Crítica | O Homem Elefante (1980)

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estrelas 5,0

Contém spoilers do filme. Leia apenas se já tiver assistido.

Eraserhead, primeiro longa-metragem de David Lynch, nos trouxe uma jornada surrealista, com o diretor nos levando ao limiar entre sonho e realidade, a tal ponto que não conseguimos discernir qual é qual. Lynch cria o desconforto constante no espectador, ao mesmo tempo que o prende à sua narrativa, não buscando fazer com que ele entenda o que enxerga, mas que mergulhe nessa distorção colocada em imagem. O Homem Elefante, sua segunda empreitada nas telas grandes, por sua vez, reduz o teor surreal a fim de trabalhar a própria natureza humana. A questão sobre a realidade é substituída pela dúvida sobre quem é o monstro: nós próprios ou aquele homem que a vida inteira sofrera em razão de sua aparência. Dessa forma, Lynch nos entrega uma impactante crítica à sociedade, mostrando o quanto ela é dependente das aparências.

A trama acompanha o doutor Frederick Treves (Anthony Hopkins), um médico de Londres que, certa noite, se depara com uma atração itinerante: o Homem Elefante. Logo ele descobre que, por trás desse “espetáculo” existe um homem deformado em razão de doença congênita, John Merrick (John Hurt), que sofre em razão da maneira como todos o enxergam. Treves toma para si a tarefa de cuidar dessa pessoa e o leva para o hospital, onde o paciente passa a viver. Sua aparência, contudo, não é algo facilmente esquecido ou ignorado e os sofrimentos de sua vida até aquele momento se recusam a ser deixados para trás. Essa pobre alma, chamada de Homem Elefante, inicia, pois, o processo para que todos enxerguem quem ele é e não como ele é.

Adaptado dos livros The Elephant Man and Other ReminiscencesThe Elephant Man: A Study in Human Dignity, que, por sua vez, retratam a vida e observações sobre o caso de Joseph Merrick, que vivera no final do século XIX, o roteiro foge completamente do óbvio. Em razão de nossas experiências com outros filmes, livros e afins, era de se esperar que, em algum momento, todo o sofrimento de John o faria cometer algum crime, mesmo que em defesa própria. Lynch, contudo, recusa-se a fazer isso. Temos, aqui, o retrato de um homem bom em sua essência, alguém que fora assolado pela violência toda a sua vida, mas que se recusa a entregar-se, questão que se mantém do início ao fim, perfeitamente representado por sua pacífica morte, causada pelo simples ato de dormir como qualquer pessoa.

Não! Eu não sou um animal! Eu não sou um elefante! Eu sou um ser humano!

O grito do homem que irrompe na multidão, interrompendo suas ações, a necessidade de observar e julgar essa monstruosidade aos seu olhos, perfeitamente resume o contraste existente entre Merrick e todo o resto. Uns tentam lucrar em cima de sua aparência, outros estudá-lo, mas poucos enxergam que há um ser humano ali, questão que chega a afligir o próprio Dr. Treves, que se questiona acerca de suas verdadeiras intenções e sua natureza como homem – seria ele tão diferente daquele que apresentava Merrick como atração itinerante? Ao mesmo tempo, é esse médico quem salva Merrick, quem oferece a amizade e o amor em uma vida em que ele apenas conhecera a dor. O texto, aos poucos, nos mostra, então, que o silêncio de John não era em razão de um cérebro mal desenvolvido e sim fruto do medo, medo de um homem que teme aqueles monstros ao seu redor e que, em toda a sua bondade, reconhece a causa desse medo e, em momento algum, julga os outros por isso.

Ao lado do roteiro, a decupagem de Lynch, passo a passo, vai desconstruindo esse Homem Elefante, transformando-o em ser humano. As tomadas escuras, que ocultam seu “lado humano” e evidenciam suas deformações aos poucos são substituídas pela luz mais evidente, que preenche a imagem a fim de nos mostrar o homem ali presente. O preto e branco compõe a atmosfera de terror, que é desconstruída ao lado do personagem a tal ponto que enxergamos o restante da humanidade como o verdadeiro horror que é. O som de sua pesada respiração passa a ser mais sutil, enquanto que a câmera, que tendia para um dos lados de seu rosto passa a favorecer o outro, aproximando-nos do personagem.

Da mesma forma como todos passam a enxergar Merrick pelo que ele é, nós também passamos a fazê-lo. Ele ganha mais voz e o medo se esconde ao ponto em que não temos como não torcer para que ele possa, enfim, ter uma vida normal, para que ele seja curado daquilo que o aflige, por mais que saibamos que isso não será possível. O texto chega a abordar tal questão, com John perguntando se Frederick há de curá-lo. A negativa, porém, não é recebida com um pingo de ira ou desolação, pois esse é um homem que abraça aquilo que há de bom em sua vida e acaba morrendo feliz por isso.

Toda essa construção é, ainda, elevada às alturas em razão da interpretação de John Hurt, que é capaz de nos emocionar mesmo embaixo de toda a maquiagem e próteses, elementos tão bem produzidos que chegaram a catalisar a criação do Oscar de Maquiagem e Cabelo no ano posterior. Hurt, unicamente por meio de sua voz, olhar e linguagem corporal, pinta a imagem de uma pessoa presa por trás daquela aparência. Sem ele precisar dizer, sabemos exatamente o que sente, seja medo, seja a profunda alegria de ser tratado como gente e não como mero animal. Hopkins, ao seu lado, forma a dupla perfeita, a pessoa que se compadece com o sofrimento do outro, pisando em ovos para que ele seja bem cuidado – ao mesmo tempo, há um olhar analítico no seu personagem, que gradualmente dá lugar ao olho amigo, que, também, é movido por aquilo que Merrick efetivamente é.

O Homem Elefante é a desconstrução de um monstro e a criação de outro. Apesar de sua aparência e toda a violência que sofrera em toda a sua vida, John Merrick representa o que há de melhor na humanidade, sendo capaz de fazer outros a seu redor o enxergarem como a pessoa que ele é. Em seu segundo longa-metragem, David Lynch, acerta em cheio em sua abordagem da natureza humana, tão incapaz de observar a beleza por trás da sórdida aparência. Trata-se de uma obra verdadeiramente atemporal, que nos deixa em transe quando seus créditos começam a rolar, fazendo-nos, no processo, temer a forma como essa sociedade do espetáculo meramente observa, mas não enxerga.

O Homem Elefante (The Elephant Man) — EUA/Reino Unido, 1980
Direção:
David Lynch
Roteiro: Christopher De Vore, Eric Bergren, David Lynch
Elenco: Anthony Hopkins, John Hurt, Anne Bancroft, John Gielgud, Wendy Hiller, Freddie Jones, Michael Elphick, Hannah Gordon, Helen Ryan, Kenny Baker
Duração: 124 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.