Crítica | O Homem nas Trevas

estrelas 4

A subversão do gênero é um dos truques mais complicados que alguém pode realizar. Transformar a figura do mocinho em antagonista e os vilões em modelos capazes de compelir e fazer o espectador torcer é algo difícil (estou olhando pra você, Esquadrão Suicida). Surgindo como uma mistura e recombinação de diversos filmes que funciona de uma forma incrivelmente eficiente, O Homem nas Trevas se revela como um suspense descompromissado e capaz de segurar o espectador pela garganta.

A trama gira em torno do trio formado por Rocky (Jane Levy), Alex (Dylan Minnette) e Money (Daniel Zovatto), que se reúnem para cometer pequenas invasões em residências luxuosas graças ao fácil acesso de um deles à companhias de segurança. Dentre tantas potenciais vítimas, eis que a oportunidade do “perfeito trabalho final” surge quando o grupo decide invadir a casa de um homem cego (Stephen Lang) que aparentemente guarda uma fortuna valiosa. O problema é que o alvo é um ex-militar altamente treinado e um tanto maluco.

A premissa é uma interessante subversão de não um, mas de três bons filmes: primeiro, temos Um Clarão nas Trevas, filme de Terence Young que garantiu uma indicação ao Oscar para Audrey Hepburn, na pele de uma mulher cega que tem a casa invadida por dois ladrões. Segundo, temos o clássico infantil Esqueceram de Mim, onde os assaltantes sofrem nas mãos e armadilhas do travesso Macaulay Culkin ao invadirem sua casa durante o Natal. E, este mais num nível temático, Quarto do Pânico ao apostar na claustrofobia e confinamento dos personagens dentro de uma casa e – novamente – transformando os invasores em protagonistas e o morador em um mortal antagonista.

Mas a fórmula para o sucesso está em transformar os bandidos molhados Joe Pesci e Daniel Strand em protagonistas com os quais podemos nos identificar e torcer e a delicada Audrey Hepburn em um monstro calculista e assustador. É uma ideia excelente que Fede Alvarez e Rodo Sayagues exploram com segurança ao apostarem em arquétipos sólidos de personagem e uma narrativa que não pretende explodir com pretensões, mas que se arrisca bastante ao trazer algumas reviravoltas em seu terceiro ato – que literalmente transformam o filme em uma variante do gênero do terror. Essas reviravoltas são interessantes, e o leque de referências se abre para influências fortes de CujoStephen King, e Wes Craven em sua fase slasher dos anos 80. Isso é um grande elogio, mesmo.

É uma história simples que é elevada graças à inebriante experiência que Alvarez nos oferece. Assim que os personagens se veem presos dentro da casa, sendo caçados pela figura ameaçadora de Lang, o longa transforma-se no suspense mais tenso e tenebroso do ano, fruto do habilidoso trabalho de câmera de Alvarez – cujos planos sequências surgem como um misto interessante de James Wan e o próprio “David Fincher digital” de Quarto do Pânico, da fotografia demasiadamente sombria de Pedro Luque (que chega a usar visão noturna durante uma sequência específica) e todo o trabalho do departamento de som. Cada ruído, passo e batida do vento na janela é perceptível aqui, sendo uma conquista brilhante tanto em termos de edição de som (os efeitos em si) quanto em mixagem, no caso com a entrada da arrepiante trilha musical de Roque Baños.

O elenco também realiza um trabalho competente. A subestimada Jane Levy retoma a parceria de A Morte do Demônio com Alvarez para garantir a personagem com arco dramático mais forte e que gera maior identificação com o público, e a atriz é intensa o bastante para segurar a maioria de suas cenas. Dylan Minnette e Daniel Zovatto encarnam bem seus estereótipos de “bússola moral” e o “babaca”, mas acabam não ganhando tanto espaço quanto Levy. Porém, é Stephen Lang que surpreende em sua performance física assustadora. Beneficiado pela chamativa maquiagem nos olhos, Lang tem momentos de genialidade aqui, como quando o vemos interagindo com o grupo pela primeira vez, e sua pose de “velhinho indefeso” é brutalmente convertida na persona do caçador psicótico que tomará o restante do longa para si. A história também trilha caminhos que oferecem um material ainda mais complexo para Lang explorar, mas paro aqui para evitar spoilers que precisam ser preservados.

O Homem nas Trevas é uma experiência pulsante e intensa, beneficiada pelo domínio de Fede Alvarez do gênero e um bem aplicado leque de referências e subversões do gênero que ajudam a tornar este um dos melhores suspenses do ano.

O Homem nas Trevas (Don’t Breathe, EUA – 2016)
Direção: Fede Alvarez
Roteiro: Fede Alvarez e Rodo Sayagues
Elenco: Jane Levy, Dylan Minnette, Daniel Zovatto, Stephen Lang
Duração: 88 min

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.