Crítica | O Lar das Crianças Peculiares

estrelas 3

A carreira de Tim Burton como diretor não é uma que podemos chamar exatamente de impecável ou até mesmo estável. Repleta de altos e baixos, nos últimos anos mais deslizes que acertos, o renomado realizador de Edward Mãos de Tesoura acabou ficando mais conhecido pela sua identidade visual, que deve muito ao expressionismo alemão, que pela qualidade de suas obras em si. Seu último longa-metragem, Grandes Olhos, fugiu de seu estilo mais sombrio (ainda que existam referências dentro do filme), como já fora feito antes em Peixe Grande, criando a dúvida se poderíamos esperar mais produções diferentes de Burton nos anos posteriores.

Adaptado do romance de mesmo nome, escrito por Ransom Riggs, O Lar das Crianças Peculiares cai como uma luva na estética que conhecemos do diretor, o curioso, porém, é que vemos uma mistura bastante homogênea do tom expressionista, com um visual mais realista, criando um híbrido que, ainda assim, consegue deixar clara a identidade do diretor. Com um roteiro redigido por Jane Goldman, já experiente em adaptações, vide seu trabalho em Kingsman e Kick-Ass, a dupla consegue nos trazer um filme que se distancia da obra original e passa a andar nas próprias pernas, formando algo que se sustenta plenamente sem a necessidade de uma leitura prévia do livro – como todas as adaptações cinematográficas deveriam ser.

Com a repentina morte de seu avô, Jake (Asa Butterfield) decide ir atrás do orfanato que tanto ouvira falar nas histórias de seu ente falecido, quando ainda era pequeno. Segundo o avô, era uma casa repleta de crianças com peculiaridades, como uma garota que flutuava e um menino invisível e que eram cuidados por uma mulher, srta. Peregrine (Eva Green), com o poder de se transformar em um pássaro quando quisesse. Ao chegar na ilha, próxima ao País de Gales, onde a casa se localizava, ele descobre que todos os contos de seu avô eram realidade e logo se envolve em uma trama repleta de fantasia e monstros que devoram os olhos dessas crianças, da mesma forma que fizeram com seu familiar.

Com um ritmo bastante calmo, principalmente na primeira metade do longa-metragem, O Lar das Crianças Peculiares consegue nos aproximar de seu protagonista e dos personagens que o envolvem, garantindo um bom tempo para construí-los. Evidente que, em uma história com tantos indivíduos, alguns acabam sendo deixados mais de lado que outros, mas no que tange o elenco principal, há um considerável cuidado para entendermos o que se passa em suas mentes. A exceção, curiosamente, é a própria srta. Peregrine, cujo tempo em tela tem como função explicar esse universo fantástico e os poderes de cada um dos peculiares que assistimos, o que acaba se configurando como o primeiro deslize da obra, visto que seria preciso sentirmos uma maior proximidade com a personagem para que alguns aspectos do roteiro funcionassem plenamente.

Jake e Emma (Ella Purnell), felizmente, tem sua relação moldada de maneira satisfatória, ainda que a personalidade da menina, se analisada individualmente, seja bastante rasa – eles funcionam enquanto dupla e as aparições da jovem estão intrinsecamente ligadas ao protagonista, que é também o mediador entre o nosso mundo e o apresentado no filme. A calma demonstrada nesses trechos iniciais é, portanto, muito bem colocada a fim de não exigir uma suspensão de descrença tão grande do espectador, fazendo-nos acostumar com o que vemos posteriormente na tela. Para isso, a escolha de Asa Butterfield, ainda que ele não seja lá muito expressivo, funciona, ao passo que conseguimos nos inserir na trama através dele.

A partir da segunda metade, contudo, o filme parece querer correr atrás do prejuízo, visto que sua duração já estava se estendendo consideravelmente. A bagunça começa a aparecer aí. Com a aparição do antagonista, Barron (Samuel L. Jackson), o ritmo se acelera consideravelmente e simplesmente não para até o desfecho, que por si só já soa bastante apressado, não nos oferecendo tempo o suficiente para sentir a dor de Jake. Isso sem falar na construção do vilão em si, que não existe, simplesmente é jogada no espectador de uma hora para a outra em uma explicação excessivamente didática, que contaria com o mesmo drama se o protagonista pegasse um livro e lesse sobre ele. Evidente que, como sempre, Samuel L. Jackson rouba a cena, o que facilita nossa imersão.

Felizmente, o visual da obra consegue contornar os deslizes do roteiro. O design das criaturas conhecidas como etéreos é bastante interessante e assustador ao mesmo tempo, criando uma nítida tensão no espectador com a mera aparição de um deles, o que apenas é amplificado pela falta de habilidade do personagem principal no combate. A decisão de fazer os poderes dos peculiares como algo mais “pé no chão” (à exceção do sopro de Emma) também é acertada, não só para passar uma maior credibilidade à audiência, como para criar uma maior sensação de perigo, visto que elas não são exatamente os X-Men quando se trata de poderes sobrenaturais, tornando-as mais frágeis e, consequentemente, mortais. Mesmo Peregrine não é tida como excessivamente poderosa, por mais que possa controlar o tempo.

No fim, temos a perfeita consciência de que há algo bastante diferente nessa fantasia adaptada por Burton e Goldman, mas não podemos deixar de perceber o potencial perdido em virtude do ritmo inconstante da narrativa, que, no desfecho, acaba esquecendo de importantes personagens como o pai de Jake ou a criança que permanece isolada na casa dos peculiares. Não sabemos, portanto, dizer se estamos diante de um filme genérico de fantasia ou algo a mais, visto que a primeira metade muito nos agrada, enquanto que a segunda deixa bastante a desejar. Tim Burton mais uma vez nos traz uma obra muito aquém do que ela poderia ser, nos divertindo, mas apenas arranhando a superfície dessa trama bastante profunda.

O Lar das Crianças Peculiares (Miss Peregrine’s Home for Peculiar Children) — Reino Unido/ Bélgica/ EUA, 2016
Direção:
Tim Burton
Roteiro: Jane Goldman (baseado no romance de Ransom Riggs)
Elenco: Eva Green, Asa Butterfield, Samuel L. Jackson, Judi Dench, Rupert Everett, Allison Janney, Terence Stamp, Ella Purnell, Finlay MacMillan, Lauren McCrostie
Duração: 127 min.


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GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.