Crítica | O Justiceiro (1993)

estrelas 3,5

Se há alguma área onde a DC não perdeu tempo para a Marvel, trata-se dos videogames. Enquanto o MCU já está estabelecido e as séries da Netflix já conquistaram corações, games com os nomes mais famosos da editora são raríssimos, aparecendo normalmente em Lego, com sorte – ou azar, dependendo do ponto de vista. Mas houve uma época romântica dos jogos, há muito abandonada por conexões online, gráficos elaborados, linhas narrativas complexas e jogadores mimados. Naquela época, o beat’em up era a moda, a repetição o costume e os 16 bits configuravam o Belo. Era a época do melhor game da história do Justiceiro e, é bem possível, de qualquer personagem de quadrinhos.

Talvez meu saudosismo fale mais alto – talvez, apenas. Mas o game é bom sim. The Punisher, lançado há mais de vinte anos, segue o padrão dos jogos de luta arcade com opção co-op, que teve como marcos Streets Of Rage e, meu preferido, Final Fight. Com vilões genéricos prontos para apanhar e chefões ao final de cada fase, o game segue um estilo de quadrinho no design e ainda dá a opção de jogar com Nick Fury, que não deixa seu charuto cair e aparece, provavelmente, em sua melhor participação nos games – o que não quer dizer muita coisa.

Uma curva de dificuldade básica, uma possibilidade de pegar bastões de baseball, espadas, armas que caem dos inimigos e objetos do cenário… The Punisher é um game padrão do gênero que ganha destaque por seus personagens, pelo estilo que remete aos quadrinhos e por usar em seu personagem a justificativa do próprio jogo. Evidentemente que ninguém pensava nisso e nem se importa muito em contextualizar as mortes do game com o caráter do personagem até hoje, vide Nathan Drake, o maior matador contemporâneo dos games e que não perde o charme de herói. Mas jogar um beat’em up das antigas com o Justiceiro é uma ideia que agrada e é efetivamente divertida, ainda que sem surpresas. Minto. Wilson Fisk, o Rei do Crime, é o chefão final. E digamos que o pessoal da Capcom não se preocupou em diminui-lo de tamanho. Só por isso o game já vale a pena ser visitado.

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Em termos de jogabilidade, o pecado é não ter variedade de golpes entre os dois anti-heróis, como virou moda no próprio tipo de jogo. Ainda assim, me permito pensar se um milagre acontecesse e a Disney/Marvel finalmente pudesse aproveitar o potencial que possui nessa indústria. E não digo com jogos muito elaborados, que com certeza seriam sucesso se fossem feitos com cuidado, vide Arkham. Imagine comigo se desenvolvedores com aquele caráter independente, estes que carregam o espírito dos games de outrora, conseguissem explorar com a criatividade de hoje tais personagens, mesmo em games 2D, simples, sem muitas camadas. Nada me convence de que não haveria sucesso nessa fórmula. Mesmo que por saudosismo, já que é possível lembrar de pelo menos um game marcante do Justiceiro, do Homem-Aranha, do Capitão América e dos X-Men nesse modelo.

Contextualizando, o jogo é violento com sua chuva de balas. Não tão violento quanto outro memorável jogo de Frank Castle, já para Playstation 2, levando em conta que este mais recente concorria com games como GTA e Manhunt. Mas em 1993, Castle mostrou para que veio. Existem beat’em ups melhores, mas não tão bem ambientados e casados com a urbanidade irada de seus dois personagens. Ironicamente, combinar o estilo de seus heróis com games decentes tornou-se uma tarefa quase impossível para a Marvel. Enquanto a Casa das Ideias patina, o jeito é optar por uma diversão nostálgica. Ou conhecer um clássico dos games.

Obs.: Os créditos finais são, facilmente, os mais viris de toda a história dos games. Um exemplo a ser seguido em tempos que jogos de florezinhas fazem sucesso. Goodnight, fat boy!

O Justiceiro – The Punisher
Desenvolvedor: Capcom
Lançamento: 22 de abril de 1993
Gênero: Beat’em up
Disponível para: Mega Drive e Fliperama

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.