Crítica | O Intrépido General Custer

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estrelas 3

Funcionando como uma forma de cinebiografia, O Intrépido General Custer nos traz um retrato da vida deste famoso herói de guerra da história americana. Ao menos é isso que a obra tenta nos passar, contando com um estranho ar de artificialidade, que embora entretenha, aliena o espectador a diversos fatos da vida de George Armstrong Custer. O filme, contudo, nos traz uma singular retratação da história do cinema, contando com elementos claros de sua época, além de visões que, posteriormente, seriam revistas e contestadas, em especial no que diz respeito aos nativos americanos.

Iniciamos a projeção na Academia de West Point, onde um jovem George Custer faz sua entrada dramática e excêntrica em tela. Dotado de ideais heroicos de glória, o protagonista se destaca no local, não por ser excepcional em suas avaliações e sim por agir de forma completamente insubordinada. Desde já fica clara a romantização da vida do suposto herói, colocando-o com sérias falhas, mas que acabam constituindo qualidades. Custer apresenta-se, portanto sem defeitos, já que o que poderia facilmente colocá-lo para fora do exército, se constitui como o “pensar fora da caixa” que garantiria a ele suas desejadas glórias. Tal exaltação do homem chega ao ápice quando este “prevê” a chegada da Guerra Civil Americana.

Estamos falando, porém, de um cinema em que a figura do “mocinho” é constante – o homem ideal, amado pela esposa, pelos justos de sua nação e constantemente sendo minado pelos corruptos. O que mais natural então, que um personagem retratado como herói de guerra? De fato nada, apesar de historicamente incorreta, a película não seria presente de defeitos. Voltamos, então, ao tópico da alienação quando a fita chega à sua segunda fase – o conflito com os índios. Aqui o western passa a se fazer mais presente, ao passo que Custer se torna praticamente um Sheriff no forte que lhe é concedido o comando, nos lembrando inevitavelmente de seu trabalho em Uma Cidade que Surge. O personagem, aqui, se transforma de delinquente em uma figura politicamente correta, que até tira a bebida de seus soldados (em mais um exagero que chega a ser cômico, ao nos depararmos com um regimento inteiro de bêbados).

De fato, este caráter “certinho” do protagonista se estende à forma como lida com os nativos americanos, tratando-os como iguais. Novamente os defeitos de George são eliminados e jogados em outros personagens, inclusive o estouro da corrida do ouro das Black Hills é tirado de sua responsabilidade e colocado em cima de uma figura completamente vilanizada, que acompanha o protagonista desde seu treinamento em West Point.

Tamanhas artificialidades, contudo, são escondidas pelos esforços da fotografia de Bert Glennon, já experiente no gênero, tendo trabalhado em filmes como No Tempo das Diligências, que garantiu a ele uma indicação ao Oscar. Das cenas estáticas com closes nos rostos dos personagens aos planos mais abertos preenchidos pelas cavalarias, somos sugados pela imagem em um completo êxito de imersão. Infelizmente esta quase hipnose é prejudicada pela trilha sonora, que tenta misturar hinos e diferentes melodias, fazendo parecer uma completa bagunça sonora, ainda mais quando busca acompanhar a montagem nos cortes, compondo uma interminável mudança de tons que nada mais soam como barulhos.

Com todos os seus defeitos, O Intrépido General Custer ainda consegue nos entreter, com Errol Flynn convencendo-nos como o bom moço que aparenta ser. Fugimos das barbaridades da Guerra Civil e das Guerras Indígenas e partimos para um conto heroico de um homem em busca da glória. Embora funcione como elemento alienador (especialmente para as audiências da época), nos trazendo uma retratação sem qualquer fidelidade história, nos deixa com uma estranha satisfação, em geral, provocada pelo clima mais leviano da projeção.

O Intrépido General Custer (They Died With Their Boots On – EUA, 1941)
Direção:
Raoul Walsh
Roteiro:
Wally Kline, Æneas MacKenzie
Elenco: Errol Flynn, Olivia de Havilland, Arthur Kennedy, Charley Grapewin, Gene Lockhart, Anthony Quinn, Stanley Ridges, John Litel, Walter Hampden, Sydney Greenstreet.
Duração: 140 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.