Crítica | O Jornal (1994)

Devido a sua importância social, como a divulgação de informações e investigação de irregularidades, o jornalismo, normalmente, é representado no cinema de maneira séria e ponderada. Em Todos Os Homens do Presidente, por exemplo, os jornalistas são retratados com heroísmo e bravura. Já Rede de Intrigas parte para um drama que ressalta o lado tóxico do mundo da comunicação e sua busca incessante pela audiência. Portanto, é agradável que Ron Howard traga uma visão humorística para a área em O Jornal.

O filme mostra o conflito de Henry Hackett (Michael Keaton), editor de um jornal pequeno de Nova Iorque que não consegue equilibrar trabalho e família, mesmo amando ambos. Por isso, sua esposa Martha (Marisa Tomei) exige que ele aceite a proposta de um jornal maior para trabalhar menos e receber mais. No entanto, diante de um possível furo jornalístico, o editor deverá optar entre o emprego dos sonhos ou uma história bombástica.

A história de O Jornal se desenrola em apenas um dia, destacando a rotina caótica do protagonista; portanto, inteligentemente, Ron Howard estrutura sua direção para destacar esse fator. O diretor recorre à vários movimentos de câmera que perseguem os personagens, enquanto a montagem abusa de cortes rápidos, principalmente nas reuniões dos jornalistas, ressaltando o dinamismo da profissão e a adrenalina.

Essa estratégia também é adotada pela direção de arte, criando um ambiente bagunçado na redação do The New York Sun, ressaltando o caos do local, algo que o design de som também faz, inserindo vários ruídos de telefone e vozes. Aliás, quando Hackett vai ao The Sentinel para a entrevista, repare na diferença entre as duas redações, uma cheia de informações visuais e a outra simétrica e organizada, transmitindo com sutileza porque o protagonista fica receoso em ir para o novo jornal, visto que ele gosta da adrenalina de onde trabalha.

A parte técnica transmite essas ideias porque o roteiro, escrito por David Koepp e Stephen Koepp, aborda o vício em trabalho. No início, Hackett pede para sua esposa um refrigerante de cola, argumentando que é o que lhe mantém acordado durante o dia, no entanto, aquilo não passa de uma representação de seu apego pela profissão. Perceba que o protagonista bebe o líquido nos momentos de maior intensidade do dia, como durante a reunião de pauta ou cobranças de repórteres.

A partir daí, o filme acerta em utilizar cada personagem para trazer reflexões diferentes sobre o impacto deste vício. Portanto, Bernie é odiado por sua família, Phil tem problemas de saúde e Alicia possui vários problemas financeiros. Ao apresentar para o público essas questões, o dilema de Hackett torna-se mais envolvente porque sabemos as consequências que pode ter caso siga o mesmo caminho de seus colegas.

Ademais, o roteiro tece diversas críticas ácidas ao jornalismo, utilizando-as também para criar humor. Isso fica claro, por exemplo, na reunião de pauta do The Sun, uma vez que os jornalistas agem com total indiferença quando uma repórter cita vários desastres e julgam “divertida” uma pauta sobre nazistas, ou seja, a graça aqui está nas reações absurdas dos personagens, além de ressaltar como a mídia, às vezes, se alimenta de tragédias.

Aliás, a química do elenco fica clara nessas reuniões. Michael Keaton, Robert Duvall e Glenn Close destacam com precisão a visão distinta de seus personagens dentro do jornal e também suas teimosas, inserindo intensidade em cada diálogo. Destaque também para Marisa Tomei, proporcionando a performance mais interessante da película, criando uma personagem que orgulha-se do marido e gosta do jornalismo, área de atuação de ambos, mas teme pelo impacto que o filho terá em sua vida.

Porém, o roteiro perde tempo com tramas pessoais descartáveis. O relacionamento de Bernie com a filha, por exemplo, jamais é explorado com eficiência e a promiscuidade de Alicia tampouco. Aliás, o arco do protagonista também é prejudicado por essas falhas, visto que seus pais são inseridos na trama sem motivo algum. Esses momentos tornam-se quebras consideráveis no ritmo da obra, diminuindo sua intensidade.

Felizmente, o terceiro ato surpreende ao levar o vício dos personagens para um nível próximo do doentio, enquanto a montagem intercala as ações dos três editores do jornal, tornando o desfecho envolvente e impactante. Aliás, o roteiro é maduro ao não condenar quem aprecia seu trabalho, mas transmite a importância da dosagem, deixando claro na bela cena em que o nascimento do bebê ocorre simultaneamente com a impressão do jornal.

Obviamente, O Jornal não está no mesmo nível dos grandes filmes sobre jornalismo, mas a obra traz uma visão diferente sobre a área, o que é ótimo. Graças a essa profissão, eventos importantes foram relatados e crimes horríveis denunciados, mas rir um pouco dela não faz mal a ninguém.

O Jornal (The Paper) – EUA, 1994
Direção: Ron Howard
Roteiro: David Koepp, Stephen Koepp
Elenco: Michael Keaton, Robert Duvall, Glenn Close, Marisa Tomei, Randy Quaid, Jason Robards, Jason Alexander, Spalding Gray, Catherine O’Hara, Roma Maffia, Clint Howard
Duração: 112 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.