Crítica | O Imortal Punho de Ferro: Volumes 4 e 5 (2008 a 2009)

Obs: Leiam, aqui, todas as nossas críticas de quadrinhos do Punho de Ferro.

Sem sombra de dúvida, a segunda série solo do Punho de Ferro, intitulada O Imortal Punho de Ferro, é a melhor obra em quadrinhos baseada no personagem. Seus três primeiros arcos, capitaneados por Ed Brubaker e Matt Fraction, com arte (primordialmente) de David Aja, ampliam a mitologia do personagem e o coloca diante de desafios que definem sua carreira. Mas a trinca criativa não permaneceria junta durante muito tempo, com Brubaker saindo primeiro e, depois da 16ª edição, Fraction e Aja abandonando o barco.

No entanto, a publicação continuou até sua 27ª edição, com direito a mais um one-shot dedicado a Orson Randall, o Punho de Ferro da Era de Ouro e até uma minissérie spin-off, Armas Imortais. No lugar dos roteiristas que mexeram com a vida de Danny Rand, entrou Duane Swierczynski, com a arte variando entre vários desenhistas, primordialmente Travel Foreman. Abaixo, assim, abordarei cada um dos dois volumes finais da série O Imortal Punho de Ferro separadamente, valendo notar que Armas Imortais ficará para análise futura.

estrelas 4

Volume 4: O Mortal Punho de Ferro

o_imortal_punho_de_ferro_vol_4_capa_plano_criticoUma das pontas soltas deixadas por Matt Fraction no encerramento do volume anterior foi a descoberta, por Danny, que, com exceção de Orson Randall, todos os demais Punhos de Ferro morreram exatamente aos 33 anos de idade. E, continuando de onde Fraction parou, Duane Swierczynski começa justamente no 33º aniversário de Danny Rand, em um dia típico em sua vida de Punho de Ferro, com direito até à volta de seu espalhafatoso e anacrônico uniforme clássico.

No entanto, a edição #17 começa de forma mais intrigante, com um flashforward em que vemos, 10 anos no futuro, um menino de cabeça raspada correndo pela neve de K’un Lun até sua casa, onde pergunta para Misty Knight, sua mãe, como seu pai morrera de verdade. Essas breves duas páginas dão o tom sombrio à história que passa a desenrolar em breves quatro edições. Não há, porém, um grande mistério a ser escondido, pois, não demora, e logo descobrimos que há um demônio hospedado em um corpo humano, atrás de Danny Rand.

Para evitar didatismos, o roteirista cria uma brilhante narrativa paralela, com o mesmo demônio – Ch’i-Lin – caçando Kwai Jun-Fan, o Punho de Ferro de 1878 que é um andarilho pelo oeste americano em uma inspiração que só pode ter vindo da série setentista Kung Fu, com David Carradine no papel de Kwai Chang Caine. Com isso, duas histórias são contadas, com a narrativa em flashback levemente mais acelerada do que a no presente, de forma que as revelações importantes aconteçam logo antes dos eventos correspondentes nos dias atuais e na medida das próprias descobertas por Danny com a ajuda das Armas Imortais, agora residentes no 13º andar da Torre Rand.

E, inteligentemente, Swierczynski consegue explicar a queda de Orson Randall e sua vida de drogado com a caçada inclemente de Ch’i-Lin a ele nos anos 30, a partir do momento em que ele próprio completa 33 anos, fechando mais um mistério deixado por Brubaker e Fraction em seu plano de longo prazo. Não é, porém, uma história particularmente complicada. Ch’i-Lin, ou melhor, seu hospedeiro Zhou Cheng é um inimigo formidável para o Punho de Ferro e ele tem um plano detalhado sobre como derrubar Danny Rand, seja em combate justo, seja usando truques sujos, mas a narrativa é simples como deve ser, sem grandes invencionices fora, claro, a adição de mais essa camada na mitologia do herói, que tem um encerramento digno e satisfatório, abrindo as portas de maneira ainda mais ampla para o último arco.

A arte das sequências no presente ficaram ao encargo de Travel Foreman e, apesar de seus traços emprestarem um aspecto sombrio à história, eles pecam por dar poucos movimentos aos combates e ao embrutecer o Punho de Ferro, que havia ganhado traços elegantes e minimalistas com David Aja. Além disso, faltam grandes momentos na história, com grandes quadros ou até mesmo splash pages. No passado, a arte é de Russ Heath e seu estilo funciona melhor para o herói, com traços mais esguios e dinâmicos, além de um melhor aproveitamento das artes marciais.

O volume acaba com um one-shot independente focado exclusivamente em Orson Randall intitulado Orson Randall e a Rainha da Morte da Califórnia, todo ele passado nos anos 20 na região que hoje é conhecida como Hollywood. Em apenas uma palavra, trata-se de um trabalho estupendo. Swierczynski faz uma edição no estilo de filme noir, com narração em off de Randall, que lida com sua chegada à Hollywood a pedido de um amigo cuja filha havia desaparecido. Esperando no bar combinado, ele acaba sendo enfeitiçado por uma femme fatale que, ato contínuo, ele descobre ser justamente quem ele está procurando. Segue-se uma aventura quase satírica que reúne misticismo com donos de estúdio gananciosos e que querem dominar o mundo e um excelente uso do personagem que sem dúvida alguma merece uma série solo. A arte ficou ao encargo de Giuseppe Camuncoli e ela é potente e muito eficiente para emular o tipo de atmosfera que essa história exige, tirando o máximo proveito do cinismo de Randall e da estrutura clássica dos filmes noir.

Mesmo considerando-se a arte questionável da história principal, o volume 4 de O Imortal Punho de Ferro continua de forma mais do que digna o trabalho anterior de Brubaker e Fraction e merece ser conhecido.

O Imortal Punho de Ferro: O Mortal Punho de Ferro (The Immortal Iron Fist: The Mortal Iron Fist Story, EUA – 2008/9)
Contendo: O Imortal Punho de Ferro #17 a 20 e O Imortal Punho de Ferro: Orson Randall e a Rainha da Morte da Califórnia
Roteiro: Duane Swierczynski
Arte: Travel Foreman, Russ Heath, Giuseppe Camuncoli (Orson Randall)
Cores: Matt Milla, Paul Mounts (Orson Randall)
Letras: Dave Lanphear, Natalie Lanphear
Editoral original: Marvel Comics
Data original de publicação: setembro de 2008 a janeiro de 2009

estrelas 4

Volume 5: Fuga da Oitava Cidade

o_imortal_punho_de_ferro_vol_5_capa_plano_criticoO 5º e último volume de O Imortal Punho de Ferro, apesar de intitulado Fuga da Oitava Cidade, é, na verdade, uma mistura de one-shots que lidam com dois novos Punhos de Ferro – um no futuro, outro no passado -, o arco em si, composto de quatro edições e um epílogo que altera o status quo de Danny Rand. Ainda que o conjunto seja harmônico, os one-shots não têm relação direta com o arco principal, pelo que os abordarei, abaixo, separadamente.

Neles, conhecemos primeiro Wah Sing-Rand (#21), um Punho de Ferro de apenas nove anos de idade, que é enviado para salvar uma colônia terrestre em Yaochi, em Alfa-Centauro, no ano 3099. O inusitado da coisa logo chama a atenção do leitor, que logo se vê envolvido em uma família fugindo da tirania local em uma mistura de No Mundo de 2020 com a Bíblia, com a população inteira do planeta dizimada para tornar-se uma espécie de alimento e Wah Sing-Rand tendo sua presença correlacionada com a de Jesus Cristo em uma narrativa cheia de reviravoltas interessantes. No outro one-shot (#24), somos apresentados a Li Park, no ano 730 d.C., uma Arma Imortal que luta contra sua própria natureza para salvar vilarejos chineses de uma guerra destrutiva. O clichê do “homem que não quer empunhar” armas é muito bem utilizado por Duane Swierczynski em uma história de origem entremeada com ações no presente (da narrativa) que funciona muito bem em seu propósito de estudar uma faceta do como e porquê fazer guerra.

No arco principal – Fuga da Oitava Cidade – contado nas edições #22, #23, #25 e #26, vemos o Punho de Ferro, juntamente com as Armas Imortais, já capturados na referida cidade que havia sido referenciada pelo Sr. Xao, no terceiro arco de O Imortal Punho de Ferro. Trata-se de uma versão do Inferno, para onde os piores monstros das Sete Cidades Celestiais foram enviados há tempos imemoriais, mas de onde Danny e seu grupo precisam resgatar aqueles que foram injustamente enviados para lá, com a ditadura de Nu-An, o Yu-Ti corrupto e tio postiço dele. Davos também volta à história como mensageiro de seu pai, Lei Kung, o Trovejante e com o que parece ser um propósito próprio que só fica claro ao final.

As Armas Imortais são mantidas como gladiadores em uma arena, lutando constantemente contra ameaças monstruosas, em um loop interminável equiparável às piores torturas e sem contato um com o outro. A situação começa a mudar quando Danny é contactado por um velhinho que se apresenta como sendo o primeiro Punho de Ferro,  o que o enche de esperança e o faz arrumar uma maneira de se comunicar vagarosamente com os demais. Com isso, a narrativa passa a variar entre o presente de Danny e o passado remoto do primeiro Punho de Ferro, inclusive com a origem do próprio Shou Lao, o dragão cuja derrota pelo escolhido dá os poderes do “punho de ferro”.

Duane Swierczynski maneja sua narrativa de forma bastante eficiente, ainda que ele deixe a desejar em sua resolução. Não que seja ruim, mas ela não condiz com a pegada sombria dos três primeiros números e facilita demais as coisas para um encerramento que pode ser visto como leve demais para todo o terror sofrido pelas Armas Imortais.

O epílogo, já em Nova York, faz remissão à primeira edição de O Imortal Punho de Ferro, quando as empresas Rand são ameaçadas pela Hidra. Há uma ótima circularidade temática que fecha todas as demais pontas soltas e reapresenta Danny Rand de outra forma ao mundo, não mais como um multi-bilionário que pode fazer o que quiser com seu inesgotável dinheiro. Ainda que tivesse sido melhor se a história continuasse por mais tempo, ela ganha uma encerramento lógico e perfeitamente dentro do que se pode esperar de uma série solo tão harmônica.

A arte, majoritariamente de Travel Foreman, sofre dos mesmo problemas já abordados nos comentários do arco anterior. No entanto, o trabalho de Timothy Green e Kano nas edições one-shot merecem comenda, por imprimirem seus excelentes estilos em criações autorais bem trabalhadas e que deixam o leitor sedento por mais.

O Imortal Punho de Ferro: Fuga da Oitava Cidade (The Immortal Iron Fist: Escape from the Eigth City, EUA – 2009)
Contendo: O Imortal Punho de Ferro #21 a 27
Roteiro: Duane Swierczynski
Arte: Timothy Green (#21, #27), Travel Foreman (#22 e #23, #25 a #27), Tonci Zonjic (#23), Kano (#24)
Arte-final: Tom Palmer (#23, 25, 26), Mark Pennington (#23), Tonci Zonjic (#23), David Lapham (#27)
Cores: Edward Bola (#21), Matt Milla (#22, #23, #25 e #26), Javier Rodriguez (#27), Juan Doe (#26 e #27)
Letras: Artmonkeys Studios (#21 e #22), Nate Piekos (#23 a #26)
Editoral original: Marvel Comics
Data original de publicação: fevereiro a agosto de 2009

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.