Crítica | O Jogo da Imitação

estrelas 4

O que nos faz humanos, no pensar e no agir? Essa é a grande questão que permeia O Jogo da Imitação, questão abordada de modo direto, sem reservas ou eufemismos para qualquer uma das partes envolvidas na história e, por isso mesmo, com um efeito tão comovente.

No longa, o aclamado Benedict Cumberbatch interpreta Alan Turing, matemático prodígio e hoje considerado o pai da informática. O foco da narrativa é na equipe montada pelo governo britânico durante a Segunda Guerra Mundial, com o objetivo de quebrar um código de guerra alemão: o famoso Enigma. Com 27 anos, Turing, pouco sociável e que encara desafios matemáticos com obsessão, é integrado à equipe e logo passa a liderá-la, não sem uma dose de confusão. O matemático então se lança em um ambicioso projeto: construir uma máquina que aponte todas as possibilidades de decodificação do Enigma.

É verdade que O Jogo da Imitação tem muitos aspectos positivos em sua produção. A principal delas talvez seja a denúncia das injustiças, da degradação, dos sacrifícios humanos que não só ocupam os campos de batalha, mas que também os manipulam de fora, como peças de xadrez, na segurança de suas escrivaninhas, como se o próprio horror dos conflitos em si já não fosse o bastante. Parece claro, ao término da fita, que a guerra nada mais é do que um reflexo de como e do porquê é concebida.

Já Cumberbatch, sim, mais uma vez acerta em sua atuação, dessa vez provando de modo indiscutível que além de arrogante, calculista e até mesmo frio, sabe também dar ótima vasão a emoções, compondo assim um personagem complexo e que consegue fugir muito bem de uma repetição da figura total de Sherlock (papel que o consagrou), por exemplo. A trilha sonora de Alexandre Desplat, embora não esteja perto da maravilha de seu trabalho em O Grande Hotel Budapeste (seja como for, concorre ao Oscar por ambos os filmes), funciona bem e é marcante em pelo menos dois momentos: durante certa comemoração em equipe, mais para o fim do longa, e em dada sequência com muita adrenalina, quando Turing tem uma ideia súbita envolvendo sua máquina.

Um grande problema do filme, porém, é a sua quantidade de clichês. Ainda que o longa seja inspirado no verídico, o expectador não tem como saber, apenas assistindo à obra, quando o ficcional impera e quando o objetivo é reconstituir algo que realmente ocorreu. Ou seja, o filme não fala por si nesse sentido, ponto que poderia ser facilmente melhorado, por exemplo, com o acréscimo de datas em legenda em certos trechos, o que não só passaria mais credibilidade aos acontecimentos como situaria melhor o expectador cronologicamente. Assim, cenas como certa discussão entre Turing e Joan Clarke (Keira Knightley) e a de um arrombamento enquanto o matemático tenta desesperadamente progredir com sua máquina entre outras, soam falsas, exageradas, teatrais demais.

O caráter humano de O Jogo da Imitação – salve a luta de Turing para viver numa sociedade que, na época, considerava a homossexualidade ilegal -, porém, é um grande alerta à paz almejada pela guerra, dos que atiram aos que fornecem as armas e dizem quando e para onde atirar. Alan Turing é que o diga.

O Jogo da imitação (The Imitation Game), Reino Unido – 2014
Direção: Morten Tyldum
Roteiro: Andrew Hodges, Graham Moore
Elenco: Benedict Cumberbatch, Keira Knightley, Matthew Goode, Rory Kinnear, Allen Leech, Matthew Beard, Charles Dance, Mark Strong, James Northcote, Tom Goodman-Hill
Duração: 114 min

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.