Crítica | O Insulto

O Insulto é, primeiramente, um filme sobre política. Não por necessariamente trabalhar os meandros políticos que conhecemos superficialmente e bradamos como corruptos e vis, mas por trabalhar o quê de politicagem inerente a todos nós, quer que nós o abracemos como um companheiro quer que nós sejamos engolidos pela sua natureza. O ser humano é um ser político. Na premissa do filme, um insulto ordinário vai aos poucos ganhando proporções cada vez maiores, intensificando debates na sociedade libanesa, promovendo o caos entre aqueles que não se importam em parar e refletir. A primeira nomeação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro para o Líbano é importantíssima, realça a existência das tensões no país, promove conversas válidas. Isso não quer dizer que o filme seja panfletário, buscando tomar posições concretas, ditando o que é certo e o que é errado, quem está certo e quem está errado. O diretor Ziad Doueri personifica a câmera cinematográfica, fazendo-a mudar de opinião a todo instante. A vida possui mais camadas. O intolerante, por mais difícil que isso soe, também tem o seu lado e devemos entendê-lo para ousarmos mudá-lo, mesmo que o ético aparente ser deveras óbvio na nossa cabeça. Mas será que discursos de amor, de compreensão, de reflexão, até mesmo para aqueles que negam estar no erro, seriam uma solução? O que fazer em casos dificílimos, como as crises ideológicas no Oriente Médio, onde a situação vai muito mais além do preto e branco? Um impasse ainda mais complexo que o que vivemos no Brasil, por exemplo. Talvez sejamos todos vítimas? Talvez só precisamos da verdade? De perdoar? Seja o que for, O Insulto definitivamente nos faz pensar.

Ademais, entre muitas temáticas abordadas, a pauta sobre os limites da liberdade de expressão recebe comentários.O racismo também é comentado. Em comparação com o conflito racial nos Estados Unidos, o roteiro de Doueri e Joelle Touma revela ser muito mais universal do que a descrição “filme de tribunal sobre as tensões sociais no Líbano” premeditava. De qualquer forma, embora o panorama geral possa ser atribuído a tantos conflitos diferentes, há detalhes que diferem e tornam nossas “guerras civis”, nas ruas ou nos palanques, únicas, proporcionalmente complexas, mas ainda assim complexas. Será que necessitamos de mais filmes como esse? Será que necessitamos passar por situações como essa para aprendermos a tolerar o outro? Será que necessitamos parar por duas horas, abrir nossas mentes, e perceber o quão estúpidos estamos sendo com nossos irmãos? Há espaço para a calmaria quando a tempestade já se instaurou? Em meio a descrença, o caminho é o radicalismo? Talvez o mundo se tornasse melhor se acreditássemos em um conjunto humano. Se olhássemos o próximo não pelas nossas diferenças, mas pela nossa semelhança maior: o fato de sermos todos seres humanos. Esqueçam as nações, as tribos, os grupos, as raças, as orientações sexuais, os gêneros, as bandeiras e as religiões. Pensem no homem como homem e se identifique com ele por ele ser, afinal, uma variação de você mesmo. Nossas identidades deveriam tornar o mundo mais único, não individualista. Parafraseando O Grande Ditador, “neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover todas as nossas necessidades.” Bastante utópico, não é? Tão simples, mas tão distante. Todo esse devaneio de um mundo melhor também pode ser encontrado no filme de ficção científica, A Chegada, aliás. Chega de divagar, vamos partir para o filme de fato: um forte drama de tribunal.

No plano narrativo, podemos perceber bons arcos para a dupla de protagonistas. A obra conta a história do libanês, apoiador do Partido Cristão, Tony Hanna (Adel Karam), que adentra terras polêmicas ao decidir processar o refugiado palestino Yasser Salameh (Kamel El Basha), após uma série de desentendimentos, agressões e insultos. Enquanto Karam transpõe uma personalidade mais fria relativa a relação entre seu personagem e Yasser, Kamel faz o contrário, soando muito mais passivo, lidando com o orgulho ao seu próprio modo. A tragédia, nas mãos de Tony, vira arma de ataque. O ataque, nas mãos de Yasser, é gatilho para a fúria, para a possibilidade de mais uma outra tragédia ser fecundada. Isso se dá pois, ao seu lado, Tony também conta com Shirine, interpretada por Rita Hayek, sua esposa grávida, voz da razão e dispositivo narrativo para levar o personagem de ponto A para ponto B. Em um diálogo certeiro, muito sobre hipocrisia religiosa é ilustrado, com o libanês se julgando conscientemente diferente de Jesus. Ora, não faz parte de se seguir algo ou alguém a manutenção dos ideais pregados por esse algo ou alguém? Os dois protagonistas, porém, possuem mais camadas, que se revelam nos momentos oportunos, e permitem que nós nos afeiçoemos a jornada de ambos. Aos poucos se percebe que Tony e Yasser possuem muito mais semelhanças do que aparentavam. Ainda por cima, o roteiro apresenta e desenvolve naturalmente alguns aspectos que interessam durante as operantes exposições em discursos no tribunal, com exceção de um momento no qual as coisas tornam-se verborragicamente desnecessárias, dizendo, no clímax, tudo que cenas anteriores já haviam dito. As situações ficam mais manipulativas quando o diretor decide expor certas suavizações de seus personagens em uma cena dentro de um estacionamento a céu aberto, mas, fora isso, o tribunal é um ambiente perfeito para as maçãs podres serem reveladas do pomar.

Portanto, Wajdi (Camille Salameh) e Nadine (Diamand Bou Abboud) surgem na história para movimentar a narrativa no que tange essa questão de enredo, com discursos inflados, inseguranças e conflitos pessoais. O que falta no roteiro é o entendimento, por parte do espectador, de que há algo em jogo ali, além da disputa entre palestinos e libaneses. Seria mais interessante se fosse induzidas possibilidades de que a perda no caso acarretaria consequências substanciais nas vidas privadas dos advogados. Apenas temos isso quando pensamos nos protagonistas, mesmo que a questão do emprego de Yasser se perda pela metade da obra e não retorne. Sendo assim, felizmente, Ziad Doueri, com claras influências do cinema americano, mostra sua capacidade na direção, dando dinâmica e apreensão aos monólogos, além de abrir espaço para que o montador brinque com as possibilidades de coesão e fluidez cinematográfica. Em certos momentos, o diretor faz com que Yasser e Tony se complementem em um mesmo enquadramento, o que mostra sua intencionalidade no filme e sua técnica. Não vale nossa atenção, porém, a trilha sonora dessoante, mal encaixada em um trabalho que se valeria mais de uma melodia singela. Como exemplo, um plano aéreo pelo final da projeção é acompanhado de uma carga sonora pesada que não faz paralelo com nada, injustificável, soando gratuita. Gratuito, todavia, não é um adjetivo que defina O Insulto. Se há falhas na execução, a mensagem por trás não permite-se abalar momento algum, continuando forte e provocativa. Surpreendentemente, um filme capaz de nos dar esperança, uma saída para o caos, um trem desgovernado que no último minuto poderá encontrar um maquinista para o guiar.

O Insulto (L’insulte) – Líbano/França, 2017
Direção: Ziad Doueri
Roteiro: Ziad Doueri, Joelle Touma
Elenco: Adel Karam, Kamel El Basha, Camille Salameh, Diamand Bou Abboud, Rita Hayek, Talal Jurdi, Christine Choueiri, Julia Kassar, Rifaat Torbey, Carlos Chahine
Duração: 112 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.