Crítica | O Imortal Punho de Ferro: Armas Imortais (2009)

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Obs: Leiam, aqui, todas as nossas críticas de quadrinhos do Punho de Ferro.

De acordo com a expansão da mitologia do Punho de Ferro imaginada por Ed Brubaker e Matt Fraction na segunda série solo mensal do herói, O Imortal Punho de Ferro, a cidade mística de K’un Lun, na verdade, é apenas uma das Sete Cidades Celestiais, cada uma delas com um campeão ou Arma Imortal. Enquanto o Punho de Ferro é a Arma Imortal de K’un Lun, Cobra Gorda, Noiva das Nove Aranhas, Irmão Cão, Bela Filha do Tigre e Príncipe dos Órfãos são as demais, com a 7ª Arma tendo sido assassinada por Orson Randall (o Punho de Ferro da Era de Ouro) e apenas momentaneamente substituída por Davos, que passou a usar o nome Fênix de Aço por um curto espaço de tempo.

Ao final do 2º volume de O Imortal Punho de Ferro, Danny Rand e as cinco Armas Imortais voltaram para a Terra e passaram a morar no secretíssimo 13º andar da Torre Rand, participando de aventuras variadas, mas especialmente a que leva o grupo todo para a então recém-revelada 8ª Cidade Celestial no 5º e último volume de O Imortal Punho de Ferro. Não muito tempo depois do encerramento da publicação solo do Punho de Ferro, as Armas Imortais ganharam uma minissérie que, na verdade, é a reunião de cinco edições one-shot, uma sobre cada uma delas, com estilos e equipe criativa completamente diferentes. O único elemento que efetivamente reúne as edições (além de serem sobre as Armas Imortais, claro), é uma história secundária do Punho de Ferro intitulada The Caretaker, contada em cinco partes.

Diante desse quadro, decidi fazer uma breve crítica por edição e mais uma sexta para abordar exclusivamente The Caretaker. Seguem, então, meus comentários abaixo.

estrelas 5,0

Cobra Gorda
O Livro do Cobra

Cobra Gorda é o mais bonachão das Armas Imortais. Parecido com um lutador de sumô, todo cheio de tatuagens e sempre visto comendo, bebendo e cercado de belas mulheres, ele vive a vida da maneira mais desregrada possível, ainda que se mantenha como um excelente lutador.

Baseado nessa premissa, Jason Aaron faz uma divertida e ao mesmo tempo melancólica história em que Carmichael, um biógrafo contratado por Cobra Gorda para pesquisar sobre seu passado e escrever sua biografia, vem visitá-lo em uma Casa de Massagens e entregar o resultado de seu trabalho. Na certeza de que o livro contará seus grandes feitos, Cobra pede para Carmichael lê-lo em voz alta diante das massagistas, algo que o biógrafo faz com grande hesitação e depois de muita insistência. E logo descobrimos o porquê: a verdade história do Cobra Gorda é muito menos heroica do que ele imaginara, começando com seu abandono por seus pais biológicos, seguido por seu abandono pela creche que o acolheu e só indo ladeira abaixo – MUITO abaixo – a partir daí.

Se de um lado não fica claro – e nem precisava – como Carmichael obteve essas informações todas, de outro fica evidente a razão por que Cobra não se lembra de nada: passou a vida toda bêbado e literalmente apagou a verdade de sua mente, preferindo as versões heroicas que conta para tirar onda sempre que pode. Com isso, Aaron nos faz passear pelo Universo Marvel, inserido Cobra Gorda retroativamente em diversos momentos não muito importantes na cronologia da editora, como quando ele se uniu a Nick Fury e à S.H.I.E.L.D. para ajudar a livrar a lua de astronautas lobisomens soviéticos (sim, isso mesmo!).

A história é fluida, bem estruturada, com uma parcela no presente com arte de Mico Suayan, que preza por um traço mais realista e diversos flashbacks – ou ilustrações do que Carmichael lê -, cada um por um artista diferente, emprestando movimento a cada parte do passado da enorme Arma Imortal. O tom é predominantemente alegre, combinando com o Cobra Gorda, mas com um sub-texto triste, de alguém no fundo muito sozinho que vive basicamente de ilusões. Uma bela e original forma de se contar uma história de origem, O Livro do Cobra é engajante e enriquecedor, sem dúvida valendo muito a leitura.

Fat Cobra: The Book of the Cobra
Roteiro: Jason Aaron
Arte: Mico Suayan, Stefano Gaudiano, Roberto de la Torre, Khari Evans, Victor Olazaba, Michael Lark, Arturo Lozzi
Cores: Edgar Delgado, Matt Hollingsworth, Jelena Kevic Djurdjevic, Jodi Wolff
Letras: Nate Piekos
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: setembro de 2009

estrelas 1,5

Noiva das Nove Aranhas
A Canção da Aranha

De longe a pior história da minissérie, A Canção da Aranha, escrita por Cullen Bunn é uma colagem de situações que não só revela muito pouco da misteriosa Noiva das Nove Aranhas, como, também, é desinteressante em si mesma. A história é confusa, com um leilão de uma aranha que, dizem, pertenceu à predecessora da Noiva atual (que vemos agir em flashback no começo) e que, ao “cantar”, leva a quem escutar a ter visões variadas.

A essa premissa, segue-se a tentativa de furto da aranha por uma equipe de mercenários e, depois de muito tempo, o aparecimento da versão atual da Noiva, que quase nada faz. É como se Bunn estivesse com preguiça de tentar pensar em algo mais significativo para a personagem ou achando que sua pegada pseudo-modernosa, engajaria o leitor. Ao contrário, ainda que breve, a história demora a passar, com explicações didáticas demais e relevância de menos, dando pouco espaço para a personagem-título.

A arte de Tom Palmer e outros é igualmente pouco inspirada, quase no automático, com rostos inexpressivos e parecidos um com o outro e sequências de ação pouco empolgantes. Em nenhum momento – muito em razão do texto de Bunn, claro – sentimos urgência ou a pegada de “casa mal-assombrada” que ele tenta imprimir à história.

A Canção da Aranha é um desperdício de potencial.

Bride of the Nine Spiders: The Spider’s Song
Roteiro: Cullen Bunn
Arte: Dan Brereton
Arte-final: Tom Palmer, Stefano, Gaudiano, Mark Pennington
Cores: Paul Mounts
Letras: Nate Piekos
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: outubro de 2009

estrelas 4,5

Irmão Cão
Lenda Urbana

Assim como no caso da Noiva das Nove Aranhas, a história do Irmão Cão não é de origem, mas, diferente do trabalho de Cullen Bunn, Rick Spears consegue emprestar significado a seu trabalho ao mesmo tempo que consegue apresentar ao leitor a alguns detalhes sobre essa outra pouco explorada Arma Imortal.

A narrativa é contada a partir do ponto de vista de Sihing, um menino que se torna órfão durante a 1ª Guerra do Ópio, em Hong Kong, em 1841. Vivendo como criança de rua e adotando como protegido outro menino mais novo ainda que ele, Sihing vive de pequenos furtos aqui e ali, sempre esperançoso de que um dia o lendário Irmão Cão virá salvá-lo dessa vida. Mas ele sabe – e tem orgulho de contar as histórias para Sidai como uma forma de fuga – que a Arma Imortal somente virá em sua pior hora. Apesar de sempre tentar manter-se um pouco acima da total podridão, os garotos inevitalmente envolvem-se com o transporte de ópio, diariamente arriscando suas vidas fugindo da polícia, de gangues rivais e outros perigos. O Irmão Cão, assim, é algo que está apenas na mente deles, como aquele fiapo de esperança de um dia viverem algo melhor.

Spears é muito eficiente ao, em poucas páginas, criar empatia com Sihing e Sidai e não apenas pela situação de penúria dos jovens, mas por caracterizá-los muito bem como crianças lutando contra tudo e todos para sobreviver apenas mais um dia. E a forma como a lenda do Irmão Cão é entremeada na narrativa, sempre como uma história contada por Sihing, dá uma excelente dimensão ao personagem e deixando o leitor sempre na dúvida se ele existe de verdade e, mais ainda, se ele efetivamente aparecerá para salvá-los. A conclusão é até mais do que se pode esperar, uma verdadeira e inteligente – ainda que dura – passagem de manto que revela uma história madura e sem medo de ousar.

A arte ficou ao encargo de Tim Green II e seu trabalho combina muito bem com o texto de Spears. Os meninos ganham vida com seu lápis marcante, com pouca finalização, deixando seus semblantes sempre entristecidos e de certa forma sem acabamento para passar, sem exageros, o tipo de vida de provações que eles vivem. As sequências de ação são bem montadas, com belo uso de quadros e cores (de Edward Bola) muito expressivas.

Lenda Urbana é um belo exemplar da combinação de forma e substância em um conjunto harmônico de se tirar o chapéu.

Dog Brother #1: Urban Legend
Roteiro: Rick Spears
Arte: Tim Green II
Cores: Edward Bola
Letras: Nate Piekos
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: novembro de 2009

estrelas 3,5

Bela Filha do Tigre

Única história sem subtítulo, Bela Filha do Tigre é também a única outra edição da minissérie que lida com a origem de uma Arma Imortal. E a escolha de Duane Swierczynski, responsável pelos dois volumes finais de O Imortal Punho de Ferro, foi simples e eficiente: uma narrativa linear.

Sem invencionices, depois de uma página dupla misteriosa que parece mostrar o final de uma batalha no passado, conhecemos a bela Li Hua, a mais bela filha do Guerreiro Tigre, líder de sua cidade. Ela não é uma guerreira, pois mulheres não podem lutar ali, mas ela tem alma de guerreira, constantemente sonhando com sua mãe, que nunca conheceu, ensinando-a artes marciais. Quando seu pai volta da mais recente campanha de guerra em defesa da cidade, ela deseja mais do que tudo ouvir as histórias de batalha de forma a sentir-se o mais próximo possível de um uma vida de guerreira. Durante uma festa de boas-vindas, porém, sua cidade é invadida e ela descobre um segredo de 20 anos enterrado profundamente na mente dos homens da cidade e que muda completamente sua vida, transformando-a na Bela Filha do Tigre.

A história não é das mais originais, mas seu autor é muito eficiente em criar mitologia complexa em poucas páginas, ainda que esse one-shot seja o único que não acaba de forma completamente redonda, mas sim um tanto em aberto justamente por falta de espaço. Mas o desenvolvimento de Li Hua, se aceitarmos algumas conveniências (e um pouco do misticismo natural a histórias passadas no universo do Punho de Ferro), nos convence e engaja, tornando a leitura fácil e prazerosa, já que o roteirista não exagera no didatismo.

A arte é de Khari Evans, que funciona bem nas sequências de luta, mas não tão bem em momentos mais parados, provavelmente por não haver um trabalho mais detalhado na movimentação de corpos e nas expressões faciais, por vezes com os personagens parecendo manequins. Mas o interesse gerado pelo roteiro de Swierczynski compensa razoavelmente a arte um pouco engessada.

Tiger’s Beautiful Daughter
Roteiro: Duane Swierczynski
Arte: Khari Evans
Arte-final: Victor Olazaba, Allen Martinez
Cores: June Chung
Letras: Nate Piekos
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: janeiro de 2010

estrelas 3,5

Príncipe dos Órfãos
Os Leais Dez Mil

A única história das Armas Imortais que tem o Punho de Ferro como coadjuvante, Os Leais Dez Mil coloca o Príncipe dos Órfãos em uma missão para salvar milhões na China. Para isso, ele precisa derrotar um enorme e velho dragão originário de K’un Lun e convencer um exército fantasma de 10 mil soldados a ir para o Paraíso.

Confesso que sempre tive problemas com personagens super-poderosos e o Príncipe dos Órfãos cai justamente nessa categoria. Fazer uma história com ele exige ameaças gigantescas e, mesmo assim, o roteirista precisa ser especialmente cuidadoso. Não é o caso de David Lapham, infelizmente. Não que a história em si seja ruim, mas sim, pois a vastidão dos poderes misteriosos do protagonista torna tudo simplista e pouquíssimo urgente. A própria presença do Punho de Ferro só parece se justificar para preencher mais páginas e evitar que tudo acabe em um passe de mágica (ou de “névoa de jade”).

No entanto, a arte de Arturo Lozzi ajuda muito na apreciação do conjunto. Seus traços são complexos, detalhistas e belíssimos de se ver, especialmente quando ele se exibe e cria páginas inteiras com o dragão ou com o exército fantasma, em um esforço exemplar que combina plasticidade, com fluidez e uma excelente visão de conjunto, com uma belíssima distribuição de personagens a cada página. As cores de June Chung, aqui, também ajudam muito a arte de Lozzi, sem chamar atenção para si, mas criando contrastes entre o verde da “versão astral” do Príncipe dos Órfãos e o azul dos fantasmas.

Os Leias Dez Mil é uma história para se ver mais do que para se ler. Mas ela merece o esforço.

Prince of Orphans: The Loyal Ten Thousand
Roteiro: David Lapham
Arte: Arturo Lozzi
Cores: June Chung
Letras: Nate Piekos
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: janeiro de 2010

estrelas 2,5

Punho de Ferro
The Caretaker

Com sete páginas mais ou menos por edição, The Caretaker é uma história do Punho de Ferro em que ele ajuda Jada, uma menina que ele treina em seu dojo, depois que traficantes matam seu pai e seu irmão mais novo desaparece. O objetivo é achar o menino a todo custo e o roteiro de Duane Swierczynski, apesar de muito simplista, passa seu recado e sua moral de que nem sempre é possível ajudar todo mundo, mesmo quando quem oferece ajuda é um super-herói.

Danny Rand alberga Jada por ter sido o responsável pela prisão original de seu pai e carrega, com isso, um sentimento de culpa que, na verdade, é indevido, mas que faz parte da personalidade dele. Jada é destemida e não pede ajuda de ninguém para recuperar seu irmão, mas, claro, o Punho de Ferro a auxilia de toda forma. As cinco partes da história, porém, são redundantes e a narrativa anda mais de lado do que de frente, ainda que a leitura seja, no final, agradável.

O que não ajuda é a arte. Enquanto as duas primeiras partes são bem desenhadas por Travel Foreman, as três últimas ganham o lápis de Hatuey Diaz, que tem um estilo “deformador” de personagens. O Punho de Ferro transforma-se em uma figura atarracada e retorcida vestida de verde e Jada uma pequena Morlock. E isso, claro, tem o potencial de afastar o leitor.

The Caretaker é um filler apenas e cumpre exatamente essa função. Nada mais, nada menos.

Iron Fist: The Caretaker
Roteiro: Duane Swierczynski
Arte: Travel Foreman, Hatuey Diaz
Arte-final: Stefano Gaudiano
Cores: June Chung, Juan Doe
Letras: Nate Piekos
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: janeiro de 2010

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.