiquário especializado em relíquias do passado americano, Frank Frink, um artista judeu (que esconde essa condição, claro) especializado em metalurgia e, finalmente, a ex-esposa de Frank, Juliana, instrutora de judô. A conexão entre os personagens se dá a partir da chegada de Baynes, um industrial sueco que tem tecnologia que interessa ao Japão, o que leva Tagomi a procurar Childan para adquirir uma peça de valor para impressioná-lo, o que aos poucos desvela uma subtrama de falsificação de objetos que envolve Frank mais diretamente. Juliana tem uma narrativa substancialmente separada das demais, não só por ser a única personagem geograficamente fora de São Francisco – ela vive em Canon City, Colorado, na Zona Neutra – como também por seu envolvimento com o caminhoneiro italiano Joe Cinnadella.

Usado esses personagens, PKD mergulha diretamente em sua história naquele seu estilo clássico, sem explicações, sem situar o leitor detalhadamente, obrigando-nos a aprender sobre essa nova ordem mundial por intermédio de elementos que são organicamente abordados dentro da competência de cada um dos nomes acima. Tagomi e sua relação com Baynes funcionam como os vetores dos comentários sócio-políticos e econômicos que nos permitem ver os horrores da dominação de quase todo o mundo pelos nazistas. Da drenagem do Mediterrâneo ao mega-genocídio na África, passando pela eliminação dos judeus, além de uma boa abordagem da estrutura política em desequilíbrio na cúpula nazista e o que isso pode significar para o Japão e para o mundo, ganhamos esse conhecimento pelos olhos dos personagens, sempre “de segunda mão”, sem o detalhamento que alguns leitores poderiam ansiar. Mas a escolha de PKD é deliberada e, tenho para mim, mais do que acertada. O lado humano de seu texto é o que sobressai, com as diferentes, mas ao mesmo tempo convergentes visões desse mundo a partir dos olhos de um oficial japonês que tenta evitar o pior, de um misterioso industrial sueco, de um antiquário que faz de tudo para fundir-se a esse status quo em que ele e os demais americanos são inferiores aos japoneses, de um judeu constantemente temendo por sua vida e de uma mulher inocente que entra em uma espiral de espionagem. Com isso, o livro ganha em pluralidade, relevância e crítica social mais do que se ele fosse quase que um relato detalhado de como esse mundo funciona.

Permeando indelevelmente as narrativas convergentes de PKD, há duas obras literárias, uma verdadeira e outra ficcional. A verdadeira é o I Ching, ou Livro das Mutações, texto milenar chinês que tem seu lugar reservado no panteão das obras literárias que mais influenciaram – e que ainda influenciam – o mundo. PKD usa toda a base mística oracular da obra para enfatizar aspectos como a inevitabilidade do destino, a correlação de eventos aparentemente sem relação e a conexão mística entre os personagens e entre as visões de mundo, tanto a nossa quanto aquelas descritas no livro (sim, no plural, mas eu já chego lá). O ponto é que o autor usou o I Ching para escrever O Homem do Castelo Alto, tomando decisões com base nas linhas e hexagramas do texto clásssico. Da mesma forma, os personagens da obra, especialmente Tagomi e Frank, praticamente vivem suas vidas de acordo com as previsões que eles conseguem tirar a partir do I Ching. A meta-linguagem que PKD maquiavelicamente insere na narrativa começa a ser vista dessa forma.

Mas há mais. A segunda obra – esta de ficção – que é uma constante dentro de O Homem do Castelo Alto é O Gafanhoto Torna-se Pesado (no original, The Grasshopper Lies Heavy), escrita por Hawthorne Abendsen, que é o personagem-título, e banida em todo o Reich, mas tolerada no Império Japonês. Esse “romance dentro do romance” é, ele mesmo, um texto de história alternativa que imagina a realidade do mundo dentro de O Homem do Castelo Alto se os Aliados tivessem ganhado a Segunda Guerra. Juliana fica fascinada com a obra apresentada a ela por Joe, com os dois querendo conhecer o quase mítico Abendsen. Mas a história alternativa de O Gafanhoto Torna-se Pesado não é a nossa realidade e sim uma terceira hipótese de cunho histórico, em que Roosevelt abre mão da segunda reeleição, os EUA evitam Pearl Harbour e entram na guerra com sua força naval incólume e com o mundo dividido entre EUA e Inglaterra, que acaba também fortalecida, mantendo seus status de império. PKD usa o “romance dentro do romance” para ao mesmo tempo fazer seus personagens e nós duvidarmos de nossas respectivas realidades. Passamos a fazer parte integral da narrativa ao sermos indiretamente indagados sobre a natureza da realidade, algo que o I Ching também tem como base estrutural, com seu oráculo funcionando nas três pontas.

PKD vai além da história convencional ao fazer essa brilhante ginástica narrativa e cria a narrativa mais metalinguística que já li, fazendo seus personagens chegarem próximos da conclusão de que eles são personagens também. E, em cima disso tudo, ele olha para nós e dá a entender que nós também somos potencialmente personagens dentro de um romance lido por personagens dentro de outro romance. É isso, muito mais do que o fascinante, e extremamente assustador mundo dominado pelo nazismo, que faz de O Homem do Castelo Alto a leitura essencial que é. A história alternativa de PKD é um veículo para ele mais completamente que em outras obras de sua autoria desafie o conceito de realidade, fazendo-nos duvidar de nossa vida e de nosso livre arbítrio.

O Homem do Castelo Alto pode até ser o mais famoso romance que especula sobre a vitória nazista na Segunda Guerra e ele provavelmente merece essa fama. Mas essa é  proverbial ponta de um iceberg gigantesco que o genial Philip K. Dick nos faz descobrir aos poucos, sem permitir, porém, que nós nos desviemos dele. Ao nos chocarmos com a fria e gigantesca realidade de que podemos não ser reais, o autor sacramenta sua realidade alternativa como algo muito maior do que apenas um exercício imaginativo.

O Homem do Castelo Alto (The Man in the High Castle, EUA – 1962)
Autor: Philip K. Dick
Editora original: Putnam
Data original de lançamento: outubro de 1962
Editora no Brasil: Editora Aleph
Tradução para o português: Fábio Fernandes
Data de lançamento no Brasil: 08 de julho de 2009
Páginas (versão impressa brasileira): 304

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.