Crítica | O Inescrito – vols. 1 e 2

A Vertigo (divisão da DC Comics) talvez seja, atualmente, o melhor selo de quadrinhos mainstream existente. E, vindo de mim, isso é dizer muito pois não consigo suportar os quadrinhos comuns da DC Comics, com seus heróis exageradamente super-poderosos e com uma certa mania dos editores de destruir e construir universos a toda hora. Vertigo é um selo que traz títulos consistentes como Fábulas e Sweet Tooth, dentre outras. O Inescrito é uma aposta relativamente recente, tendo começado em julho de 2009, mas somente publicado no Brasil pela primeira vez em dezembro de 2012 e março de 2013 pela Panini, em volumes separados, sendo o primeiro intitulado Tommy Taylor e a Identidade Falsa e, o segundo, O Informante.

Cada um dos arcos abarca seis edições da revista, sendo que Tommy Taylor e a Identidade Falsa consegue ser uma daquelas publicações que te deixa com tantas interrogações na cabeça que não só é impossível largar o volume como, também, te deixa extremamente ansioso pelo segundo.

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No primeiro arco, somos apresentados a Tom Taylor, um rapaz vive à sombra dos livros escritos por seu pai adotivo, que desapareceu há algum tempo. São livros cujo personagem principal – Tommy Taylor – foi claramente inspirado em Tom, com fortíssimas pitadas de Harry Potter. Tom é um cara normal enquanto que Tommy é um mágico em treinamento que, junto com dois de seus melhores amigos, luta contra um misterioso vampiro, o Conde Ambrósio. Tom aproveita tudo de bom que a vida de estrela tem a oferecer, sem se preocupar com o amanhã. No entanto, claro, essa situação muda radicalmente quando uma estranha mulher, no meio de uma coletiva de imprensa, começa a colocar em dúvida o passado de Tom.

Mike Carey, o roteirista, consegue unir ficção e realidade de maneira brilhante, definindo os contornos dos personagens principais nesse primeiro arco sem, contudo, revelar muita coisa. Sua habilidade em esconder as pistas na frente do leitor dá um interessante tom investigativo à narrativa, que vai se desenrolando de maneira muito satisfatória, ainda que qualquer um consiga ver aonde mais ou menos a coisa vai parar. No entanto, a revelação de parte do mistério não é o mais importante, mas sim a jornada do personagem em sua meta-história.  Quem é que acompanhamos desde o começo da estória? Tom ou Tommy? Há alguém “movendo as peças” como um deus? Será que o próprio Mike Carey pode ser o responsável pelos problemas que Tom passa a enfrentar, meio que se colocando como “personagem” dentro da trama?

Carey faz, aqui, o que Bill Willingham não conseguiu fazer direito em sua série João das Fábulas, ao criar os personagens chamado Literais, (SPOILER) verdadeiros criadores do mundo das fábulas. Carey torna o ato criativo parte integral da história, costurando um passado de maquinações para o que acontece com Tom. Já Willingham, de maneira desleixada, jogou os Literais no meio da narrativa de João, sem efetivamente saber o que queria.

E, como se isso não bastasse, Carey ainda consegue tecer ácidas críticas ao estrelato e aos fãs cegos. No caso do estrelato, o próprio Tom, que não vive bem em razão de uma obra que criou, mas sim por algo feito por terceiros, é a encarnação da vida sanguessuga e vicariante que muitos ditos “famosos” acabam vivendo por aí. Sim, há um bom grau de redenção que Carey vai inserindo na narrativa, mas, de toda forma, a mensagem é mais do que passada, ela é esfregada na cara de quem quiser ver. No caso dos fãs cegos ou fanáticos, a crítica é mais velada, ainda que fortemente presente. Carey deixa evidente a tênue linha que existe entre a realidade e a ficção e a dificuldade que alguns têm em manter um equilíbrio são entre elas.

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O segundo arco de O InescritoO Informante, obviamente, aprofunda o mistério. Tom, agora, apesar de ainda duvidar de quem ele é na verdade, passa a aceitar alguns fatos inegáveis. Afinal de contas, dessa vez, ele tem que escapar de uma prisão em território francês, inspirado no poema de Robert Browning, Childe Roland to the Dark Tower Came. Não sei se Carey estava fazendo uma homenagem a Browning e à Stephen King (que usou o poema como base para sua mega-série literária A Torre Negra) ou somente tentando pegar uma carona no sucesso de King, mas o que posso dizer é que, independentemente de suas intenções, ele se sai muito bem, melhor até do que o próprio mestre do terror. E as referências literárias e cinematográficas povoam O Inescrito. Há momentos óbvios, como menções à Mary Shelley e sua obra máxima, Frankenstein, outros que exigem um certo grau de conhecimento, como a brilhante citação a Jud Süss, filme de propaganda nazista de 1940, feito a mando de Göebbels e dirigido por Veit Harlan. No entanto, há diversão e profundidade de raciocínio para todos, ainda que a leitura talvez seja complexa demais para os muito jovens.

A arte de Peter Gross é bela e eficiente, com traços que ajudam muito bem a caracterizar cada personagem facilmente. Mesmo quando o artista lida com o mundo fictício de Tommy Taylor em direta comparação com o mundo real de Tom Taylor, somos capazes de claramente saber quem é quem, sem que ele precise alterar radicalmente o estilo. As cores suaves ajudam a dar um ar leve à trama, mesmo quando assuntos mais fortes e pesados são tratados. Por todo o trabalho, é fácil sentir que Gross tentou nos colocar na subjetividade da trama criada por Carey, deixando-nos trilhar o caminho sinuoso que divide a realidade da fantasia.

O Inescrito é uma excelente série que merece a atenção de quem gosta de quadrinhos.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.