Crítica | O Justiceiro #1 (2018)

Eu consigo aceitar o Homem-Aranha milionário, o Doutor Destino como Homem de Ferro, o Venom como agente secreto, X-Men adolescentes sendo trazidos para o presente e Wakanda como um império galático, dentre outras mudanças “modernosas” da Marvel Comics. Mas um personagem que nunca me desceu sendo mais do que ele originalmente foi concebido para ser é o Justiceiro. Sou completamente velha guarda no que se refere a Frank Castle, que deveria continuar sendo um anti-herói urbano que dizima criminosos comuns (por comuns, leia-se sem superpoderes) em um universo compartilhado, mas distante do pessoal que anda pelas cidades de collants coloridos.

Obviamente que querer não é poder e, dos bons tempos da primeira série mensal do Justiceiro lá pelos anos 80, acompanhada da inesquecível Punisher War Journal, que colecionei avidamente, já tivemos tempos melhores ainda pelas mãos de escritores como Garth Ennis, mas também uma sucessão de bobagens que, para mim, chegou em seu ponto mais abissalmente baixo com a transformação do Justiceiro no monstro de Frankenstein, no arco FrankenCastle. Recentemente, depois que Castle foi manipulado pelo Capitão América na saga Império Secreto a fazer o trabalho sujo da Hidra, ele assumiu a armadura do Máquina de Combate (com direito à caveira no peito, claro), com roteiros de Matt Rosenberg que conseguiam razoavelmente equilibrar o Frank das antigas com as “exigências” de fogo de artifício pela editora.

O mesmo Rosenberg, então, volta para uma nova publicação solo do anti-herói, que o coloca de volta no uniforme clássico, mas mantendo sua sede por alvos maiores. Zerou-se a numeração, lógico (é o padrão da Marvel, infelizmente), mas, com a numeração de “legado” (LGY #229) logo embaixo do sempre temido #1, essa prática deixou de ser irritante.

E o escritor faz uma edição inaugural muito bacana. Para começar, em 33 páginas, o Justiceiro só vem a aparecer, em um reflexo, na página 13 e, “ao vivo”, mas “sem rosto”, na página seguinte, com uma aparição completa apena na página 19. Não é um mistério, claro, apenas uma ótima forma de se contar uma história repleta de tiros e mortes do começo ao fim, com Castle frustrando um carregamento da Hidra no porto de Nova York sem poupar esforços e sem economizar na aniquilação da vida na base da Roxxon (usei o “da vida” propositalmente, tenham certeza…). O exagero é bem-vindo aqui, pois é o tal do equilíbrio entre o Castle urbano que empunha pistolas e metralhadoras e o Castle Máquina de Combate. Se sua luta contra mafiosos e vilões mais “comuns” provavelmente ficará para versões sem censura do personagens em publicações tipo as do selo Max, pelo menos Rosenberg não inventa um soro do super-soldado ou algo do gênero para transformar o Justiceiro no “Capitão Justiceiro” ou algo esdrúxulo nessa linha.

Paralelamente à ação desenfreada tendo Castle nas sombras, vemos o Barão Zemo maquinar de seu jeito para obter o reconhecimento de Bagalia como país perante a ONU. Para quem não sabe, trata-se de uma ilha fictícia que abriga toda a sorte de criminosos, com a Hidra no comando. Se o reconhecimento da nação bandida parece exagero para o leitor, basta olhar as várias nações hoje reconhecidas pela ONU, para ver que, aqui, é a ficção imitando a realidade. De toda forma, as histórias paralelas tem excelente ritmo e a convergência final é muito bem feita, ainda que previsível. O Justiceiro, definitivamente, mostra a que veio e inicia o que o nome do arco indica: a Guerra Mundial Frank.

A arte ficou ao encargo de Szymon Kudranski que recria os icônicos personagens – falo aqui de Frank e Zemo, claro – também sem invencionices, mas imprimindo seu toque pessoal e muito visceral, sem ser exatamente realista. Há muito uso de desenhos digitais especialmente para popular o segundo plano dos quadros, o que cria um incômodo grau de artificialidade. Mas, compensado o problema, o artista sabe criar momentos de efeito, como o reflexo de Castle no capacete do motociclista, o uso do tanque de guerra (porque claro, tem um tanque de guerra) e o assassinato que em tese (sempre em tese, pois não acredito em mortes em quadrinhos mainstream) do final. Além disso, sua progressão de quadros é precisa, jamais confundindo o leitor mesmo quando tudo literalmente explode na página. Particularmente, não gostei do rosto de Castle, que ficou redondo demais, mas, pelo visto, terei que viver com isso.

Depois de intermináveis renumerações e do uso do personagem das maneiras mais mequetrefes possíveis, Frank Castle parece voltar ao “pretinho básico”, mas em um jogo maior. Se o preço para ver Castle dizimando bandido é vê-lo dizimando bandidos da Hidra, que seja. A guerra promete ser boa.

O Justiceiro #1 (The Punisher #1/LGY #229, EUA – 2018)
Roteiro: Matt Rosenberg
Arte: Szymon Kudranski
Cores: Antonio Fabella
Letras: Cory Petit
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: 22 de agosto de 2018
Páginas: 33

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.