Crítica | O Lamento

estrelas 3,5

O diretor sul coreano, Hong-jin Na, que já se destacara em seu primeiro longa-metragem, O Caçador, de 2008, nos entrega mais uma angustiante obra através de O Lamento, seu terceiro filme. A marca da boa receptividade do diretor já se demonstra pelo simples fato do longa estrear no circuito brasileiro, algo que vemos com bastante raridade quando se trata de filmes orientais. Naturalmente que a produção americana e distribuição da 20th Century Fox tem seu mérito na internacionalização do filme, mas o trabalho de Hong-jin pode ser considerado bastante ocidental, por mais que algumas características dos filmes asiáticos possam ser facilmente observados.

Aclamado pela crítica, O Lamento nos traz a história de uma pequena vila, cujos moradores passam a contrair uma estranha doença que os tornam psicóticos, forçando-os a assassinarem todos à sua volta, somente para, pouco depois, morrerem de causas desconhecidas. Nesse cenário, temos Jong-Goo (Do-won Kwak), um policial local que precisa investigar esses estranhos acontecimentos. Sua vida vira ainda mais de cabeça para baixo, contudo, quando sua filha começa a demonstrar sinais dessa estranha raiva. Não demora muito para que ele comece a suspeitar que há algo sobrenatural por trás dessas ocorrências e tudo parece girar ao redor de um estranho japonês (interpretado por Jun Kunimura)que acabara de se mudar para a região.

O maior mérito da obra certamente está na forma como a imersão do espectador é construída. Através de seus planos abertos, bastante constantes, o diretor cria a sensação de que aquela vila está à parte do restante do mundo, como se presa em um limbo que apenas solidifica seus problemas internos, tirando da audiência qualquer esperança para a chegada de uma ajuda externa. É curioso como, na construção desse seu terror e suspense, ele opta por não utilizar uma linguagem típica dos filmes do gênero aos quais estamos acostumados – nesse quesito ele imprime fortemente sua identidade, mesclando uma atmosfera de thriller policial com um forte desconforto no espectador.

A fotografia de Kyung-pyo Hong contribui ainda mais para esse fator, ao priorizar a utilização da iluminação natural, fornecendo forte realismo a cada plano. Esse ponto fortalece a intenção do diretor em nos deixar constantemente na dúvida sobre o que se passa naquela vila de fato – é algo que pode ser explicado cientificamente ou fantasioso? Com sequências que, em sua maioria, se passam durante o dia, é criado um diferente tipo de pesadelo na audiência – o sol não mais representa a salvação, como é o caso da maior parte das obras de terror, o que não só aumenta nossa inquietação, como ainda mais diferencia o longa dos outros com histórias similares.

O tempo, que aos poucos vai se tornando cada vez mais nublado dialoga perfeitamente com o crescente caos que vai tomando a trama. O roteiro, do próprio Hong-jin Na, vai lentamente desconstruindo seu protagonista – a figura de autoridade do policial que vemos no início do filme não mais existe nos momentos finais: temos nele uma vítima tanto quanto as outras que investiga. Nossa segurança é jogada de lado e ficamos à mercê do que se passa na tela, incertos sobre qual será o resultado final do enredo, visto que não sabemos mais em quem acreditar.

Essa escolha de nos jogar na confusão desde cedo, contudo, acaba se provando uma pedra no sapato da obra, visto que nossa imersão é prejudicada pelo fato de, na maior parte da projeção, não estarmos fazendo ideia do que realmente acontece ali. Naturalmente que isso contribui para a forte sensação de desconforto provocada pelo filme, mas é uma faca de dois gumes, visto que pode perder o interesse do espectador menos paciente. E já que entramos no quesito da paciência, as prolongadas duas horas e meia que o longa se constrói acabam enfraquecendo ainda mais a obra como um todo, visto que, nas mãos firmes de uma edição mais cuidadosa, muito poderia ser deixado de fora.

Felizmente, no cômputo geral, O Lamento é um filme que atinge o espectador em cheio, nos oferecendo uma constante sensação de incerteza e agonia, que é muito bem construída pela direção e fotografia, que fogem do comum e nos entregam algo com identidade própria. Embora longe de perfeito, temos aqui uma obra que certamente permanecerá em nossas memórias, provando mais uma vez o quão promissora pode ser a carreira de Hong-jin Na. Com fortes elementos ocidentais, mas que não fazem a obra cair na mesmice, temos aqui um belo exemplar de filme de terror, que merece ser vista por todos os apreciadores do gênero.

O Lamento (Goksung) — Coréia do Sul/ EUA, 2016
Direção:
 Hong-jin Na
Roteiro: Hong-jin Na
Elenco: Jun Kunimura, Jung-min Hwang, Do-won Kwak, So-yeon Jang, Han-Cheol Jo
Duração: 156 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.