Crítica | O Homem Que Caiu na Terra

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estrelas 4

Quando estreou na direção, em 1970, Nicolas Roeg já era um veterano no cinema, tendo trabalhado principalmente como diretor de fotografia e em setores de produção similares. Performance (1970) e A Longa Caminhada (1971) tiveram boa recepção do público e da crítica, que via em Roeg um dos artistas mudavam a face do cinema britânico setentista. Ele era um diretor aliado a ideias que se distanciavam do realismo social cru e exaltavam uma visão filosófica (em meio ao caos), esotérica e existencialista da vida, cujas questões políticas estavam nas entrelinhas ou citadas como parte secundária das tramas. Depois de Inverno de Sangue em Veneza (1973), a capacidade de Roeg em misturar um trabalho estético inovador a uma trama atraente se tornaram evidentes. E daí surgiu a possibilidade para o orçamento de seu próximo filme, O Homem Que Caiu na Terra (1976).

Baseado em um livro de Walter Tevis publicado em 1963, o filme conta a história de um alienígena que vem à Terra (ele não “cai”, como que por acidente, como o título sugere) em uma missão urgente. Seu planeta está morrendo por falta de água e ele vem à Terra por saber ser um lugar ideal para encontrar o que precisava. O texto de Paul Mayersberg não deixa claro como o personagem faria uso do líquido a seu favor, mas isso é o menos importante na história. Claro que existe a curiosidade e o roteirista até nos dá algumas pistas, porém, nada muito claro ou definitivo.

No papel do alien Thomas Jerome Newton temos David Bowie, que tinha acabado de lançar o álbum Young Americans (1975) e, após terminar as filmagens, começaria a trabalhar no excelente Station to Station, lançado dois meses antes da estreia do filme e bastante influenciado por ele. Nicolas Roeg já tinha trabalhado com outro ícone de seu país, Mick Jagger, em Performance, então sabia muito bem como utilizar o poder imagético de um astro da música a favor de seu filme, feito que voltaria a repetir quando trabalhou com Art Garfunkel em Bad Time (1980).

Com uma estrela que tinha o poder de causar imediato impacto — curiosamente este foi o primeiro filme em que Bowie atuou, embora já tivesse aparecido rapidamente em outros — e uma concepção de cinema bastante chamativa, Roeg fez O Homem Que Caiu na Terra da maneira mais “bagunçada, enigmática e entrecortada” possível. A montagem do filme parece ter se esquecido de colocar os planos de ligação e, dependendo do espectador, essa narrativa que “pula” eventos pode incomodar bastante. Mas preste atenção na solidez com que cada bloco, mesmo exposto em descontinuidade, funciona bem e é tão madura que torna crível e aceitável o bloco posterior. Então percebemos o rigor da direção e a ótima edição de Graeme Clifford, colocando coesão dramática onde, em linhas gerais, só existe confusão.

A condição humana e a visão do “estrangeiro” sobre nós, terráqueos, é uma das faces da obra, que tem por objetivo mostrar alguém “puro” sendo engolfado pelo nosso sistema civilizacional. Através de pequenas cenas alternadas à trama central vemos o planeta natal de Thomas, sua esposa e filhos, seu planeta condenado, tudo isso mostrado com forte impacto moral e emotivo, mas nada que condene o “visitante”, que muitas vezes me lembrou personagens, situações e/ou valores caros a David Bowie, especialmente em seu disco The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (1972).

Assistir a O Homem Que Caiu na Terra é como se estivéssemos ouvindo e vendo a suíte Os Planetas, de Gustav Holst (que inclusive toca no filme) dentro de um patamar místico e cheio de libido, maldade, pureza, abandono, relacionamentos… a vida, enfim. Comentei anteriormente que é possível haver certa rejeição do público à forma pouco usual do diretor contar a história, uma vez que ela dá saltos muito longos, deixando de desenvolver alguns pontos (e isto não é algo negativo em todos os saltos, apenas no meio do filme). Todavia, esse caminho cheio de reticências apresenta uma boa dose de surpresas e faz o espectador pensar e avaliar conceitos e comportamentos vistos na tela, como o vício de Thomas em televisão, a indiferença dele ao sentimento das pessoas ao seu redor, o vampirismo e filosofia maquiavélica dos empresários relacionados com sua empresa, a entrega passiva dele aos médicos e ao próprio sistema na reta final do filme.

Nesta ficção científica esotérica ou filosófica ou qualquer outra classificação adicional que se queria dar, uma das perguntas principais é esta: o que deve acontecer para que alguém com uma missão de vida e morte seja corrompido de seu objetivo e, do que era, fique apenas a lembrança, tardiamente manobrada para que alguém, em algum momento futuro, possa ouvir o pedido de desculpas ou o grito de desespero pelo fracasso da missão? Através de uma forte sensibilidade, formato estético experimental e pontualíssima trilha sonora, ótima edição e mixagem de som, figurinos e maquiagem, Nicolas Roeg discute o íntimo de um “estrangeiro” refletindo e refratando nossa moral e ética, mostrando que a corrupção, no sentido original da palavra mas aplicado ao social, é uma das piores coisas da nossa civilização ou da existência, especialmente se ela chega aos valores compartilhados e domina as ideias pessoais de alguém. Quem quer que seja.

O Homem Que Caiu na Terra (The Man Who Fell to Earth) — Reino Unido, 1976
Direção: Nicolas Roeg
Roteiro: Paul Mayersberg (baseado na obra de Walter Tevis)
Elenco: David Bowie, Rip Torn, Candy Clark, Buck Henry, Bernie Casey, Jackson D. Kane, Rick Riccardo, Tony Mascia, Linda Hutton, Hilary Holland
Duração: 139 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.