Crítica | O Ladrão dos Ladrões: Vol. 1 – Eu Vou Parar

estrelas 3

Robert Kirkman tornou-se um fenômeno dos quadrinhos com The Walking Dead, série mensal em preto-e-branco lançada em 2003 e ainda em andamento que deu origem à série de TV homônima de enorme sucesso. No mesmo ano, ele criou Invencível, série que também continua em andamento, mas foram mesmo os zumbis que catapultaram o roteirista ao status de celebridade dos quadrinhos.

Por muitos anos, compreensivelmente, o autor ficou restrito, basicamente (mas não exclusivamente) a esses dois universos autorais debaixo do selo da Image. Suas primeiras tentativas de ampliar seus horizontes vieram em 2007, com The Astounding Wolf-Man, que durou apenas 25 números e, depois, em 2011, com Super Dinosaur sob o selo Skybound da Image.  Mas foram sempre expansões para o fantástico. O Ladrão dos Ladrões é a primeira HQ de criação de Kirkman que trabalha o “mundo real”, focando na vida do maior ladrão do mundo, Conrad Paulson, ou Redmond. No entanto, Kirkman é, apenas, o argumentista, com o trabalho mesmo de roteiro ficando ao encargo de Nick Spencer.

ladrao dos ladroes_capaO primeiro volume não é fácil de entender. Exige certa paciência do leitor com uma qualidade críptica nos diálogos e na progressão narrativa. Spencer literalmente começa do final em um prólogo no estilo “Missão Impossível” que dá lugar a um capítulo que leva ao título do volume, com Redmond se aposentando de sua profissão. O que vemos, a partir daí, é uma mistura de flashbacks com tramas passadas no presente que nos dão uma visão maior de quem exatamente é Redmond e porque ele decidiu largar sua “profissão”, além do impacto de sua decisão em relação a seus comparsas. De certa forma, a história, sempre sofisticada, lembra um pouco Ladrão de Casaca, com um Redmond até desenhado de maneira a nos remeter a Cary Grant.

Qualquer coisa a mais que eu falar sobre esse primeiro volume estragará a leitura de quem ainda não teve a oportunidade de pegar essa nova obra de Kirkman para ler. Mas é justamente esse meu maior problema com O Ladrão dos Ladrões. Pelo menos nesse volume de abertura, Kirkman e Spencer alicerçam seu trabalho em reviravoltas e mais reviravoltas, como se eles as tivessem imaginado antes de montar a trama principal. Afinal de contas, todo o resto é subsidiário: sua relação com a ex-esposa, com o filho, com a polícia. Tudo acaba perdendo importância para abrir caminho para o grande twist final que, lógico, remete ao começo da narrativa. Nada de mal nisso em termos absolutos, mas a questão é que pouco vemos de Redmond para realmente nos importarmos com ele. A história me deixou um sentimento de vazio e de falta de exploração dos personagens que me fizeram ler o trabalho de Kirkman de maneira pouco engajada, torcendo para o final chegar logo. Sim, sei que esse foi apenas o primeiro volume e o começo de uma história decididamente com potencial (quem não gosta de histórias de ladrões sofisticados dando golpes absurdos?), mas, como volume auto-contido, Eu Vou Parar deixa a desejar.

O mesmo, porém, não pode ser dito da arte. Os traços de Shawn Martinbrough são econômicos, mas precisos, com um excelente trabalho de caracterização física dos personagens, sempre tendente ao realismo. Além disso, ele trabalha quadros horizontais, dividindo a página em quatro seções que conseguem transmitir muito movimento, mesmo em momentos mais parados e voltados ao diálogo. E, nos momentos sem diálogo – são vários – a arte de Martinbrough nunca confunde, transmitindo com precisão os sentimentos dos personagens sem exagerar nas feições e sempre mantendo “a câmera” mais distante deles. Outro destaque na arte são as cores de Felix Serrano, escurecidas, mas sempre muito fortes, às vezes nos presenteando com excelentes contrastes de chiaroscuro que acrescentam camadas à trama de Kirkman/Spencer.

O Ladrão dos Ladrões desperdiça potencial, mas ele está lá, escondidinho na premissa sempre fascinante do mundo dos ladrões sofisticados. Tem uma arte que merece ser conferida e reviravoltas que, no mínimo, divertirão, mesmo que deixem o leitor com uma sensação de dejà vu.

O Ladrão dos Ladrões: Vol. 1 – Eu Vou Parar (Thief of Thieves: Vol. 1 – I Quit, EUA)
contendo O Ladrão dos Ladrões # 1 a 7
Roteiro: Nick Spencer (baseado em história de Robert Kirkman)
Arte: Shawn Martinbrough
Cores: Felix Serrano
Editora (nos EUA): Skybound (selo da Image), publicado entre fevereiro e agosto de 2012
Editora (no Brasil): HQM Editora, publicado em maio de 2014 (como encadernado)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.