Crítica | O Homem Que Ri (2012)

estrelas 2,5

Por ocasião do lançamento de O Homem Que Ri (2012), o diretor francês Jean-Pierre Améris afirmou o seu apreço pela obra de Victor Hugo e como ele tentou trazer para o filme alguns dos elementos mais fortes do original, principalmente a relação vampiresca entre aristocracia francesa e a população miserável do país.

O Homem Que Ri foi escrito em 1869, no período de exílio de Hugo na ilha de Guernesey, onde ele se dedicou a discutir o despotismo da aristocracia e o alcance disso na vida das pessoas comuns. Mas além do estado social das coisas, o autor trabalha questões psicológicas de primeira ordem, trazendo à luz uma das personagens mais fantásticas e ao mesmo tempo mais grotescas da literatura do século XIX: Gwynplaine, o homem que ri.

Tendo os dois lados de sua boca sido esculpidos em um grotesco sorriso pelo médico de um grupo de ciganos chamado de comprachicos, Gwynplaine se tornou um rapaz horrendo, com grandes cicatrizes até as orelhas (segundo o livro), dando-lhe um aspecto que chamaria a atenção dos visitantes das feiras por onde passava e onde era visto como uma espécie de monstro de circo. Ao mesmo tempo que assustava, Gwynplaine emocionava o público com suas representações teatrais ao lado de Déa, a garota cega que ele encontra na mesma noite congelante em que foi deixado no cais, quando os comprachicos fugiram da Inglaterra.

A adaptação de Jean-Pierre Améris é leve e açucarada, focando mais na persona de Gwynplaine e suas relações sentimentais do que no ambiente e personagens à sua volta, um caminho distinto daquele que Paul Leni seguiu ao dirigir sua versão de O Homem Que Ri, em 1928.

O diretor e sua equipe conseguem mostrar um bom trabalho visual, especialmente na apresentação da dupla de órfãos que é acolhida por Ursus, até a chegada deles na capital do reino, onde as coisas começam a mudar compassadamente. Analisando friamente, a linha de eventos trazida da literatura não difere tanto assim da versão vintage do filme. É evidente que nesta adaptação de 2012 existem elementos próprios de nossa época, algo que podemos ver claramente no discurso de Gwynplaine, mas não temos reviravoltas mirabolantes, de modo que as duas versões, nesse ponto, são bastante similares. Todavia, é o foco narrativo e a intensidade ou importância dada a certos acontecimentos que fazem toda a diferença.

Ao dar maior atenção à psicologia de Gwynplaine – o que não é uma ideia ruim de adaptação, diga-se de passagem – o diretor e seu corroteirista, Guillaume Laurant (parceiro constante de Jean-Pierre Jeunet desde Ladrão de Sonhos, 1995) tendem a transformar o filme em uma saga de toques pessoais e bastante sentimentais, vez ou outra focalizando melhor um aspecto de Déa, Ursus ou Sylvain, o músico. Vê-se logo que a proposta de contar a história se perde um pouco nela mesma, e esse desequilíbrio é ainda mais forte dramaticamente falando, tendo uma espécie de compensação vinda com o sofrimento do protagonista, culminando com o desfecho trágico (como na obra de Hugo) mas de contornos graciosos, quase fantásticos, algo que minimiza consideravelmente o peso da tragédia.

Marc-André Grondin dá vida a um Gwynplaine visualmente interessante mas dramaticamente insosso. Não faltam esforços do ator para mostrar algo diferente, todavia, o roteiro não dá muito espaço para criações extraordinárias de atuação. A bela Christa Theret segue a mesma linha, mas tem a desvantagem de sua personagem ser sutilmente escanteada no roteiro, o que também não lhe permite mostrar nada além do básico e pouco notável. Gérard Depardieu é sempre uma presença forte na tela, e faz um Ursus correto, porém, não brilhante. O elenco conta ainda com a boa participação de Emmanuelle Seigner, como a Duquesa Josiane e o simpático Swann Arlaud como o músico Sylvain.

Pouco profundo, mas visualmente chamativo, especialmente pelos figurinos e maquiagem, essa versão de O Homem Que Ri pode ser um bom divertimento para espectadores menos exigentes, mas com certeza vai incomodar, nem que seja um pouco, qualquer pessoa que (e eu tentei evitar fazer essa comparação durante todo o texto, mas agora vai) tenha visto a encarnação de Gwynplaine vivida por Conrad Veidt.

O Homem Que Ri (L’homme qui rit) – França, República Checa, 2012
Direção: Jean-Pierre Améris
Roteiro: Jean-Pierre Améris, Guillaume Laurant (baseado na obra de Victor Hugo)
Elenco: Gérard Depardieu, Marc-André Grondin, Emmanuelle Seigner, Christa Theret, Arben Bajraktaraj, Serge Merlin, Christèle Tual, Swann Arlaud
Duração: 95 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.