Crítica | O Juiz (2014)

estrelas 4

Todo ano a indústria cinematográfica hollywoodiana investe em tramas que nós já sabemos que provavelmente serão escaladas para as premiações do dito maior evento do cinema mundial: a cerimônia do Oscar. Dramas familiares, narrativas épicas e bélicas, algumas tramas “alternativas” e pouco espaço para inovação, mesmo que esta repetição de velhas fórmulas não seja algo ruim, haja vista que no contexto pós-moderno de superlotação de salas de cinema, grandes ofertas de filmes das mais variadas partes do mundo e mais de dois milênios de tradição narrativa, ser “original” é algo quase impossível no panorama de produções contemporâneas. Sendo assim, este é o caso do filme em questão: O Juiz investe em um enredo dramático com uma série de tramas paralelas, tangenciando o eixo central com os subgêneros ‘”filme de tribunal” e “drama familiar”, com direito a bastante senso de humor e acidez diante de uma trama que tenta (e consegue) se levar a sério e apresentar bons resultados no que tange aos aspectos narrativos, mesmo que o produto seja algo produzido todo ano, mudando apenas tempo, espaço, elenco e direção.

Em O Juiz, temos as seguintes tramas que se confluem: um charmoso advogado, interpretado por Robert Downey Jr., destaca-se na sua profissão, ao defender casos importantes, ser bastante requisitado e possuir tudo que o american way of life prega: uma bela casa, um dos carros mais potentes e velozes do mercado, uma bela esposa, além da filha atenciosa. Certo dia, ele recebe uma ligação indesejada. A sua mãe morreu, ele precisa retornar ao lar que deixou para trás, enfrentar as mágoas e assumir o comando de outra situação inesperada: durante o período de luto, distante, descobre que seu pai, um juiz respeitado no distrito onde a família reside, interpretado pelo veterano Robert Duvall, cometeu um delito, foi detido e vai ser levado aos tribunais, agora, numa posição inversa, ou seja, como acusado diante da lei. Neste ínterim, reencontra um amor do passado, dá uns apertos em uma espevitada jovem local e se envolve em outras pequenas confusões.

Quanta coisa, não é, leitor? Pois é. E a trama não fica apenas nisso. Em seus 142 minutos de duração, O Juiz, dirigido por David Dobkin, responsável por guiar comédias como Penetras Bons de Bico (2005) e Bater ou Correr em Londres (2003) reforça um dos estereótipos mais comuns associados ao modo de viver dos estadunidenses: a relação com a família. Antes de adentrar nesta seara analítica, convém assumir que a trama é favorecida pela técnica bem ornamentada, pela orquestração dos enquadramentos, movimentos e planos que funcionam com o tema narrado. O roteiro, assinado por Bill Dubuque e Nick Schenk alterna drama, humor e consegue tornar os clichês menos óbvios e mais aceitáveis.

A família e a questão dos valores tradicionais são temas centrais desta narrativa pulverizada. Downey Jr. assume um personagem chavão dentro do esquema de produção hollywoodiano: o filho ressentido diante do pai (ou da mãe), que precisa retornar ao lar por causa de um câncer, acidente de carro ou outra situação trágica que se encaixe (ou não, como é possível ver em alguns filmes) no roteiro. Neste caso, o filme assume o seu aspecto memorialístico logo nos créditos iniciais. A primeira cena, uma câmera que passeia entre objetos como um par de óculos usado, um livro, uma luva de beisebol, para logo depois, abrir numa panorâmica e apresentar o personagem hoje, atuando diante do tribunal. Se há no videoclipe uma produção que dialogue com este filme, eu diria que talvez fosse American Pie, da cantora Madonna: ao dançar diante de uma bandeira envelhecida e suja dos Estados Unidos, numa montagem paralela que dialoga com os velhos e novos valores da família, como a união estável entre gays, pais divorciados, bem como a miscigenação que demarca o panorama global das relações sociais, Madonna apresenta uma das suas tantas críticas ao american way of life, ou seja, uma sociedade de fachada e cheia de anacronismos. Em O Juiz, um dos focos é este: o personagem de Downey Jr. pode até ser bem sucedido e ter uma bela esposa, um carro possante e uma linda casa, porém, a sua esposa o traiu com um antigo amigo, fato descoberto através de uma fuçada indevida no Facebook da companheira, o seu casamento está em ruínas, e mesmo mantendo a postura arrogante que parece gritar “eu sou o melhor do mundo”, as inseguranças e a necessidade de aprovação por parte do pai surgem através de cada cena entre ambos os personagens, por sinal, um duelo sensacional no que tange os aspectos da encenação. Robert Downey Jr. e Robert Duvall dão um show de representação, somados ao trabalho coadjuvante da sempre competente e equilibrada Vera Farmiga.

O filme, inclusive, engana o espectador mais desatento, ao achar que estará diante de um daqueles filmes de tribunal (convenhamos, o cartaz de divulgação engana caso você não tenha assistido ao trailer ou lido a sinopse). Se a sua escolha ou necessidade for esta, recorra aos clássicos 12 Homens e uma Sentença e Testemunha de Acusação, ou aos mais contemporâneos Tempo de Matar, Acusados, As Duas Faces de um Crime, Filadélfia, Advogado do Diabo, Questão de Honra ou Sob Suspeita. Mas O Juiz consegue dar conta do recado dentro deste subgênero que geralmente trafega entre as narrativas de drama ou suspense. E não é para se preocupar: o filme não é uma refilmagem do irregular O Juiz, produção de 1995, do gênero ação, estrelada pelo “mercenário” Stallone. Longe disso, é um drama equilibrado, bem humorado, orquestrado dentro de uma perspectiva “realista”, cheio de mensagens positivas e uma aula a mais para os interessados na área de Direito.

No final, o questionamento: o filme é pretensioso? Sim, mas qual produção não é? Algumas fingem e envernizam a trama de cinismo, sem assumir as suas intenções. Em O Juiz, as coisas são bem escancaradas: o filme assume a sua postura pretensiosa, arrogante, prova disso é a bandeira dos Estados Unidos pendurada no alto de uma Igreja nos momentos finais da narrativa. Um filme nacionalista, sem dúvida, mas bem argumentado, construído, atuado e lapidado, graças ao bom trabalho de direção e montagem. Se a construção ideológica é para impor ao público as narrativas hollywoodianas, que sejam como esta, não as habituais bobagens que teimam em fazer do espectador um ser acrítico diante da tela.

O Juiz ( The Judge) – EUA, 2014
Direção: David Dobkin
Roteiro: Bill Dubuque, Nick Schenk
Elenco: Robert Downey Jr., Robert Duvall, Vera Farmiga, Billy Bob Thornton, Vincent D’Onofrio, Jeremy Strong, Dax Shepard, Leighton Meester, Ken Howard, Emma Tremblay, Balthazar Getty, David Krumholtz, Grace Zabriskie, Denis O’Hare, Sarah Lancaster
Duração: 142 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.