Crítica | O Jantar (2017)

Baseado no livro de Herman Koch, que, por sua vez, já fora adaptado mais duas outras vezes para o cinema, O Jantar nos apresenta uma premissa bastante simples, elaborada de forma a nos cativar, principalmente através da expectativa, com importantes questões sendo levantadas e adiadas por empecilhos criados na trama, de forma que ansiamos pelo que está por vir. A intenção de nos envolver, contudo, distancia-se da realidade através do típico problema de adaptações de livros: a falta de cuidado em transformar a estrutura capitular em algo fluido e, claro, mais ágil, possibilitando que a história siga sem interrupções.

A trama se passa, quase que na totalidade, com direito a alguns flashbacks, em uma noite. Paul Lohman (Steve Coogan), ex-professor de História, junto de sua esposa, Claire (Laura Linney), comparecem a um jantar com seu irmão, Stan (Richard Gere) e sua cônjuge, Katelyn (Rebecca Hall). O propósito desse reencontro familiar, de início, permanece um mistério e, aos poucos, o real motivo vai se apresentando: discutir o que fazer em relação seus filhos, que atacaram e mataram uma moradora de rua, a queimando viva. A decisão a ser tomada, claro, invariavelmente afetará o futuro de Stan, que almeja ser eleito como governador de seu estado. Enquanto isso, outros assuntos do passado dessa família começam a surgir.

O grande problema de O Jantar, que já fica bem claro desde os minutos iniciais da projeção, é a divisão do filme em atos muito distintos. Cada transição é acompanhada por um texto, que aparece em tela, destacando as etapas do jantar: aperitivos, entradas, pratos principais e sobremesa, aspecto que dialoga com o caminhar da conversa dos presentes. O roteiro de Oren Moverman, também encarregado da direção, fragmenta sua narrativa, tornando-a episódica, com direito a elipses bem explícitas, geralmente acompanhadas de um flashback. Essas constantes quebras de ritmo dilatam o longa-metragem e prejudicam nossa imersão, como se a história precisasse engrenar a cada mudança de ato, por mais que a ironia das transições, sempre com alguma música tocando, acabe nos divertindo, contrastando a tensão criada por essa reunião com a perfeição desse jantar em si.

Além disso, o texto acaba evidenciando os truques narrativos utilizados, que adiam inúmeras vezes a pauta principal dessa reunião. De início, essas interrupções soam naturais, frutos da aversão de Paul a seu irmão, mas, conforme progredimos no longa, tudo acaba soando como mero artifício do roteiro para prolongar algo que facilmente poderia ter sido resolvido em bem menos tempo. Não que a ideia de trabalhar outras questões seja dispensável, o grande problema está na falta de profundidade atingida, que fazem dos diversos assuntos levantados meros empecilhos para chegarmos onde realmente interessa.

Por outro lado, esse prolongamento da trama possibilita que conheçamos melhor os dois irmãos (as esposas funcionam mais como apoio do que qualquer outra coisa, somente ganhando destaque pontualmente). A ideia que havíamos formado, de início, sobre cada um deles, pautada pela narração em off de Paul, é desconstruída, enquanto enxergamos o que realmente há de errado naquela família e como o atual problema é apenas um sintoma de todas as difíceis situações que passaram ao longo dos anos. Aliás, o filme ainda nos proporciona uma bela quebra de expectativa através da resolução de Stan no trecho final do filme, algo que, normalmente, partiria do professor de História e não do político preocupado com sua própria carreira, abrindo importantes questionamentos sobre a impunidade e o papel educador dos pais. É importante notar como os dois soam extremamente humanos, pessoas reais, fruto, sem dúvida, das atuações de Coogan e Gere, ambos com completo domínio de seus personagens, nos fazendo enxergá-los como verdadeiros irmãos, apesar da discórdia entre os dois.

O Jantar, porém, não consegue se distanciar de seu problema estrutural, que não somente faz desse um filme mais longo do que deveria ser, como quebra sua narrativa em bem definidos capítulos, dificultando nossa imersão e aproveitamento da obra como um todo. Mesmo com ótimas atuações de seu elenco principal, a obra configura-se como enfadonha, meramente arranhando a superfície quando se trata de pontos importantes levantados pelo texto.

O Jantar (The Dinner) — EUA, 2017
Direção:
 Oren Moverman
Roteiro: Oren Moverman (baseado no livro de Herman Koch)
Elenco: Steve Coogan, Richard Gere, Laura Linney, Michael Chernus, Taylor Rae Almonte, Charlie Plummer, Seamus Davey-Fitzpatrick, Miles J. Harvey, Laura Hajek, Rebecca Hall
Duração: 120 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.