Crítica | O Inferno de Donald

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Depois de Mickey passar pelos tormentos do Inferno, na adaptação d’A Davina Comédia feita ainda nos primeiros números da Revista Topolino, entre 1949 e 1950, foi a vez do Pato Donald passar pelo mesmo processo, protagonizando a clássica saga. Escrita por Massimo Marconi e Giulio Chierchini, esta versão da obra de Dante Alighieri tem um tom bastante diferente daquele utilizado por Guido Martina em O Inferno de Mickey, sendo a diferença já percebida na maneira de representar a descida de Donald ao Inferno, consequência de uma porção de eventos ruins em sua vida, coisas que o deixaram estafado e estressando a ponto de ter um colapso e precisar de uns dias no campo para poder se recuperar.

Misturando elementos de sátira e crônica, Marconi e Chierchini não adotam a narração do evento a partir de suas particularidades fantasiosas ou até místicas. Eles criam uma abordagem diferente daquela dos anos 40 e 50, tendo agora uma aproximação com o mundo real muito mais forte e imediata, ligando, inclusive, insatisfações de Donald logo no início da trama com o tipo de castigo aos pecadores que ele vê na viagem aos Círculos Infernais, em companhia do Professor Pardal, o seu Virgílio fantasmagórico. Embora o ponto de partida e a finalização da história ganhem algo que a versão de Mickey não tem (ideia de ciclo se fechando), o argumento é, em geral, mais pobre e com pontos de riso e punições medonhas menos engraçados ou chocantes, tendo aí como motivação a forma como o autor entregou as justificativas para os pecados e, talvez o elemento principal, o tamanho reduzido da história.

Devendo dinheiro para o Tio Patinhas, extremamente irritado com o barulho, o lixo, a poluição, os comentários idiotas no trânsito, Donald não consegue se manter são e cai doente, até que Huguinho, Zezinho e Luisinho, para evitar os discursos de Patinhas, resolvem utilizar suas próprias economias para conseguir uma semana no campo para o tio Donald. A relação entre tio e sobrinhos é mais uma vez destacada a partir de uma bela união e manifestação de amor, algo sempre muito bacana de se ver. E, ironia das ironias, a entrada de Donald no Inferno acontece justamente nesse período de descanso, tendo uma ótima sacada do autor em deixar uma interpretação dúbia para o fato, tendo aí a possibilidade dessa viagem entre os mundos ter acontecido de fato ou ter sido apenas um sonho.

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SPOILERS!

Além da concepção para a ideia geral do roteiro (e digo isso porque a execução tem seus problemas), a arte de Giulio Chierchini é o grande destaque. Usando dois padrões artísticos diferentes, um para a vida normal de Donald, outro para o Inferno, o desenhista conseguiu um resultado aplaudível fazendo algumas homenagens a Gustave Doré, com painéis de uma página inteira mostrando algumas cenas clássicas, tendo, claro, a particularidade dos castigos adaptados para os desenhos na era moderna. Neste Inferno, o protagonista encontra os poluidores sugados por um redemoinho de lixo; os burocratas atingidos por selos gigantes ou transformados em formulários; os incendiários transformados em árvores e atacados por corvos (Fúrias cuspidoras de fogo); tiranos e gananciosos obrigados a carregar sacos de dinheiro e outros objetos preciosos e depois derretê-los na lava; maus motoristas serem obrigados a carregarem os carros nas costas… e por aí vai.

Cada desgraça cotidiana de Donald encontra a sua representação nesse Inferno, servindo, talvez, de sublimação moral para o personagem. O ritmo de leitura é ágil. A passagem entre algumas cenas parece atropelada ou algumas vezes sem sentido, mas nada tão grave que nos faça querer abandonar a história. Felizmente, na maioria dos casos, é possível curtir a leitura sem se incomodar de verdade com esses tropeços. Mais pé no chão e refletindo fortemente os incômodos de sua época, O Inferno de Donald é uma daquelas histórias que nos faz rir, cúmplices de um pedido mental ao Universo toda vez que algo ruim acontece conosco, via ação de um terceiro, e pensamos “tomara que tenha um lugarzinho no Inferno pra você“. Bom… Pelo jeito, tem mesmo. Já dá para dormir mais tranquilo, não?

L’inferno di Paperino (Itália, 1987)
Publicação original: Topolino #1654 (Arnoldo Mondadori Editore)
No Brasil: Clássicos da Literatura Disney #13 (Editora Abril, 2010)
Roteiro: Massimo Marconi, Giulio Chierchini (adaptação de A Divina Comédia, de Dante)
Arte: Giulio Chierchini
57 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.