Crítica | O Justiceiro (2004)

estrelas 2,5

É interessante como a ironia perpassa o histórico cinematográfico do Justiceiro. Enquanto o filme de 1989 – a primeira aparição do anti-herói na telona – apresentou um material que, mesmo se levando pouco a sério e sem compromisso com a mitologia da Marvel, sabia o que desejava mostrar, criando um Justiceiro com boa presença de espírito, o segundo longa, de 2004, tenta fazer o dever de casa completo, a começar pelo esperado relato minucioso de como Frank Castle (Thomas Jane) teve a família assassinada – embora tal relato também seja bem distinto dos quadrinhos – e, com isso, não chega quase a lugar nenhum, criando toda uma miríade de personagens e situações que deveriam deixar a obra imponente – do tipo digna de uma abertura de franquia -, mas não conseguindo desenvolver nada apropriadamente.

É verdade que o filme de 1989 deixou a desejar em termos de roteiro no quesito profundidade, mas o carisma do elenco – principalmente do protagonista – mantém com eficácia o tom aventuresco da produção. Na versão de 2004, porém, o tom da narrativa é mais sombrio, só que poucas figuras possuem sequer uma cena de presença em tela – e certamente Jane não está entre essas poucas. O resultado é um filme monótono em muitos momentos, apesar de tantas cenas de ação que se esforcem para cativar o espectador, investindo, principalmente, em lutas corpo a corpo. A verdade, aliás, é que o filme erra, é infeliz na estratégia de sua narrativa, desde a sua concepção até, por reação em cadeia, a conclusão da mesma. Ora, o longa, com direção de Jonathan Hensleigh, claramente quer que o espectador se identifique não apenas com o Justiceiro, mas também com a família de mafiosos que persegue, encabeçada por Howard Saint (John Travolta). Para isso, o filme começa com uma sequência introdutória, na qual uma operação de um dos filhos do gangster não é bem sucedida e, durante a apreensão policial, na qual Castle também está presente, acaba sendo morto.

Consequência, o gangster pai fica irado da vida, pensa em matar Castle para se vingar, mas, a pedido da esposa, Livia (Laura Harring), manda assassinar toda a família do policial. Isso mesmo, ao contrário dos quadrinhos, não apenas esposa e filho são mortos, embora sejam o foco final do ataque, tampouco são mortes de tom mais impessoal, como acontece originalmente. Não, o roteiro se preocupa, desde o começo, em deixar mais do que clara a conexão emocional entre Castle e Howard, mas o texto não compreende que, por mais impessoal que fossem os assassinatos a mando dos mafiosos, o espírito de vingança / justiça do novo Frank Castle, ou Justiceiro, se devidamente apresentado equivaleria a uma carga emocional, dramática mais do que suficiente para a produção. Em vez disso, com a estratégia que tomou, não só a narrativa ofusca a legitimidade do Justiceiro, quando Howard se sente tão ferido quanto o outro pela morte do filho, como Travolta se sai muito melhor em construir seu personagem, suas motivações, do que Jane, mais por conta de sua presença em tela – uma das poucas figuras – do que pelo roteiro, que na maior parte do tempo só sabe tratar a revolta do homem com manifestações verbais e explícitas de cólera. Quanto a Jane, parece um robô em tela, que, se na certa não se espera que ande rindo por aí, tampouco consegue convencer quanto ao seu sofrimento, quanto à extensão de sua perda ou acerca do quanto passa a acreditar em seu novo ideal de justiça.

Tem-se aí, pois, a grande ironia do presente longa para o de 1989, que acerta mais pela simplicidade, até em demasia, do que o novo o consegue ao tentar investir numa suposta receita completa. Enquanto o filme predecessor também trabalha com um número razoável de personagens relevantes, cada qual com seu papel bem distribuído na trama, o mais recente joga gente sem fim na tela, desde um sujeito vivendo numa ilha isolada até uma trupe de desajustados, dos quais Castle vira vizinho após o atentado, figuras que, mesmo tendo como mérito o foco em pessoas à margem, parecem totalmente fora de lugar dentro da trama como um todo e acabam parcamente desenvolvidas.

As sequências de ação buscam ser sofisticadas, e a seu modo até funcionam, apesar de implicarem em um Justiceiro que mais é perseguido do que persegue, em muita enrolação para o confronto final – decididamente, o filme poderia ser mais curto – e virem acompanhadas de temas sonoros orquestrados que, mesmo sofisticados, parecem fora de lugar em relação ao ambiente no qual a história se passa e aos seus personagens. Um possível consolo para quem conhece o primeiro filme do Justiceiro e, ainda mais, os quadrinhos do personagem, é a reflexão que a produção de 2004 pode instigar em tais pessoas sobre a importância da humildade ao se fazer cinema – ou o que o valha -, por mais ou menos profissional que você seja, e por mais ou menos recursos com os quais você conte para tanto.

O Justiceiro (The Punisher – EUA, 2004)
Direção:
Jonathan Hensleigh
Roteiro: Jonathan Hensleigh, Michael France
Elenco: Thomas Jane, John Travolta, Samantha Mathis, Laura Harring, Rebecca Romijn, Will Patton, Ben Foster, Roy Scheider, Kevin Nash, James Carpinello
Duração: 124 min

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.