Crítica | O Império dos Sentidos

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Homem casado (Kichizo Ichiba, interpretado por Tatsuya Fuji) e mulher (Sada Abe, interpretada por Eiko Matsuda) – sua serva –, casada também, têm um caso de amor… e eles transam a valer. Essa seria uma sinopse bem vulgar, muito embora seja realmente tudo quanto se tem de história em O Império dos Sentidos. Isso é um motivo para não ver? Não. Se fosse um livro eu provavelmente diria que existem enciclopédias sexuais melhores. Enquanto filme há uma exploração visual cabível a um artista plástico em fase de descobrimento, mas com potencial. Pois essa exploração é a típica de um que almeja descobrir os elementos das coisas por meio de nada mais senão seus próprios sentimentos para com as coisas. Essa pessoalidade pode causar uma chateação em grande parte do público – sem falar no sexo explícito, mas o que é isso para a geração atual, sendo um dos materiais de idolatria maior a trilogia dos 50 Tons, e com acesso aos mais diversos sites que é melhor não citar –, mas o filme, ainda bem, não se leva tão a sério.

É muito bom poder revisitar um longa como esse no ano em que se fecha (pelo menos no cinema) a trilogia já citada dos 50 Tons, uma das franquias de maior bilheteria da década, com público principalmente adolescente. Assim como os dois últimos dessa trilogia, O Império dos Sentidos não quer ir muito a sério no que está sendo mostrado, e, sendo um filme que tangencia ao mesmo tempo o plano artístico e pornô, contem exposições muitas vezes risíveis, mas nunca inválidas. Além de tudo Nagisa Ôshima, seu diretor, com pulso muito mais artístico do que Sam Taylor-Johnson e James Foley, saca logo de cara que a medida de pessoalidade que for preciso dar a cada cena será a medida de filme fanfarrão/trash que entrará – e continua artístico, pois, lembrando aos mais jovens, uma coisa não exclui a outra. Enquanto que em 50 tons foi preciso um longa inteiro surrado para enxergarem o caminho.

O que, de fato, fatiga o espectador é o longo tempo de filme utilizado nos diferentes fetiches sexuais, que, claro, têm importância na história – não é o mais importante no filme, todavia. São cenas cada vez mais vazias, que cada vez mais esvaziam os personagens – levando ao inevitável final mórbido, já que, uma vez apenas sabendo apreciar os prazeres instantâneos e carnais, o que mais sobrará como essência quando todas as possíveis perversões acabarem? –, esse ponto dos personagens talvez tenha sido o maior acerto, e possivelmente sem querer, narrativo do filme. Não chega-se nem na metade do longa e há uma parte em que o protagonista, voltando do sexo com uma serva e já se encontrando com outra à sua espera, diz, adivinhando o pensamento dos espectadores: “já percebi que meu pau só descansa quando vou mijar”. E é bem isso o que, já nessa altura cansa, e cansará quem assiste por ainda mais de uma hora. Mais além disso, percebe-se nessas cenas, apesar de não ser o foco, o machismo como forma cultural em um Japão de 1936 – uma tentativa de crítica social que acaba não passando de citação.

Compensando isso podemos nos deter em contemplar a beleza e curiosidade contidas nas filmagens de Ôshima. A direção de arte trabalha com tamanho êxito que nos cega para o baixo orçamento do filme. As cores são escolhidas a dedo para cada lugar do cenário, os planos em geral simétricos, a atuação louvável e a a ousadia são elementos que o fazem ficar em alguma interseção entre filme arte e erótico. Assim, é pelos olhos, na tentativa artística, de um diretor curioso pelo assunto que vemos o longa – isso fica bem explícito logo na primeira cena, na qual duas servas espionam seu mestre em plena ação. E sua curiosidade leva seu material longe na exploração e na experimentação. Sendo assim um material bem escolhido para ser o que é – audiovisual – e nada mais.

O Império dos Sentidos (Ai no Korîda) – Japão, França, 1976
Direção: Nagisa Ôshima
Roteiro: Nagisa Ôshima
Elenco: Tatsuya Fuji, Eiko Matsuda, Aoi Nakajima, Yasuko Matsui, Meika Seri, Kanae Kobayashi, Taiji Tonoyama, Kyôji Kokonoe, Naomi Shiraishi, Shinkichi Noda, Komikichi Hori
Duração: 102 min.

GABRIEL FERREIRA VIEIRA . . . Vivi em Recife por um longo tempo... até que eu fiz uma viagem para a Inglaterra dos anos 1990. Passei tanto tempo lá, ouvindo Radiohead em um apartamento melancólico, que nem lembro mais quanto foi. Depois voltei mais duas décadas no tempo e fui para o condado de Enfield (descobri que a casa lá era mal-assombrada mesmo). Quando já não dava mais de tanta depressão eu fui pra a Itália torcer para o Juventus e aproveitar o verão. Com essa turnê pelo mundo eu me senti preparado para começar a escrever...