Crítica | O Invasor (2001)

O Invasor

estrelas 4

A trilha sonora já pontua muito bem a eletricidade do filme. “A bomba vai explodir, ninguém vai te acudir, sociedade destrói sua vida, capitalismo máquina suicida”. A letra do Pavilhão 9 deixa claro: estamos diante de um filme tenso, adornado por questionamentos de ordem política e social. Depois de Os Matadores e Ação Entre Amigos, o cineasta Beto Brant disparou com outro sucesso: O Invasor, filme que flerta com temas como os desníveis de renda comuns ao sistema econômico desigual brasileiro, a corrupção que assola o país desde os tempos da colonização, o esquema de drogas que não parece ter fim e o temível desejo de ascensão social de classes que não se conformam com os seus espaços habituais de socialização.

Neste filme inquieto, São Paulo surge caótica, multifacetada e repleta de subtextos que pedem reflexões e interpretações por parte do espectador, que apesar de mergulhado numa narrativa com bastante cenas de ação, não pode (e nem deve) deixar de considerar os aspectos dramatúrgicos que representam a complexidade da nossa sociedade diante de uma temática histórica: a tensão entre o centro e a periferia.

A direção segura de Beto Brant nos entrega a uma narrativa bastante atual: três amigos, companheiros desde os tempos que cursavam engenharia na faculdade, são sócios de uma construtora há 15 anos. Certo dia, eles se desentendem, momento que dá o nó para o desenvolvimento do conflito do roteiro.  De um lado temos Estevão (George Freire), homem que se considera íntegro e recusa negociar com o governo, através de rocambolescos esquemas de corrupção. Do outro lado, temos Gilberto (Alexandre Borges) e Ivan (Marco Ricca), acuados, interessados em conduzir a construtora, contratam Anísio (Paulo Miklos), um assassino de aluguel, para executar o serviço: eliminar o sócio majoritário.

O problema é que Anísio tem planos de ascensão social. O que vai acontecer nem é grande mistério, não é mesmo, caro leitor? Os sócios vão se encontrar numa situação de risco, sempre em clima de tensão, tamanha a ameaça deste “invasor”, que inclusive, não vem sozinho, mas traz um amigo indesejado para ocupar espaço na construtora e para piorar, envolve-se com a órfã de Estevão, a jovem Marina (Mariana Ximenez), o que o coloca numa posição de chantageador repleto de privilégios.

Com 97 minutos, O Invasor foi lançado primeiramente em diversos festivais, para logo depois, adentrar o circuito comercial em 2002. Adaptação do texto literário homônimo de Marçal Aquino, o em 2015, a ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) o considerou um dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos. Comparado ao mexicano Amores Brutos, de Alejandro González Iñarritu, a trama é o que o crítico Eduardo Valente chamou de “o cinema brasileiro como invasor da sua própria realidade”.

Beto Brant também assina o roteiro, juntamente com Marçal Aquino e Renato Ciasca. Considerados pelos especialistas como “herdeiros de Rubem Fonseca”, o trio busca na estética policialesca as explicações para determinados problemas sociais do Brasil. É nesse mundo de aparências e alpinismo social que estão Ivan, Gilberto, Marina e Anísio. Ivan, interpretado com maestria por Marco Ricca, é um homem que representa a paternidade falida, o insucesso da instituição do casamento, tendo como contraponto positivo o arrependimento e o sentimento de culpa que o persegue durante todo o desenvolvimento narrativo. Gilberto, seu parceiro, também muito bem interpretado por Alexandre Borges, é dono de um prostíbulo, tem proteção de parte do segmento corrupto da polícia e é quem mais reforça a ideia de eliminar Estevão, mas ao contrário de Ivan, no que diz respeito a sua “outra metade”, representa o homem das aparências, pois é um pai e marido exemplar no contexto domiciliar, quase “outra pessoa”.

Anísio, personagem conduzido pelo “titã” Paulo Miklos é o que podemos chamar de o “homem sem passado”. Apesar de ser um mero criminoso responsável por eliminar o problema inicial dos sócios, torna-se o problema posterior, ao ascender ao poder de maneira relativamente revolucionária. Ele assume o seu espaço, dá ordens, demonstra que não está para brincadeira e acima de tudo, que quer a sua fatia nos negócios. O rapper Sabotage foi o responsável por duas falas nos diálogos. Marina, inicialmente aparente ser uma garota simplória, sem grandes realces dramatúrgicos, mas se revela gradativamente e representa as cenas alucinógenas do filme. Claudia, informante interpretada por Malu Mader não faz muito em cena, mas possui um papel preponderante dentro de um determinado eixo dramático: a psicologicamente abalada vida de Ivan.

Alegoria da situação histórica brasileira, o filme recusa a estética da estilização típica do Cinema da Retomada, movimento um pouco próximo ao período de seu lançamento. No que tange aos aspectos visuais, o filme é bem conduzido. A montagem de Manga Campion se desenvolve de acordo com os frenéticos planos dos personagens, tal como a direção de arte de Yukio Soto, responsável por nos mergulhar nos universos apresentados pelo filme: escritórios onde as coisas aparentemente ocorrem como pede a cartilha dos bons modos, contrapostos as baixadas onde as drogas circulam, boates com prostituição e atos de violência, entre outros ambientes bem trabalhados pelo design do filme.

Filmado em 16 mm, transportado para 35 mm posteriormente, O Invasor é carregado de imagens granuladas, tendo ainda em seu perfil narrativo o que a crítica da época chamou de “estética fliperama”, haja vista a presença constante do grafite nos muros, da velocidade da câmera a circular nas grandes avenidas e as cores psicodélicas das casas noturnas. A direção de fotografia de Toca Seabra usa e abusa da luz saturada durante o dia, em contraponto ao prateado e iluminado céu das cenas noturnas, numa espécie de metáfora da impossibilidade de se conciliar os desejos numa sociedade repleta de relações capitalistas e pressões hostis.

Numa análise macroscópica, O Invasor traça uma crítica ao conflitante processo de estabelecimento de alianças numa sociedade onde todos querem sair vantajosos. A trama nos faz lembrar bastante das ideias do pensador contemporâneo Zigmunt Bauman em Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos, pois a trama é justamente a história de sujeitos que entram em crise ao necessitar criar laços para o devido convívio em sociedade.

No livro, entre tantas questões, Bauman retrata a fragilidade das relações entre os seres humanos diante da lógica consumista de nossa sociedade contemporânea, afirmando que o homem, anteriormente mais centrado, tornou-se um sujeito desvinculado no contexto atual, sendo assim, as conexões surgem como flutuantes, fragilizadas, demasiadamente flexíveis e repletas de insegurança. Ivan, Gilberto, Estevão, Marina e Anísio são centrifugados dentro desta lógica que gera a estimulação dos desejos conflitantes. Mais atual impossível. Um filme imperdível para pensar o Brasil de ontem e de hoje.

O Invasor — Brasil, 2001
Direção: Beto Brant
Roteiro: Marçal Aquino, Beto Brant, Renato Ciasca
Elenco: Alexandre Borges, George Freire, Malu Mader, Marco Ricca, Mariana Ximenes, Paulo Miklos,
Duração: 96 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.