Crítica | O Inquilino (1976)

estrelas 4

Poucos sabem trabalhar tão bem o terror psicológico como Roman Polanski, o diretor tem por característica construir histórias sombrias e tensas, onde é ressaltado o conflito psicológico de seus personagens. Esse seu estilo fica exemplificado na Trilogia do Apartamento, composta pelos filmes Repulsa ao Sexo, O Bebê de Rosemary e por último O Inquilino. As duas primeiras obras são marcantes na filmografia de Polanski e ressaltam toda a sua maestria em conduzir suspenses. Será que o terceiro longa da trilogia conseguiu alcançar o mesmo nível dos demais?

A obra mostra um imigrante polonês, chamado Trelkovsky (Roman Polaski), que está vivendo na França e aluga um apartamento em um estranho e antigo edifício residencial, onde seus vizinhos o olham com desprezo e suspeita. Ao conhecer o local, descobre que a última inquilina se atirou da janela e, com essa descoberta, torna-se obcecado pela mulher, fazendo com que se aproxime de Stella (Isabelle Adjani), uma amiga da vítima. Porém, com o tempo, ele se convence que os moradores pretendem matá-lo, passando a suspeitar de todos ao seu redor.

Logo nos créditos iniciais, através de um belo plano de grua, o diretor estabelece o local onde grande parte da trama acontece, um prédio com vários apartamentos, destacando como é um lugar descuidado, escuro e com paredes gastas, ou seja, uma escolha acertada em mostrar como aquele universo não é receptivo nem aconchegante. A sequência inicial também mostra algumas pessoas espiando pela janela, causando instantaneamente uma sensação de estranheza no público, ficando claro que aquele não é um ambiente normal.

A fotografia, feita por Sven Nykvist, ressalta ainda mais o tom sombrio da história, criando cenários com uma paleta de cores escura, muitos tons pastéis, mas principalmente, utilizando sombras, dando a sensação de obscuridade naquele local, como se algo ruim fosse acontecer a qualquer momento. Outro recurso brilhantemente utilizado é o som, criando suspense e inquietação, primeiro com a trilha sonora, composta por Philippe Sarde, que ressalta toda a melancolia da história, também adicionando momentos de tensão; mas principalmente com a edição e mixagem de som, que através de sons diegéticos, como, rangidos no piso ou sons desagradáveis toda vez que uma torneira é aberta, ressalta o quão perturbador é aquele apartamento.

O protagonista desse universo melancólico é Trelkovsky, interpretado de forma surpreendentemente boa pelo próprio Polanski. Apesar de não ser uma atuação para receber indicações a prêmios, ele consegue ser competente em transmitir as transformações que seu personagem passa, indo de um rapaz pacífico e que não gosta de perturbar ninguém à uma pessoa desconfiada e neurótica.

O ponto alto do filme é justamente a forma como o roteiro, escrito por Gérard Brach e Polanski, aborda a perturbação do personagem principal. O problema central que Trelkovsky sofre é a perda de identidade; e os roteiristas são inteligentes em desenvolver isso lentamente, ao natural, através de diálogos minuciosos, como um que ocorre com Stella na cama. Claro que, ao questionar sua própria identidade, ele passa a buscar outra, encontrando-a na imagem da antiga proprietária do apartamento, a suicida Simone Choule, e essa transformação também é brilhantemente conduzida, começando com a repetição de hábitos simples dela, como tomar chocolate ao invés de café ou fumando a mesma marca de cigarros, para depois chegar ao ápice de se vestir como ela.

A história tem alguns furos, como o fato de Trelkovsky ter vários amigos (que frequentavam a casa dele inclusive) no início do longa e no fim não ser procurado por eles mesmo tendo desaparecido do trabalho. Além disso, a obra cria várias dúvidas na mente do público e não dá uma explicação satisfatória, como, por exemplo, se os vizinhos realmente tramavam algo contra o protagonista ou tudo era fruto do estado mental dele? Mas o filme explora tão bem a psicologia do personagem e provoca tanto a imaginação de quem assiste que essas falhas diminuem frente as qualidades da obra.

A história de O Inquilino incita mais perguntas do que responde, acentuado ainda mais pela cena final que deixa confuso qualquer espectador. Porém, o filme não destoa das demais obras da Trilogia do Apartamento, sendo um belo estudo de personagem e competente em desenvolver o arco dramático em torno dele, conduzido não somente por uma ótima direção de Polanski, como também por uma atuação satisfatória. Ainda ressaltando que se perdermos nossa identidade, buscaremos em outro lugar e o resultado não será dos mais saudáveis, mas num mundo cada vez mais globalizado, onde tudo é padronizado, está cada vez mais difícil encontrar a própria, servindo, às vezes, de incentivo para a loucura.

O Inquilino (Le Locataire) – França, 1976
Direção: Roman Polanski
Roteiro: Gérarg Brach, Roman Polanski (baseado na obra de Roland Topor)
Elenco: Roman Polanski, Isabelle Adjani, Melvyn Douglas, Jo Fan Fleet, Bernard Fresson, Shelley Winters, Lila Kedrova, Claude Dauphin, Claude Piéplu, Jacques Monod, Patrice Alexsandre
Duração: 125 min.

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.