Crítica | O Justiceiro (1989)

estrelas 3,5

É engraçado como tudo é uma questão de prioridade. No âmbito artístico, por exemplo, uma obra pode se preocupar em agradar, ou pelo menos entreter, diferentes públicos, ou restringir sua atenção a um segmento mais específico. O último caso parece se adequar melhor ao primeiro dos três filmes que O Justiceiro recebeu para o cinema.

A bem da verdade, o longa dirigido por Mark Goldblatt lembra muito um piloto de seriado, segundo o formato da época. Isso porque, mesmo após sua uma hora e meia de duração, resume-se a uma apresentação do anti-herói, concentrando-se quase que totalmente em suas ações presentes e dando ao expectador apenas um vislumbre aqui e ali de seu passado. O filme, portanto, não é a típica história de origem.

A trama, aliás, desenrola-se já após o assassinato de sua família por mafiosos – como bem sabem os fãs dos quadrinhos do personagem — e o flashback acerca do ocorrido tem menos de um minuto. Passamos logo a acompanhar o vigilante, ou Frank Castle (Dolph Lundgren), em sua implacável execução de criminosos que fogem à justiça legal — no começo do longa, as vítimas já são exagerados 125 mafiosos –, assim como fugiram os que assassinaram sua mulher e seu filho. Perito em armas, a limpeza do crime em Nova Iorque parece iminente pela ação de Frank, quando a máfia japonesa Yakuza surge e, capturando os filhos de mafiosos remanescentes da área, reivindica a expansão de seu território.

Trata-se de uma história com começo, meio e fim, mas que, como dito, por apenas introduzir o personagem do título, serviria perfeitamente como abertura de um show que, aos poucos, aprofundasse mais e mais o matador ao longo dos típicos casos da semana. De fato, o filme se prende muito pouco, quase nada à mitologia da Marvel e pode-se dizer que apenas pega o personagem emprestado para contar uma história com objetivos bem próprios, independentes. Daí chegamos à questão do público mencionada a princípio.

Para quem curte um filme de máfia com a típica ação americana da época, que mesmo levando a si próprio pouco a sério busca certa autoafirmação em seu argumento, a fita pode entreter, com a maquinação da Yakuza desafiando o anti-herói a manter a concepção preto no branco de sua ideologia e com uma conclusão eficiente pela simplicidade com que, de fato, a mantém. Lundgren, apesar do pouco aprofundamento de seu personagem em termos de roteiro, é com certeza a melhor encarnação para Castle até então apresentada ao grande público; ameaçador, mudo em sua própria convicção quando muito questionado; irônico, até brincalhão quando se sente à vontade para tanto.

Fato, porém, é que a dificuldade do espectador em realmente se importar com algum personagem, dado o quase incompreensível pouco desenvolvimento de todos eles, inclusive do próprio Justiceiro e de seu antigo parceiro na polícia, impede que a obra passe do seu status de regular. Ainda assim, dadas as irônicas obras cinematográficas dedicadas ao Justiceiro na última década, que ao tentarem fazer todo o dever de casa só conseguem ser ainda mais problemáticas, que se faça a justiça.

O Justiceiro (The Punisher), EUA – 1989
Direção: Mark Goldblatt
Roteiro: Boaz Yakin
Elenco: Dolph Lundgren, Louis Gossett Jr., Jeroen Krabbé, Kim Miyori, Bryan Marshall, Nancy Everhard, Barry Otto, Brian Rooney, Zoshka Mizak, Kenji Yamaki
Duração: 89 min.

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.