Crítica | O Jardim de Allah (1936)

estrelas 3,5

Muita gente já viu, sem querer ou saber, pelo menos uma cena de O Jardim de Allah (1936). Ela é reproduzida logo no início do clipe da música Time After Time, da Cyndi Lauper, e ouvimos tanto trechos do diálogo entre Marlene Dietrich e Charles Boyer, como vemos um breve adeus entre eles na tela…

Lembrado por esta referência pop, pelo magnetismo estonteante de Marlene Dietrich e por ter sido o primeiro filme de impacto comercial a mostrar a beleza do Technicolor sob o processo de captura de cores por três negativos, O Jardim de Allah é um romance dramático esteticamente muito belo e amplamente odiado.

Baseado no livro de Robert Hichens, o longa nos conta a história de um monge trapista (Charles Boyer) que quebra seus votos e foge do mosteiro. Em sua peregrinação atormentada, encontra-se com Domini Enfilden (Dietrich), uma herdeira em viagem espiritual pelo norte da África, na borda do Saara, em busca de alguma coisa que lhe trouxesse felicidade. O roteiro narra as histórias pessoais da dupla em blocos separados, unindo-os ainda na reta inicial do filme, deixando claro que a jornada dos dois personagens será percorrida em conjunto.

Uma das coisas que mais incomodam nesta adaptação de Lipscomb e Riggs para o livro de Robert Hichens é a falta de cuidado ao relacionar todos os elementos cristãos presentes na vida dos protagonistas e o drama amoroso deles ou mesmo a busca existencial a que ambos se entregam, fora desse cenário. Ao longo da fita, a história de amor e a busca secular da dupla contrastam de maneira pouco coesa com a fé que possuem. De alguma forma isso é remediado com o interessante conflito do monge com Deus — ele visivelmente está com medo, daí a rejeição de qualquer símbolo ou lugar religioso –, mas isso é apenas um ponto no filme, não o bastante para unir as pontas entre os “interesses em conflito” ao longo da trama.

Por se tratar de um filme curto, os problemas acabam nos chateando menos. E mesmo que o texto não consiga estabelecer uma ligação bem fechada entre a vida e crença do casal, o espaço geográfico onde estão e os personagens com quem se relacionam são cativantes, o que ajuda o espectador a ceder um pouco mais e se deixar conquistar pelas partes positivas do filme, que, no âmbito estético, são impressionantes.

A trilha sonora de Max Steiner é a primeira coisa que nos chama a atenção, antes mesmo da fotografia nos deixar vidrados na tela. Steiner ganhara o Oscar no ano anterior por O Delator, de John Ford, e seria novamente nomeado ao prêmio por O Jardim de Allah, cuja trilha incorpora elementos da música árabe, de forma bastante natural, à música clássica europeia. Existem momentos de grande lirismo, especialmente nos quadros com Marlene Dietrich. O que incomoda aqui é o uso quase onipresente da orquestra pelo diretor Richard Boleslawski, que não soube respeitar os momentos de silêncio necessários aos filme. Por melhor que seja a trilha sonora, o silêncio deve ser observado ao menos em pontos estratégicos e aqui, os raros momentos em que isso acontece pouco indicam nuances dramáticas e ainda sofrem a questionável mixagem de som. A despeito de tudo isso, ainda é possível eleger a trilha como um dos elementos técnicos de destaque da obra.

Mas o grande atrativo em O Jardim de Allah é, sem dúvida, a fotografia da dupla W. Howard Greene e Harold Rosson, que receberam um Oscar Honorário pelo excelente trabalho que fizeram com o Technicolor neste filme. Tudo bem que as cores não são tão precisas quanto as de As Aventuras de Robin Hood (1938); ou intensas como as de O Mágico de Oz (1939); ou dramaticamente estonteantes como as de … E O Vento Levou (1939) — todos da mesma geração desse processo vitorioso de captura de cor pelo Technicolor — mas de fato impressionam o público pelo cuidado dos fotógrafos em escolher os ângulos certos para incidência de luz externa, objetos/cenários de cores contrastantes que a câmera pudesse enquadrar ao mesmo tempo e, claro, o extremo cuidado em capturar tanto momentos delicados, como a primeira vez em que vemos o rosto de Marlene Dietrich na tela (e esse foi o primeiro filme em Technicolor da atriz) quanto as grandes panorâmicas pelas dunas do deserto, especialmente nos planos noturnos.

É difícil gostar do tom melodramático e anticlimático posto no final do filme, com a entrega do casal às suas convicções religiosas, mesmo ardentes de desejo um pelo outro. De uma certa forma, o filme mostra como as questões religiosas tem um enorme peso sobre as pessoas, mas essa possível crítica não é do filme, é uma interpretação do espectador. O diretor e o roteirista guiaram o desfecho para nos parecer um sacrifício belo em prol de dois grandes amores: o secular e o divino. É patético, claro, mas tem sua dose de emoção e não é completamente descartável. Todavia, não é o tipo de desfecho — como também não foi o tipo de desenvolvimento — ideal para um projeto como esse.

O Jardim de Allah (The Garden of Allah) — EUA, 1936
Direção: Richard Boleslawski
Roteiro: W.P. Lipscomb, Lynn Riggs (baseado na obra de Robert Hichens).
Elenco: Marlene Dietrich, Charles Boyer, Tilly Losch, Basil Rathbone, C. Aubrey Smith, Joseph Schildkraut, John Carradine, Alan Marshal, Lucile Watson, Henry Brandon
Duração: 79 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.