Crítica | O Homem Mais Procurado

estrelas 5,0

Após a recente adaptação de seu livro, O Espião que Sabia Demais, para o cinema, em um filme estrelado por Gary Oldman em conjunto com um elenco estelar, John le Carré tem mais uma obra sua transformada em longa-metragem. Agora é a vez de O Homem Mais Procurado, uma produção mais recente que trabalha em cima, também, da espionagem e do terrorismo. Mais uma vez temos um filme de pura espionagem, desta vez, contudo, ambientado em um cenário mais atual.

A trama gira em torno de Günther Bachmann (Philip Seymour Hoffman), que lidera uma unidade especial anti-terrorista. Enquanto espionam um possível financiador do terrorismo, Abdullah (Homayoun Ershadi), percebem a entrada de um radical checheno, ex-prisioneiro da Rússia, entrando em Hamburgo. Seu nome é Issa Karpov e se converteu ao islamismo. Alertados em relação a um possível ataque, Bachmann e sua equipe se mobilizam para descobrir as verdadeiras intenções de Karpov. A narrativa é, então, construída a fim de nos fazer perguntar o que Issa realmente pretende ao mesmo tempo que acompanhamos as operações de Günther e seus planos, sempre em movimento.

O Homem Mais Procurado é construído exatamente à maneira de O Espião que Sabia Demais, deixando de lado a ação corriqueira e se apoiando inteiramente na intriga, construindo uma constante tensão que engaja perfeitamente o espectador. Vimos, também, algo muito similar na minissérie Spies of Warsaw. É interessante notar que, em nenhum ponto do filme, temos sequer uma arma em cena. Tudo é realizado a partir do cuidadoso planejamento, da constante cautela para impedir que o elemento em questão fuja de uma vez.

Nossa imersão é garantida e Philip Seymour Hoffman desempenha um grande papel nesse processo. Encarnando um homem de aparência cansada, taciturno e que, claramente, mantém uma forçada calma, o ator nos convence a cada instante, aproximando-nos cada vez mais da narrativa. Sua construção é ideal, desde a maneira desleixada de andar, passando pelos olhos cansados, até o sempre presente cigarro em sua boca. Aliado do ótimo texto de Andrew Bovell (e John le Carré, é claro), o personagem ainda ganha uma deliciosa acidez, que provoca pontuais risadas na plateia, nos cativando ainda mais.

Assim como na outra obra adaptada do autor, porém, o mérito também vai para os coadjuvantes. Com nomes como Willem Dafoe e Robin Wright o filme se eleva acima daqueles do seu gênero, conseguindo criar um cenário bem executado e perfeitamente crível. A escalação de Wright como uma agente da CIA foi precisa, como a representante dos americanos no longa, chega a ser impossível não remetermos imediatamente a House of Cards, criando um interessante diálogo intertextual entre as duas produções – por mais distantes que elas, de fato, estejam.

E já falando nos americanos, esta adaptação consegue exprimir de forma ideal a crítica presente no livro em relação à política Bush. Tal questão é introduzida de forma orgânica na narrativa e vai ganhando um espaço maior conforme progredimos na trama. Através de Bachmann somos introduzidos, ao mesmo tempo, o receio das interferências norte-americanas e um certo desprezo – o espião considera os métodos deles inferiores, criam uma caçada às bruxas, mas não chegam ao âmago do problema.

Talvez o único ponto que chega a, por pouco, incomodar na projeção é a forma como a percepção do protagonista se altera. Tudo é feito de maneira discreta e os grandes twists se acumulam somente no final, para compor o incrível clímax da obra. Não podemos deixar de sentir, portanto, que um pequeno elemento de coesão ficou faltando em um trecho específico da obra. Nada que permita uma confusão do espectador, mas abre a pergunta em nossa mente: quando ele mudou de opinião?

Esse único receio, todavia não me impede de garantir as cinco estrelas completas de O Homem Mais Procurado. Trata-se de somente um ínfimo detalhe que em nada prejudica nossa percepção desta maravilhosa obra, que não só consegue construir um personagem inesquecível, como nos prende do início ao fim, sem o menor problema. Philip Seymour Hoffman mais uma vez deixa clara a falta que já faz ao mundo.

O Homem Mais Procurado (A Most Wanted Man – Reino Unido/ EUA/ Alemanha, 2014)
Direção:
 Anton Corbijn
Roteiro:  Andrew Bovell (baseado no livro de John le Carré)
Elenco: Philip Seymour Hoffman, Rachel McAdams, Robin Wright, Willem Dafoe, Daniel Brühl, Grigoriy Dobrygin, Homayoun Ershadi, Mehdi Dehbi, Nina Hoss
Duração: 122 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.