Crítica | O Homem Que Matou Dom Quixote

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Do momento em que o diretor Terry Gilliam leu Dom Quixote, em 1989, até o lançamento oficial do filme, em maio de 2018, muita coisa ruim aconteceu. Diante de tantos inícios, cancelamentos, reinícios, novos cancelamentos, falsos inícios e inúmeros problemas de produção, o amaldiçoado projeto de Terry Gilliam enfim viu a luz. Para quem deseja saber mais sobre o segundo processo de produção do longa iniciado em 1998, vale muitíssimo a pena assistir ao documentário Perdido em La Mancha (2002), onde todos os dissabores possíveis que podemos imaginar para uma produção cinematográfica, de desastres naturais a doença do protagonista, aconteceram. Mas este é apenas um capítulo da saga quixotesca do próprio Gilliam para realizar o seu sonho de dirigir O Homem Que Matou Dom Quixote.

Resultado do fracasso da produção de 1998, os direitos do filme ficaram nas mãos da seguradora. O passo seguinte do diretor foi reaver esses direitos, algo só concluído em 2008, embora o artista viesse trabalhando nisso desde 2003, inclusive entrando em contato com atores, atrizes e equipe técnica para a “nova-nova produção de Quixote“. Houve uma terceira tentativa em 2010: não foi pra frente. Houve uma quarta tentativa em 2014: não foi para frente, dessa vez, por outro problema de saúde de um personagem principal: John Hurt. Houve uma quinta tentativa em 2016, que não foi para frente por divergências hercúleas entre Gilliam e o produtor português Paulo Branco, num processo que rendeu acusação à equipe de produção do filme por ter danificado um Convento considerado patrimônio histórico pela UNESCO. A investigação acabou dando em “danos insignificantes”, mas as filmagens foram interrompidas ali.

Apenas em 2017, vinte e sete anos anos depois da primeira tentativa, Terry Gilliam realmente conseguiu produzir e filmar O Homem Que Matou Dom Quixote, agora com Jonathan PryceAdam Driver nos papéis de Quixote e Toby/Sancho Pança, respectivamente, ambos com interpretações dignas de se aplaudir de pé. Em essência, o roteiro segue a base da produção iniciada em 1998, inspirado em Um Ianque Na Corte Do Rei Artur, de Mark Twain, e que Gilliam escreveu ao lado de Tony Grisoni. Na trama, Toby é um cínico publicitário considerado um gênio em sua área, mas que se vê atacado por uma crise de criatividade. Ele está filmando um comercial na Espanha, onde já estivera, muitos anos antes, fazendo um projeto para a Universidade. O nome desse seu projeto da juventude? O Homem Que Matou Dom Quixote. Já no primeiros momentos o diretor usa marcantes estilos da música tradicional espanhola, para guiar sequências marcantes e também o que trazem de consequência para os personagens, especialmente em momentos de teor cômico (a essência do filme) e romântico.

Para Terry Gilliam, Quixote não foi apenas o seu “filme dos seus sonhos”, mas também uma maneira de experimentar coisas novas como diretor. Desta vez, estamos diante de seu primeiro filme rodado em digital e de seu primeiro filme capturado por lentes anamórficas, uma empreitada visual da qual o cineasta fez um excelente uso, fortalecendo a interação de personagens ao mesmo tempo contemporâneos e que nos remetem aos romances de cavalaria, mais os grandiosos cenários das Ilhas Canárias, Castilla-La Mancha e Navarra, em Espanha, e do Convento de Cristo, em Tomar, Portugal. Envolvido no projeto desde a versão de 98, o fotógrafo italiano Nicola Pecorini nos mergulha em Universos fantasiosos dominados pelas mais diversas paletas de cores e presença de luz, espaços que ora abraçam a realidade, ora enganam público e os personagens diante de sua característica alucinatória. E coroando essa pintura em luz temos a direção de arte e os figurinos, que se destacam especialmente nas cenas dentro do “castelo”, onde as grandes provações de Dom Quixote acontecem.

Há uma forte conexão temática entre este filme e Oito e Meio, de Fellini, tanto na proposta metalinguística aliada às ilusões e alucinações mais as questões sociais, laços amorosos e valores pessoais e artísticos que parecem mudar a cada sequência. Isso ocorre porque o roteiro não nega em nenhum momento a sua proposta de integrar visões da realidade, como uma espécie de matrioska fílmica, onde um sapateiro espanhol que acredita ser Dom Quixote entra na vida de um publicitário-estrela e faz com que um projeto de filmagens conheça um atraso cronograma, indisposição de elenco, problemas de financiamento e pressão dos Executivos. Igualzinho ao que aconteceu com o próprio Terry Gilliam. O filme é provocativo em uma grande quantidade de sentidos e se vende sozinho como uma crônica fantasiosa sobre o processo de produção cinematográfica (mas pode ser de qualquer arte em que o artista não consegue realizar e/ou divulgar seu trabalho sozinho), sobre a concepção de uma boa história e sobre sonhos pessoais.

O espectador precisa entender que não se trata de um filme comum. Estamos falando de Terry Gilliam, certo? A proposital loucura e a liberdade criativa do diretor seguem em alta e nos traz não uma adaptação fiel do famoso livro de Miguel de Cervantes, mas uma leitura que, sem dúvida nenhuma, captura a alma do livro. Algumas “corridas para a liberdade da mente“, no miolo da fita, até poderiam ser facilmente cortadas da edição, mas esta é uma observação zelosa demais frente à organicidade, o que não atrapalha o andamento do filme, embora tire algumas lascas de seu brilho. Se alguém algum dia perguntar “por quê” filmar Dom Quixote e “por quê” logo em uma Era onde novos representantes da loucura e da fantasia são tão mais atrativos para o grande público, que seja mostrado esse filme como justificativa. A jornada de um homem que quanto mais louco e que quanto mais sofre, mais gostamos dele. A jornada de um sonhador. Alguém com quem dividimos, ao menos por um momento, a forma infantil e criativa de olhar o mundo. O olhar nada comum de Terry Gilliam para aquele que envelhece, aquele que imagina, aquele que cria. Já a racionalidade que não permite a viagem para este mundo é a entidade incapaz de incorporar o fantástico em sua persona. A verdadeira identidade do homem que matou Dom Quixote.

O Homem Que Matou Dom Quixote (The Man Who Killed Don Quixote) — Espanha, Bélgica, França, Portugal, Reino Unido, 2018
Direção: Terry Gilliam
Roteiro: Terry Gilliam, Tony Grisoni
Elenco: Adam Driver, Jonathan Pryce, Stellan Skarsgård, Olga Kurylenko, Joana Ribeiro, Óscar Jaenada, Jason Watkins, Sergi López, Jordi Mollà, Diogo Andrade, Eva Basteiro-Bertoli, Paloma Bloyd, Jorge Calvo, Jimmy Castro, Maria d’Aires
Duração: 132 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.