Crítica | O.J.: Made in America

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estrelas 5,0

Logo no início de O.J: Made in America, somos apresentados a um vídeo que mostra O.J. Simpson sendo questionado por uma juíza a respeito de sua rotina na prisão e ele, claramente entusiasmado, conta sobre o time de detentos que treina. Porém, O.J. é interrompido bruscamente por ela e passa a ser interrogado sobre o assassinato de Nicole Simpson, mudando o semblante do atleta, que não contém as lágrimas. O pequeno momento narrado acima, mesmo que dure pouco, é brilhante para exemplificar o trauma que o crime causou para Juice, como era chamado, uma vez que, todas as suas conquistas foram deixadas de lado para dar lugar ao crime na mente do público.

O documentário destaca que, durante a carreira esportiva de O.J., o debate racial tomou enormes proporções nos EUA. Astros do esporte, como Mohamed Ali e Tommie Smith, foram punidos com veemência pelo governo norte-americano (Ali perdeu seu cinturão de campeão mundial por seus protestos), enquanto Simpson mantinha-se impassível com a situação e dava entrevistas colocando panos quentes, como vídeos trazidos pela obra revelam. Por causa dessa postura, Juice tornou-se o produto perfeito para a comunidade branca, uma vez que a imagem de um negro passivo e crente na meritocracia é a ideal para a elite caucasiana, resultando no aumento de sua popularidade, no surgimento de amizades com membros da alta sociedade e rendendo diversos acordos comerciais, como o famoso comercial da Hertz, que denuncia como os brancos da época poderiam sim consumir produtos divulgados por negros, desde que este não tenha ligação nenhuma com as raízes negras.

Baseado nessa premissa, o documentário divide-se em três narrativas diferentes, a carreira esportiva de O.J., sua vida pessoal e aumento da violência em Los Angeles, mas todas costuradas de forma orgânica e cronológica pelo excelente trabalho de montagem realizado por Bret Granato, Maya Mumma e Ben Sozanski. Com isso, temos a impressão de estar assistindo a vários documentários misturados em um; contudo, cada um desenvolvido com extrema competência pelo roteiro, escrito por Ezra Edelman, que também dirige, servindo tanto para moldar a persona O.J. Simpson quanto para destacar o contexto histórico da época.

Aliás, tudo que envolve a vida de Simpson está presente no filme, revelando um excelente trabalho de pesquisa. Desde seu início na USC, passando pelos altos e baixos em Buffalo, até a aposentadoria no San Francisco 49ers, não há nenhum ponto importante da carreira do atleta que não seja destacado na obra. Além disso, a vida pessoal de O.J. também recebe a devida atenção, sendo construída à base de diversas entrevistas com pessoas próximas dele, como amigos de infância, familiares, colegas de trabalho, fãs, vizinhos, que revelam vários detalhes da personalidade de Juice, como o orgulho, carisma e agressividade.

No que diz respeito ao contexto histórico, o documentário retrata o debate social presente em Los Angeles destacando diversos crimes famosos cometidos por policiais contra negros que ocorreram na cidade, como o assassinato de Latasha Harlins ou o espancamento de Rodney King, evidenciando o racismo do período e toda a ira da comunidade negra com o sistema criminal norte-americano, resultando em vários protestos, como a revolta Wattz, que também é resgatada pelo filme.

Portanto, a genialidade do documentário está em percebermos quando as três narrativas se fundem, que O.J. foi abraçado justamente por aqueles que ele ignorava, os negros, cansados das injustiças cometidas pelo sistema contra sua raça; enquanto a elite branca passa a criticá-lo, uma vez que a criminalidade para eles estava altamente ligada com a cultura negra. Essa fusão de histórias, aliado com o contexto da época apresentado pela obra, dá um peso ao julgamento que apenas um filme com tantos minutos poderia desenvolver, ressaltando como aquele crime vai muito além de O.J. Simpson, tornando-se um profundo e amplo debate social entre duas classes.

Então, chegamos ao clímax, o “julgamento do século”, como alguns diziam, e, a partir daí, o documentário esbanja seu grandioso trabalho de pesquisa. Todos os detalhes, provas e informações do assassinato são mostrados: frequências policiais, entrevistas com os envolvidos, vídeos do tribunal e até mesmo fotos da cena do crime (incluindo chocantes imagens dos ferimentos das vítimas). Além disso, o filme ainda destaca a intenção de cada envolvido no caso, tais como o medo de Kardashian de ver seu amigo preso, o sonho de Chris Darden em superar seu mentor, a ganância de Robert Shapiro ou o ímpeto por justiça de Marcia Clark, criando breves mas ótimos arcos pessoais para cada um, expandindo ainda mais importância com extrema competência.

Só por tudo dito acima, O.J.: Made in America merece todo o reconhecimento adquirido. No entanto, a obra vai além, podendo ser também um grande relato sobre a decadência de um homem e como a fama pode causar perda de identidade, sendo um trabalho eficiente em tudo aquilo que se propõe a dizer. O.J. Simpson sempre quis ser o melhor em tudo aquilo o que fazia, como o longa destaca, e justamente o documentário sobre a maior tragédia de sua vida consegue ser um dos melhores trabalhos do gênero em décadas.

O.J.: Made in America  – EUA, 2016
Direção: Ezra Edelman
Roteiro: Ezra Edelman
Com: O.J. Simpson, Nicole Brown Simpson, Marcia Clark, Mark Fuhrman, Peter Hyams, Johnnie Cochran, Christopher Darden, Robert Kardashian, Robert Shapiro, Lance Ito, David Zucker, Jim Brown
Duração: 467 min.

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.