Crítica | O Homem Errado

estrelas 4Alfred Hitchcock sempre deixou claro que o maior medo de sua vida era ser acusado de um crime que não cometeu. Tal temor teve origem num acontecimento da infância do diretor, onde após uma travessura, foi levado pelo próprio pai até a delegacia, onde o delegado o trancou numa cela por cinco minutos, numa forma de dar um susto no garoto. O fato é que tal acontecimento causou um enorme trauma em Hitchcock, trauma este que, mais do mera inspiração, serviu como uma espécie de expiação para o diretor em diversos de seus filmes.

O Homem Errado é, de longe, a produção mais pessoal de Hitchcock sobre este tipo de abordagem. Prova disto é o aviso do diretor que antecede o filme, informando ao público de que tudo aquilo é baseado numa história real e fora filmado com extrema fidelidade aos reais acontecimentos. O que não é mentira. Hitchcock contratou testemunhas e policiais envolvidos no caso real para interpretarem a si mesmos, fez questão de não filmar em estúdio e levar sua equipe para locações reais, além da exigência em filmar na mesma cadeia onde Manny fora preso após ser confundido com um ladrão fisicamente semelhante.

Ah, sim! O Homem Errado nos apresenta o pacato Manny (Henry Fonda), um sujeito boa-pinta, trabalhador, correto e apaixonado por sua esposa, Rose (Vera Miles) e extremamente devoto aos seus filhos. Mas numa noite aparentemente simples, Manny é preso após ser confundido com um ladrão de lojas e pontos comerciais, uma vez que Manny, supostamente, possui o exato tipo físico do meliante. Reconhecido por testemunhas, resta para Manny, com o auxílio de sua esposa, lutar para provar sua inocência e capturar o verdadeiro ladrão.

O Homem Errado é, arrisco dizer, o filme mais cruel e sombrio já filmado por Hitchcock. Com uma narrativa mergulhada num tom sombrio, onde cada diálogo, enquadramento e expressão dos atores traduz a enorme dramaticidade da aparentemente simples história, o diretor criou uma obra de grande força psicológica, onde a atmosfera que flerta com o noir carrega o filme com uma atmosfera pesada e angustiante.

Hitchcock também possui o mérito de permitir que seus atores adquiram um grande nível de naturalidade em seus papéis, o que por si só, já é um grandioso trunfo.  Henry Fonda, em especial, está fantástico como o homem acusado injustamente, com suas expressões atônitas e confusas que traduzem toda a angústia de alguém numa situação tal inesperada quanto esta. Repare no momento em que Manny é trancado na cela e percebe a gravidade de sua situação: não é apenas o artificio visual de Hitchcock na cena que é absolutamente genial, mas também a composição impecável de Fonda sobre um homem desesperado em provar sua inocência.

Pecando apenas no seu desfecho um tanto simplista e inverossímil, O Homem Errado é um dos filmes mais tensos e angustiantes de Alfred Hitchcock, e muito disto se deve ao envolvimento pessoal do diretor com histórias envolvendo acusações injustas.

É como dizem: uma fobia é uma fobia.

O Homem Errado (The Wrong Man, EUA, 1956)
Roteiro: Maxwell Anderson, Angus McPhail
Direção: Alfred Hitchcock
Elenco: Henry Fonda, Vera Miles, Anthony Quaile, Harold J. Stone, Charles Cooper
Duração: 105 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.