Crítica | O Labirinto do Fauno

estrelas 5,0

Contém spoilers.

Guillermo del Toro está bem longe de ser meu diretor predileto. Para ser sincero, o cineasta mexicano não ocupa nem o posto de diretor daquele país que eu mais goste ou considere mais instigante (essa posição pertence a Alejandro González Iñarritu, por mais que alguns desprezem sua fase hollywoodiana e alguns de seus filmes anteriores, como o lindíssimo Biutiful). Apesar de seu talento inegável, as incursões de del Toro por gêneros como a ficção científica, o terror e a fantasia nunca me atraíram de fato. Mais por questões estilísticas, confesso, já que o mexicano nunca chegou a realizar um filme verdadeiramente ruim. Mas é importante pontuar que O Labirinto do Fauno, seu longa-metragem de 2006, foi o grande divisor de águas de sua carreira inclusive dentro do próprio gênero de fantasia, posto que suas obras anteriores com esse cunho foram os dispensáveis e mercadológicos Blade II e Hellboy.

Com seu sinistro conto de fadas, o mexicano conquistou muito mais do que as dezenas de prêmios que levou para casa na década passada. Sua história sobre uma menina que vive sob a opressão da ditadura franquista e que encontra um estranho fauno (mais parecido com uma quimera e que em nada lembra as descrições mitológicas greco-romanas) dentro de um labirinto lodacento fundou um novo paradigma de cinema de fantasia. O nome de sua protagonista, delicadamente interpretada por Ivana Baquero, é Ofélia – o mesmo da personagem de Shakespeare na peça Hamlet, de modo que a lembrança se torna inevitável. A princípio, parecem personagens bastante diferentes, mas que se aproximam no desfecho do filme de del Toro por sua mesma disposição trágica à oferenda e ao sacrifício de suas vidas.

A estrutura de O Labirinto do Fauno segue os passos dos contos de fadas tradicionais, mas resgata a essência violenta e primitiva de suas versões originais, escritas por nomes como Charles Perrault e irmãos Grimm e que Hollywood eliminou em suas produções devidamente higienizadas. Ofélia brinca com o fato ao receber a primeira visita de uma fada, cuja forma de inseto lembra bem pouco a figura presente em seu livro de histórias infantis. A direção de arte constrói toda a atmosfera sombria e pantanosa do filme, exibindo todos os eflúvios e as emanações de uma natureza ancestral, anterior à realidade política e social em que o filme se sedimenta. O trabalho de maquiagem (conta-se que se levavam quase cinco horas para concluir a caracterização do Homem Pálido) é soberbo, dos melhores que a sétima arte já viu. A fotografia mistura cores muito escuras com tonalidades de verde e também com cores quentes básicas, como o amarelo e o vermelho. Essas últimas são preponderantes nas passagens fabulares, em que a fantasia tinge a tela com seus matizes próprios.

A obra foge tanto daquilo em que se transformaram os contos de fada que os seres mais bondosos não se apresentam a Ofélia de modo necessariamente amistoso. O próprio fauno, híbrido de homem, árvore e bode, apresenta-se gestualmente muito mais rude e irascível que se poderia esperar. Ao falhar em sua segunda tarefa, a menina recebe uma reprimenda bastante feroz de seu mensageiro ao mundo subterrâneo. A criatura exibe a rusticidade de um verdadeiro arauto da natureza, que coloca Ofélia em contato com a ancestralidade que o longa-metragem resgata como ponto central da história. O excelente ator mímico Doug Jones interpreta tanto o fauno de Guillermo del Toro como o aterrorizante Homem Pálido, que garante uma das passagens mais aflitivas do filme. Seu trabalho corporal é cuidadoso em cada detalhe, abarcando desde a postura e o caminhar exóticos de seus personagens até o modo heteróclito com que o Homem Pálido tateia à sua volta, à procura dos próprios olhos, que ele insere grotescamente nas palmas de suas mãos.

O Labirinto do Fauno é uma fábula cinematográfica que subverte a própria noção de gênero de fantasia. Ao contrário do que algumas interpretações sugerem, Ofélia não escapa de sua realidade atroz em direção a outro mundo, completamente descolado do seu. A história não contém escapismo no sentido mais comum do termo e acho que interpretá-la dessa maneira apenas reduz a sua importância. Guillermo del Toro consegue momentos de genialidade para demonstrar isso. Há algumas alegorias na obra que conectam indiscutivelmente a realidade e a fantasia, de modo que elas passam a dialogar e a se influenciar mutuamente. Percebe-se isso logo na primeira tarefa de Ofélia, quando lhe é pedido que recupere uma chave das entranhas de um sapo gigante. A árvore frondosa em que a menina entra para encontrar o animal tem o formato de um útero materno. Seus galhos grossos, de lado a lado, lembram trompas uterinas conectadas a seus ovários. A abertura em seu tronco assemelha-se a uma vulva. A metáfora alude obviamente ao irmão de Ofélia dentro do útero de sua mãe, provocando o seu adoecimento. O fantástico conversa a todo o momento com o real.

Também a segunda tarefa, que envolve não tocar em nenhum alimento da mesa onde está sentado o Homem Pálido, reflete a realidade ignominiosa da menina. A bizarra criatura é a transmutação fantástica do capitão Vidal, o padrasto assassino de Ofélia. A ideia fica ainda mais clara na terceira e última tarefa, em que a protagonista é convidada a escolher entre a sua vida e a de seu irmão recém-nascido, pois a passagem para o reino subterrâneo só seria aberta pela oferta de sangue inocente. Quando ela faz sua escolha diante do fauno, cabe ao padrasto assassiná-la com um tiro. A fantasia a condenou à morte, mas seu executor pertence ao mundo real. O Labirinto do Fauno vai, pouco a pouco, rompendo as fronteiras entre o real e o mágico, de forma que as criaturas e os lugares fantásticos deixam de ser produtos simples e acabados da realidade. Eles tornam-se agentes sobre a própria realidade, respondendo continuamente a ela e modificando-a. Esse é o grande brilhantismo do longa-metragem e a sua maior inovação.

É fundamental observar que praticamente todos os personagens do filme são silenciados pelos franquistas, desde o médico do povoado à mãe de Ofélia. Os que não silenciam são eliminados, como bem demonstram as cenas de extrema violência que o longa-metragem contém. A fantasia, portanto, como interlocutora ativa da realidade, é o único meio que a protagonista encontra para lutar contra a brutalidade de seu mundo. Não é mera coincidência que seja uma criança, como ser que guarda a essência original da humanidade, quem descobrirá o mundo mágico e ancestral, de natureza atávica e capaz de combater o puro mal que se apoderou do mundo dos adultos. Por mais que Guillermo del Toro pareça gostar de fazer sofrer as suas personagens infantis, O Labirinto do Fauno é generoso com Ofélia. O fantástico lhe é dado como oportunidade de desobedecer à intransigência de um mundo adulto tão degenerado. A fantasia é a sua via de transgressão.

O Labirinto do Fauno (El Laberinto del Fauno) – Espanha, 2006
Direção: Guillermo del Toro
Roteiro: Guillermo del Toro
Elenco: Álex Angulo, Ana Sáez, Ariadna Gil, César Vea, Chani Martín, Chicho Campillo, Doug Jones, Eusebio Lázaro, Federico Luppi, Fernando Albizu, Fernando Tielve, Francisco Vidal, Gonzalo Uriarte, Íñigo Garcés, Ivan Massagué, Ivana Baquero, José Luis Torrijo, Juanjo Cucalón, Lalá Gatóo, Lina Mira, Manolo Solo, Maribel Verdu, Mario Zorrilla, Mila Espiga, Milo Taboada, Pablo Adán, Pedro G. Marzo, Pepa Pedroche, Roger Casamajor, Sebastián Haro, Sergi López
Duração: 117 min.

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.