Crítica | O Homem que Não Estava Lá (2001)

O Homem que Não Estava Lá

estrelas 4

Engraçado assistir a um filme narrado por um personagem que não gosta de falar. Ao adentrar o universo metalinguístico de O Homem que Não Estava lá, há não tão longínquos 15 anos, um misto de fascinação e surpresa tomou não só a mim, mas aos demais presentes na sessão de cinema que fazia brilhar os olhos. Aquilo era algo diferente, mas hollywoodiano. Como lidar?

O jeito foi buscar mais informações sobre a dupla de realizadores. Eram os irmãos Coen, dupla marco do cinema estadunidense contemporâneo, financiados através de estúdios renomados, entretanto, cineastas que conseguem construir os seus universos, explorando os gêneros cinematográficos e dando um caráter autoral aos filmes, mesmo diante de uma indústria controladora e conhecida por pasteurizar muitas das suas narrativas.

Donos de uma expressão singular no campo do cinema, os irmãos Coen conseguem circular pelo mercado e realizar filmes “diferenciados”, algo existente, mas pouco comum no ciclo hollywoodiano. Em 2001, O Homem que Não Estava Lá chegou aos cinemas exalando charme, adornado pela sofisticada estética noir: jogos de luzes, personagens enigmáticos, mistérios e situações inesperadas, tudo isso numa complexa embalagem existencialista.

O “filme narrado” pelo personagem que não gosta de falar nos apresenta a angustiante existência de Ed Crane (Billy Bob Thorton), um barbeiro que vive os seus dias na inércia, em Santa Rosa, Califórnia, nos Estados Unidos, em 1949, período conhecido pelo pós-guerra e por suas modificações no painel das engrenagens sociais. O seu casamento com Doris (Frances McDormand) segue friamente, assim como a sua existência. Ciente de que é traído pela esposa com o chefe da mesma, leva a vida em “atos de fingir”.

Certo dia, um homem adentra ao seu local de trabalho e durante uma conversa, expõe uma proposta de negócio que pode mudar a vida do barbeiro insatisfeito com a sua ofuscada existência. Diante da tentação e da possibilidade de alpinismo social, Ed chantageia o amante da sua esposa, tendo em vista conseguir o dinheiro para supostamente mudar de vida.

O que ele não esperava é que as coisas dessem errado: a chantagem acaba em assassinatos, a sua esposa é presa, ele envolve-se com uma jovem artista e acaba preso. Em suma, situações irreverentes, desfecho inesperado, afinal, tratando-se de uma narrativa focada na linguagem do cinema noir, nada é o que parece ser.

Cheio de charme e estilo, no que tange aos aspectos formais, O Homem que Não Estava Lá é um primor narrativo. Chega a ser pernóstico de tão fabuloso. Uma aula de cinema aprimorada e requintada. O cenário, o figurino e a maquiagem fazem uma eficiente reconstituição de época, juntamente com a eloquente direção de fotografia de Roger Deakins: o profissional captou as cenas em negativo colorido, abolindo as cores e impregnando as imagens de vários tons de branco, preto e cinza.

A trilha sonora de Carter Burwell é igualmente funcional, trabalha na medida certa, sem antecipar emoções ou dramatizar demais o que a imagem por si já satisfaz. Ao longo dos 118 minutos de filme, fotografia, trilha, personagens e a sofisticada direção dos irmãos Coen trabalham numa simbiose perfeita, ofertando aos olhos do público o melhor do cinema contemporâneo.

Falar do roteiro numa produção dos irmãos Coen não é algo complexo, haja vista que a dupla quase nunca falha. Cuidadosos, são seguidores do lema “qualidade, não quantidade”. Donos de uma carreira bem sucedida tanto no eixo comercial como na aceitação da crítica especializada, desta vez o destaque vai não somente para os elementos estéticos da visualidade. È preciso se ater ao desempenho de Billy Bob Thorton, brilhante ao desenvolver o seu personagem “fracassado”.

Fruto de uma sociedade capitalista massacrante, Ed desloca-se da inércia ao perceber que precisa fazer algo para ascender socialmente. Ao fumar os seus cigarros sem filtro, é um homem bastante calado, algo estranho para a sua profissão, um barbeiro que precisa atender clientes falastrões cotidianamente. Reflexivo e constantemente insatisfeito, é uma pessoa que julga a tudo e a todos silenciosamente.

Após a epifania que promete mudar os rumos da sua vida (e mudarão), Ed adota a lógica de que “os fins justificam os meios”, conforme a frase atribuída ao renascentista Maquiavel. Independente de como as coisas irão se suceder, ele precisa mesmo é sair da situação em que se encontra, afinal, sendo barbeiro, desenvolve um trabalho manual sem exigência de capital intelectual. Moral da história: é preciso mudar de status. Nem que para isso seja preciso agir violentamente, tanto na seara física quanto na psicológica.

Ao passo que a narrativa avança, percebemos que há um paralelo com o clássico moderno O Estrangeiro, de Albert Camus. Baseada no existencialismo, corrente filosófica marco do pós-guerra, a obra possui a subjetividade como elemento chave para compreensão do desenvolvimento da narrativa, assim como O Homem que Não Estava Lá. No livro, o protagonista Meursault é casado com Maria, com quem vive uma relação infeliz. Taciturno, mostra-se um homem incapaz de apresentar as suas emoções, sendo quase sempre contido em suas feições e gestos corporais.

Alçado a situações que fogem do seu controle, o personagem literário encontra no personagem fílmico semelhanças bem delineadas. Se não se trata de uma adaptação assumida, estamos diante de um profícuo estudo no campo da literatura comparada. Ambos são a representação cabal dos estilhaços do existencialismo: quanto mais o homem se lança na busca de explicações e satisfações, mais ele caminha rumo a um niilismo com consequências tenebrosas.

Como aponta Anthony Giddens em Modernidade e identidade, os tempos modernos estão cheios de incertezas, o que promove nos indivíduos a busca constante por novas identidades para melhor viver. Tal afirmação forma uma equação existencialista formidável ao dialogar com o pensamento de Rossano Pecoraro, intelectual que alega estar “a superfície de verdades e valores antes congelada, agora despedaçada e de difícil caminhada”. Assim é o universo de Ed Crane, um homem que luta para viver melhor a sua trajetória marcada por um destino fatídico.

Dentre as cenas mais marcantes, há a convicção do personagem acerca da falta de sentido para a sua existência. De acordo com o fluxo de pensamento de Ed Crane, ele era apenas “um fantasma”. “Não via ninguém. Ninguém me via. Eu era simplesmente o barbeiro”. A passagem seria mais uma cena sofisticada do filme, se não fosse a lentidão dos transeuntes observados pela ampla profundidade de campo do enquadramento, bem como a Sétima Sinfonia de Beethoven. É uma cena enigmática, densa e inesquecível.

O filme foi indicado ao Oscar de Melhor Fotografia, sendo ovacionado em outras premiações, como por exemplo, o Festival de Cannes, além das três indicações (Melhor Drama, Melhor Ator e Melhor Argumento) ao Globo de Ouro. Indo muito além da metalinguagem, essa incursão dos cineastas no universo noir demonstra a fascinação que os mesmos têm de referenciar, através da paródia e do pastiche, os símbolos da cultura estadunidense. É um segmento focado na memória da dita sétima arte, alimentando-se das suas tendências, sem deixar de oferecer algo inovador e genial.

O Homem que Não Estava Lá (The ManWho Wasn´t There) – EUA/Reino Unido, 2001.
Direção: Joel Coen e Ethan Coen
Roteiro: Joel Coen e Ethan Coen
Elenco: Billy Bob Thornton, Frances McDormand, Michael Badalucco, James Gandolfini, Scarlett Johansson, Tonny Shalhoub, Brian Haley, Richard Jenkins, Jon Polito
Duração: 116 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.