Crítica | O Juiz

Em 1995, Sylvester Stallone tentou trazer para as telas de cinema uma adaptação do famoso personagem dos quadrinhos britânicos, o Juiz Dredd, criado em 1977. No entanto, o que ele acabou fazendo não passa de um filme genérico de ação que tem um personagem que se chama e se veste como o Juiz Dredd, mas que não tem qualquer relação com a criação de John Wagner e Carlos Ezquerra.

Isso, por si só, não seria um problema. Afinal de contas, adaptações são adaptações e, como o próprio nome implica, alterações são necessárias. A questão toda, porém, repousa no fato de que, mesmo se desconsiderarmos que O Juiz (infeliz título brasileiro) é uma adaptação, ele não se sustenta como algo nem mesmo marginalmente melhor do que um filme rasteiro, que tenta ser mais do que é e falha miseravelmente.

Em um futuro distópico, a Terra foi devastada por guerras e, agora, só há algumas imensas megalópoles superpopulosas que não são passíveis de serem controladas sem governos de tendência fascista, em que o sistema judiciário e policial se confundem nas pessoas de juízes com o poder de prender, sentenciar e executar criminosos. O mais famoso deles é o Juiz Dredd (Sylvester Stallone) que acaba sendo vítima da própria lei quando o ex-juiz Rico (Armand Assante) escapa da prisão e arma uma arapuca para ele. Tudo faz parte de um plano maior, de dominação total de Mega City One e caberá a Dredd limpar seu nome, com a ajuda de um insuportável meliante chamado Herman “Fergee” Ferguson (Rob Schneider) e a Juíza Hershey (Diane Lane), ainda leal ao herói.

Como os leitores podem ver, a premissa não é lá muito original e ela própria acaba servindo para trair o espírito do personagem, já que Dredd obedece cegamente a lei e nunca duvida dela nos quadrinhos (e não vou nem discutir aqui a heresia que foi retirar o capacete do herói). No filme, porém, o juiz durão tem sérias dúvidas sobre a eficácia da lei, justamente porque ele foi julgado e condenado por algo que não fez, com direito até a esbarrar com a estátua que simboliza a “antiga” Justiça (a eterna dama cega com a espada em uma mão e a balança em outra) quando está cuidando do Juiz Chefe e seu mentor Fargo (Max von Sydow).

Acontece que nem mesmo essa discussão é levada a cabo, pois, na segunda metade da fita, notamos que pouco importa se o sistema que Dredd protege está corrompido ou não. O importante é a ação pura e simples. Em outras palavras, o roteiro de O Juiz é falho, sem identidade. Tenta reunir traços do personagem original com elementos novos sem desenvolver nem um, nem outro.

A direção do inexpressivo Danny Cannon é burocrática, sem qualquer tentativa de ser criativa ou diferente. O design de produção funciona bem, especialmente no quesito figurino, cenários práticos e efeitos práticos. Já no departamento de efeitos visuais em computação gráfica, como nas tomadas aéreas de Mega City One e na tosca perseguição aérea, o filme mostra suas falhas indesculpáveis típicas de produção B.

Vou pular os comentários sobre a “atuação” de Stallone, pois é perda de tempo. O que não dá para entender, porém, é como atores do naipe de Diane Lane e Max von Sydow aceitam fazer filmes como esse. Eles estão bem, claro, mas tão deslocados que chega a ser risível. No entanto, Rob Schneider está em seu ambiente, já que não é necessário atuar em O Juiz, apenas ser o sidekick insuportável de um personagem por quem não conseguimos sentir empatia e que só solta frases de efeito brincando com o jargão jurídico.

No final das contas, nem se O Juiz tivesse sido feito na década de 80 ele passaria pelo crivo de filme violento descerebrado, mas satisfatório. Ele não funciona em tantos níveis que fica difícil querer algo mais do que ver o cultuado personagem Juiz Dredd em um filme, somente para se desapontar quando os créditos finais aparecem na tela. Agora é esperar para ver como Karl Urban se sai na nova adaptação.

Quer mais sobre Dredd? Leia a crítica da HQ Juiz Dredd – Inferno.

O Juiz (Judge Dredd, Estados Unidos, 1995)
Direção: Danny Cannon
Roteiro: William Wisher Jr., Steven E. de Souza
Elenco: Sylvester Stallone, Armand Assante, Rob Schneider, Jürgen Prochnow, Max von Sydow, Diane Lane, Joanna Miles, Joan Chen, Balthazar Getty, Maurice Roëves, Ian Dury, Christopher Adamson, Ewen Bremmer, Peter Marinker, Martin McDougall, Angus MacInnes
Duração: 96 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.