Crítica | Homem Irracional

estrelas 4

Qualquer pessoa que assista a filmes de Woody Allen com frequência pode facilmente perceber que o cineasta novaiorquino basicamente faz o mesmo filme, sempre. Tudo bem, não exatamente o mesmo filme, mas sempre o mesmo tipo de personagem, diálogos e questões morais/filosóficas, tudo com uma apropriada dose de neurose. Podia apostar que Homem Irracional seria uma cansativa e monótona repetição de temas, mas me surpreendi ao encontrar um frescor de novidade aqui.

A trama nos apresenta a Abe Lucas (Joaquin Phoenix), um renomado professor de filosofia que é transferido para uma nova universidade. Passando por uma pesada crise existencial, ele acaba se envolvendo com uma colega do corpo decente (Parker Posey) e com a aluna prodígio Jill (Emma Stone), ao mesmo tempo em que procura uma forma de trazer novo sentido à vida.

Os filmes de Allen sempre foram rodeados de questões existenciais. Não é à toa que o protagonista de seu novo projeto seja um professor de filosofia e, ao vê-lo declarar em sala de aula que a área nada mais é do que “masturbação verbal”, percebemos que o diretor/roteirista está novamente questionando seu lugar no mundo. A figura de Abe Lucas é a de um homem derrotado e sem pretensões, numa performance que exige muito fisicamente de Joaquin Phoenix, que desfila uma nada charmosa barriga de cerveja acompanhada de uma expressão triste e entediada. Phoenix não é tão neurótico quanto a maioria dos protagonistas de Allen, mas certamente rende uma performance consistente, e à medida em que o roteiro toma uma virada brusca em sua narrativa, as coisas ficam mais empolgantes.

Ignorando elementos mais ordinários como sessões de auto-ajuda ou longos walkabouts, Allen insere na mente de Abe uma repentina obsessão pelo assassinato de um juiz corrupto. Ironicamente, o desejo do fim de uma vida – e a ideia de cometer um crime perfeito – é o que confere novo gás à de Abe, transformando a narrativa num Taxi Driver mais divertido, ao mesmo tempo em que referencia constantemente Crime & Castigo, de Fiódor Dostoiévski; colocando até mesmo o livro do autor russo como um instrumento importante para uma reviravolta. De certa forma, também remete a Match Point: Ponto Final, do próprio Allen, mas – novamente – com um teor mais cômico do que dramático.

Enquanto a narrativa se desenvolve num excelente tom, Homem Irracional também surpreende por mostrar-se um dos filmes no qual Allen mas parece ter se preocupado com o visual; convenhamos, não é o forte do cineasta bom de lábia. Novamente cuidada pelo colega Darius Khondji, a fotografia adota a mesma paleta tradicional dos filmes recentes de Allen, mas se destaca por oferecer movimentos de câmera mais elaborados (como dois longos planos para representar que um determinado personagem está sendo seguido por outro) e também planos que enchem os olhos, como o passeio de Abe e Jill por um parque de diversões à noite, rendendo uma sequência decorada por espelhos sinuosos e fortes luzes coloridas, conferindo um tom quase surreal a esta – ao mesmo tempo em que simboliza uma mudança de ritmo para o protagonista e também uma ode a Manhattan, dadas as circunstâncias temáticas de tal cena.

Homem Irracional é uma divertida mistura de humor negro e melancolia filosófica, oferecendo um passeio estranho, mas envolvente por mais dilemas existenciais de Woody Allen.

Homem Irracional (Irrational Man, EUA, 2015)
Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Elenco: Joaquin Phoenix, Emma Stone, Parker Posey, Tom Kemp, Jamie Blackley, Joe Stapleton, Nancy Carroll, Brigette Lundy-Paine, Katelyn Semer, Betsy Aidem, Ethan Phillips, Paula Plum
Duração: 95 min

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.