Crítica | O Horror de Dunwich, por H.P. Lovecraft

estrelas 5,0

Tendo inspirado centenas de artistas do último século, H.P. Lovecraft tem ganhado cada vez mais visibilidade nos últimos anos, reflexo natural da Era da Informação e da transmídia, que nos traz em obras das mais distintas espécies a mitologia do escritor de terror. Alan Moore, Neil Gaiman, Guillermo Del Toro, Stephen King, são apenas alguns dos artistas que devem muito de suas carreiras a Lovecraft, qualquer um que tenha lido ou assistido alguma das produções desses pode atestar esse fato. Infelizmente, por mais que a cultura popular tenha absorvido muito dos escritos desse homem, sua literatura acaba passando despercebida por grande parte das massas, mesmo aos entusiastas do terror. Eu mesmo tive o primeiro contato com sua obra há pouco, embora já tivesse conhecimento de parte do mito que criara. Esta crítica não é apenas uma análise, portanto, é um apelo para vocês leitores, uma prova do que O Horror de Dunwich oferece.

Na pequena cidade de Dunwich, em Massachusetts, evitada por viajantes da região, que sentiam o nefasto ar daquelas montanhas, viva Lavínia Whateley, uma albina que mesmo para os moradores do local já era enxergada de forma diferenciada. A história se inicia com o nascimento de seu filho Wilbur, cujo crescimento e amadurecimento intelectual precoces rapidamente atraem a atenção das pessoas à sua volta. A condição do garoto, porém, é apenas a ponta do iceberg, ao passo que ele começa a explorar conhecimentos proibidos vinculados aos deuses antigos.

Através desta premissa Lovecraft constrói uma potente obra de terror e suspense, parte do conjunto denominado Cthulhu Mythos, um horror cósmico que definiria sua obra como um todo. Ao longo dos dez capítulos de O Horror de Dunwich o autor trabalha um crescente medo no leitor, cada página, frase e palavra aumenta o suspense que culmina no surpreendente clímax nos capítulos finais. A estrutura, à primeira vista, nos soa estranha, utilizando um narrador onisciente, o texto já nos guia oferecendo leves relances do que está por vir. O título, trazido à tona diversas vezes, lentamente cria uma insaciável curiosidade em nós, que ansiamos por descobrir do que se trata o tal horror anunciado. Naturalmente essa retomada do nome da obra se dá em virtude da forma como o conto foi publicado – por capítulo – mas o autor sabe usar isso a seu favor. Uma desconfortável premonição passa a ocupar as nossas mentes e cada virada de página se torna mais veloz. A fluidez da obra é, curiosamente, construída por nossa própria percepção dela.

De todas as qualidades do conto, porém, talvez nenhuma delas seja mais emblemática que sua atmosfera, tão crucial para o triunfo do autor em seu gênero. Com descrições precisas, Lovecraft constrói uma forte imagem mental em seus leitores, como se nós próprios caminhássemos pela pequena cidade e montanhas de Dunwich. O vínculo com suas outras produções também é essencial, garante uma ideia de um universo maior que aquele que lemos – menções ao Necronomicon, a Cthulhu e aos outros deuses ancestrais são apenas alguns dos elementos utilizados para nos dar um frio na espinha, especialmente aqueles que já leram outros escritos do autor. Trata-se de um domínio singular de seu próprio universo, como se um conto fosse pensado no outro, característica ausente em muitos escritores que desejam compor uma obra serializada.

O Horror de Dunwich é, portanto, uma prova irrefutável do impacto da literatura de H. P. Lovecraft é uma excelente porta de entrada para todos que desejam conhecer um pouco mais desse autor que tanto influenciou os séculos XX e XXI. No conto enxergamos muito do que já lemos ou assistimos em outras produções mais recentes e essas conexões mentais que fazemos certamente dão ainda mais gosto à leitura. Definitivamente um terror de gelar a espinha.

O Horror de Dunwich (The Dunwich Horror, EUA – 1929)
Autor:
H.P. Lovecraft
Editora no Brasil: Várias
Tradução: Várias

Páginas: 208

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.