Crítica | O Invencível (1949)

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estrelas 4

Baseado em um conto de Ring Lardner e com roteiro de Carl Foreman (vencedor do Oscar na categoria por A Ponte do Rio Kwai, em 1957, e tendo aqui a sua primeira indicação ao prêmio), O Invencível (1949) é um retrato cruel de como desequilíbrios emocionais aliados a sonhos de grandeza e orgulho desmedido podem ser a ruína de uma pessoa.

A trama acompanha Midge (Kirk Douglas, em interpretação soberba, o que lhe rendeu a primeira indicação ao Oscar de Melhor Ator) e seu irmão Connie (Arthur Kennedy, também ótimo, recebendo sua primeira indicação ao Oscar de Ator Coadjuvante) chegando na Califórnia, lugar para onde foram tentar a vida, depois de fazerem um investimento à distância. Em pouco tempo eles percebem que nem todo mundo é confiável para se fazer negócios e tentam se sustentar como empregados no restaurante do qual deveriam ser donos.

O roteiro de Carl Foreman cria uma base familiar forte, mesmo sem elencar, de fato, a família. As relações — ou a ideia de relações — vai mostrando um pouco de cada irmão, as coisas que os incomodam, o valor que eles dão à simplicidade e, principalmente às outras pessoas e ao dinheiro. O texto se aproveita do fato de a dupla ter vindo de uma realidade social paupérrima — algo que é dito logo no início do filme, antes do flashback, e repetido mais duas vezes por Midge — e projeta todo o sonho de grandeza do boxeador nessa necessidade de ganhar dinheiro, de ser reconhecido, bem tratado, aplaudido. Não se trata apenas de faturar muito e viver muito bem. Para Midge, o público, as ovações, a mídia falando sobre ele, o amor alheio eram as maiores realizações.

Harry W. Gerstad, que recebeu aqui o seu primeiro Oscar de Edição (o outro foi por Matar ou Morrer, três anos depois) realiza um verdadeiro espetáculo de ritmo e, juntamente com o diretor Mark Robson, fez um ciclo de encontros e desencontros, todos terminados de maneira negativa. Na primeira parte, que podemos chamar de “reconhecimento”, conhecemos as motivações e a personalidade dos personagens, além de notarmos uma grande insistência da câmera em entregar primeiros-planos, algo que no segundo terço, o da “separação”, fica cada vez mais raro. No terceiro ato, o dos “encontros trágicos”, entendemos o motivo de tamanha pessoalidade a princípio. Parece-nos que os personagens estavam sempre ali, uns próximos aos outros, mas nós nunca os tínhamos notado.

Como é comum em histórias sobre atletas, há um contraste entre a vida pessoal e a vida pública, profissional. Aos poucos, esse blocos de problemas separados vão encontrar situações deflagradoras de algo que a longo prazo não terão boas consequências para ninguém. A fim de comparação, vale dizer que essa linha narrativa se opõe ao que temos em Rocky, e guarda maiores semelhanças com Touro Indomável, uma “escola de esportes no cinema” que chegaria à sua maturidade nos anos 2000 e olharia para trás com grande nostalgia, readequando os mesmos ingredientes humanos à flor da pele, como vemos em O Dia Mais Feliz da Vida de Olli Mäki ou, em um âmbito social e econômico mais delineado, São Jorge, ambos de 2016.

A derrocada do herói-atleta é acompanhada de grandes questionamentos sobre a vida (o que foi feito antes, em busca de “uma vida melhor”) e de fazer as pazes com os outros. Em O Invencível, isso serve como o primeiro passo para o caminho que levará o protagonista até a última luta, a melhor parte do longa, confirmando o excelente trabalho de montagem e uma direção eficiente, com boa localização de câmera e acompanhamento dos atores no decorrer da luta.

Se não fosse a prestação de contas rápida demais entre Midge e as pessoas que ele magoara antes, o filme iria parecer mais crível, o que também vale para basicamente todos os detalhes amorosos da obra. A recompensa a esses deslizes vem em uma história forte, com um final que realmente impressiona, cheio de melancolia. Um preço alto demais a ser pago por aplausos que não duram muito tempo.

O Invencível (Champion) — EUA, 1949
Direção: Mark Robson
Roteiro: Carl Foreman (baseado no conto de Ring Lardner)
Elenco: Kirk Douglas, Marilyn Maxwell, Arthur Kennedy, Paul Stewart, Ruth Roman, Lola Albright, Luis Van Rooten, Harry Shannon, John Daheim, Ralph Sanford, Esther Howard
Duração: 99 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.