Crítica | O Labirinto do Fauno

olabirintodofauno

estrelas 5,0

Em 2001, o cineasta mexicano Guillermo Del Toro realizou um dos mais belos filmes daquela década, cujo enredo se desenvolvia ao redor da Guerra Civil Espanhola (1936-1939). Misturando ficção com realidade e com uma perspectiva narrativa infantil, A Espinha do Diabo conseguiu a aclamação crítica e, além disso, o diretor viu o seu trabalho cair nas graças e aceitação do público. Usufruindo de uma narrativa fantasmagórica, permeada de suspense, Guillermo Del Toro utilizou o sobrenatural como uma metáfora para retratar as cicatrizes que tal conflito infligiu numa Espanha governada por Franco.

Ninguém poderia imaginar que o mexicano, cinco anos depois, realizaria O Labirinto do Fauno, obra igualmente impactante que se aproxima muito, tematicamente e estilisticamente, do trabalho realizado em A Espinha do Diabo, seja na abordagem fantástica, misturando fantasia e realidade, quanto no background político, o qual é veementemente criticado pelo diretor nas duas películas.

Guillermo Del Toro apresenta ao espectador uma fábula sombria e um universo permeado de fadas, faunos, monstros e outras criaturas fantásticas. Tal roteiro, também assinado pelo realizador, é permeado de alegorias e metáforas e, certamente, vai servir como um banquete mental aos portadores de imaginação férteis. Além disso, O Labirinto do Fauno é um excelente título para aqueles que procuram uma fonte de entretenimento mais sofisticada. O roteiro de Del Toro foi fortemente influenciado pelas histórias fantásticas dos Irmãos Grimm, alemães, e pelos contos de fadas de Hans Christian Andersen, dinamarquês, e também pela famosa narrativa inglesa Alice no País das Maravilhas, assinada sob o pseudônimo de Lewis Carroll.

Contudo, o maior êxito do roteiro não são as referências, mas a inteligência de Guillermo Del Toro em manter a credibilidade e veracidade dos dois mundos. Cabe ao espectador escolher qual rumo seguir: mergulhar de cabeça no mundo fantasioso, como a protagonista infantil, ou permanecer na incredulidade e/ou ceticismo. Associado a isso, temos novamente o brilhantismo do diretor em abordar ambos os segmentos com igualdade, dando importância para as duas esferas narrativas (o mundo real e o mundo fantasioso).

Diferentemente do que se espalha por aí, O Labirinto do Fauno não é um filme direcionado para crianças (nem os contos de Grimm e Andersen, diga-se de passagem, uma vez que suas histórias foram sendo modificadas e “adocicadas” através dos séculos). A julgar pela complexidade do núcleo narrativo, as inúmeras referências às mais diversas manifestações da Arte e pela seriedade dos temas abordados na película, Del Toro mirou num público adulto, maduro e inteligente.

O argumento se desenvolve ao redor de Ofélia (Ivana Baquero), uma menina que encontra subterfugio em um mundo fantástico durante o término da Guerra Civil Espanhola. Neste universo, ela é uma princesa, esperada por muito tempo pelas criaturas que o habitam, e precisa cumprir três severas tarefas para proteger e salvar o seu Reino. Tal revelação chega aos ouvidos da menina através de um fauno (o mímico Doug Jones, que também interpretou o assustador Homem Pálido), uma misteriosa criatura com intenções difíceis de interpretar.

A narrativa começa quando Ofélia e sua mãe, Carmen (Ariadna Gil), a qual está passando por uma gravidez de risco, se mudam para uma casa isolada no meio de um bosque, onde o Capitão Vidal (Sergi López), marido de Carmen, reside. Esse capitão é um cruel fascista espanhol que luta, com punhos de ferro, contra os comunistas guerrilheiros da região. Em meio a embates com o padrasto e a vida paralela fantástica, Ofélia tenta cumprir suas tarefas e sobreviver no mundo real.

Vencedor de 3 Oscars, O Labirinto do Fauno é visualmente impecável. Prova disso é verificar em quais categorias em que o filme foi condecorado pela Academia: Melhor Fotografia, Melhor Direção de Arte e Melhor Maquiagem. O cinematografo Guillermo Navarro manteve uma fotografia bastante carregada, especialmente em tons de azul, e outras tonalidades escuras e sombreadas. As cenas no mundo fantástico são notavelmente escuras, denotando o perigo presente naquele mundo secreto. No mundo real, as cores são mais saturadas, se aproximando do amarelo. Tais tonalidades separam ainda mais um mundo do outro e o resultado é um espetáculo visual.

A Direção de Arte de Eugenio Caballero e Pilar Revuelta é um dos pontos fortes do filme. A decoração e montagem dos sets, especialmente na parte fantasiosa da narrativa é belíssima. A Maquiagem de David Martí e Montse Ribé complementa perfeitamente o trabalho realizado na caracterização dos ambientes. Todas as criaturas magicas, algumas um tanto quanto medonhas, outras visualmente belas, foram devidamente caracterizadas e contribuem para a fluição da narrativa. A fita foi indicada em outras três categorias: Melhor Filme Estrangeiro para o México, Melhor Roteiro para Guillermo Del Toro e Melhor Banda Sonora para Javier Navarrete.

É interessante que Guillermo Del Toro narre toda a sua história pelo olhar da criança. Para ela, o local mágico que descobre é uma espécie de fuga da crueldade da vida. As diferentes reações de Ofélia aos acontecimentos são visíveis: no palácio de uma criatura estranha (e assustadora), a garota parece não sentir medo, inclusive quebrando algumas leis; por outro lado, o pavor da jovem é perceptível quando está perto do seu padrasto, em um sutil exemplo da dicotomia entre realidade e ficção proposta por Del Toro.

O Labirinto do Fauno ainda ganha com uma galeria de personagens interessantes e bem construídos, que levam o espectador a acreditar em tudo aquilo. Além de Ofélia, interpretada com talento e delicadeza por Ivana Baquero, Maribel Verdú se destaca no papel de Mercedes, transformando-a em uma pessoa real, inclusive capaz de atos de crueldade quando provocada. Enquanto isso, a construção do personagem do capitão surpreende. À primeira vista, Vidal é apenas um vilão caricato, mas ele ganha profundidade e complexidade à medida que a trama se desenrola, tornando-se, ao final, uma figura trágica, mas não menos odiosa.

Ofélia e Vidal são personagens antagônicos e representam de certa forma os universos opostos, da fantasia e da realidade, apresentados no filme. A menina acredita em sonhos e fantasia, sentimentos, caráter e outras características vitais para o desenvolvimento do ser humano. Já o capitão Vidal é um produto de mundo rígido e fascista, e sua ideologia é baseada na violência e na arrogância. A mensagem que Ofélia passa é de como temos que nos abraçar a inocência para conseguirmos sobreviver emocionalmente, num mundo disposto a nos destruir cruelmente.

Del Toro realizou todo seu filme com uma equipe basicamente mexicana, mas sem dispensar a máquina hollywoodiana. Ele, Alejandro G. Iñárritu e Alfonso Cuarón (também produtor do filme) são exemplos de cineastas que nunca deixaram de imprimir sua marca autoral em suas produções, mesmo com as amarras dos grandes estúdios.

A imaginação e inocência de Ofélia nos mostram a necessidade de se imaginar um mundo melhor e buscar por ele, mesmo quando a realidade insiste em ser cruel e ameaçadora. O trabalho de Guillermo del Toro poderá ser visto como uma triste fantasia ou uma trágica realidade. De uma maneira ou de outra, não há espaço para a alegria em sua narrativa.

O Labirinto do Fauno (El Laberinto del Fauno) – Espanha; México, 2006
Roteiro: Guillermo del Toro
Direção: Guillermo del Toro
Elenco: Ivana Baquero, Doug Jones, Sergi López, Maribel Verdú, Ariadna Gil, Álex Angulo, Roger Casamajor, César Vea, Federico Luppi, Manolo Solo
Duração: 118 minutos.

RAFAEL NOVELO . . . Estudante de Literatura na UTFPR que ama discutir sobre Cinema. Gosto de todo tipo de filmes, desde as explosivas produções da Marvel e DC Comics até o contemplativo cinema de Andrei Tarkovski. Amo filmes clássicos, cults, blockbusters, sagas e lançamentos. Ligeiramente antissocial, é senso comum entre as pessoas me acharem estranho. Enquanto isso, ocupo meu tempo assistindo filmes e séries, lendo livros e ouvindo música. Acredito que o Cinema não é só uma forma de entretenimento, mas sim uma forma de expressão de Arte. Seja pelo mundo real ou imaginativo, viajar e explorar é necessário.