Crítica | O Homem Que Sabia Demais (1956)

estrelas 5

A refilmagem de seu próprio filme de 1934 é a prova mais concreta da evolução de Hitchcock ao longo dos anos. Em nossa crítica do filme original citamos sua conversa com Truffaut no qual o diretor admite, de forma bastante modesta, o avanço deste segundo filme em relação ao anterior.

A história é a mesma do longa de sua fase britânica. Um casal e seu filho, de férias em Marrocos, acabam se envolvendo, acidentalmente, em uma conspiração de assassinato. Para impedir que Dr. Benjamin McKenna (James Stuart) e sua esposa, Josephine “Jo” Conway (Doris Day), interfiram, os assassinos sequestram seu filho. Não é preciso dizer que os protagonistas, impedidos de revelarem seu conhecimento às autoridades, decidem reaver seu filho com as próprias mãos.

O que facilmente poderia se tornar uma espécie de Busca Implacável nos dias de hoje é conduzido de forma única por Hitchcock. Por mais que os McKenna detenham o papel principal no resgate do filho, a visão geral do problema sempre é deixado à distância do casal. Uma ação leva a outra de forma bem encadeada e ambos estão à mercê de eventos praticamente inevitáveis. Ainda assim, o roteiro de John Michael Hayes consegue deixar um fio de esperança para os dois personagens, ao mesmo tempo, que garante a credibilidade da história – são duas pessoas comuns e somos convencidos disso.

O suspense, introduzido desde a primeira cena no ônibus em Marrocos, lentamente se constrói conforme nos afastamos daquele ponto inicial da história. Esta é uma obra que, de forma efetiva, consegue nos levar em uma jornada cujo fim soa a anos de distância de seu início. É a sensação do casal cujo filho foi raptado ganhando vida e passando para o espectador – dias que não acabam, que se arrastam, mas que conseguem prender nossa atenção desde o princípio.

O suspense culmina em seu inesquecível clímax, uma união da singular utilização de som, música e montagem a fim de construir uma angustiante cena de assassinato. Os enquadramentos acompanham o olhar de cada personagem, construindo, apenas através da imagem, a forma como o terrível ato irá ser realizado. O conhecimento inserido, cenas atrás, sobre o momento preciso do feito é retomado na sequência e, sabiamente, Hitchcock insere diversos quadros dos pratos que irão ser tocados na ocasião. A música, em tom crescente, sedimenta o nervosismo da personagem que, aos poucos, passa para nós e, em um momento chave, de forma quase que imperceptível, a orquestra ofusca completamente o som ambiente, tirando o fôlego de qualquer um.

O que vemos após tal sequência é uma forma de epílogo do filme, a resolução que, embora insira um outro elemento de tensão, é brevemente (como deve ser) resolvida. Assim, Hitchcock, constrói um de seus maiores thrillers, garantindo mais uma obra inesquecível para o cinema e um dos maiores e melhores exemplos da montagem clássico-narrativa bem realizada. Aqui corroboramos as palavras do Mestre do Suspense, afirmando sem a menor dúvida: esta é a obra de um profissional.

O Homem Que Sabia Demais (The Man Who Knew Too Much, EUA – 1956)
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: John Michael Hayes (baseado na história de Charles Bennett  e D.B. Wyndham-Lewis)
Elenco: James Stewart, Doris Day, Brenda de Banzie, Bernard Miles, Ralph Truman, Daniel Gélin, Mogens Wieth, Alan Mowbray, Hillary Brooke, Christopher Olsen.
Duração: 120 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.