Crítica | O Legado Bourne

estrelas 2,5

Obs: Há spoilers dos filmes anteriores, cujas críticas podem ser lidas aqui: franquia Bourne. Crítica originalmente publicada em 07 de setembro de 2012.

Uma leitora aqui do site fez um ótimo comentário no Primeiro Plano que escrevi sobre O Legado Bourne levantando um ponto interessante, que é mais ou menos assim: como é que a produção vai nos convencer da quantidade de agentes rebeldes que a CIA deixa aparecer por aí? Na corrida de revezamento que é este filme, com Bourne “tornando-se” Cross, esta pergunta fica pendente e a resposta não é satisfatória.

E esse pensamento realmente resume O Legado Bourne, especialmente porque o slogan promocional do filme afirma, categoricamente, que “nunca houve apenas um”. Sim, qualquer um que viu a franquia Bourne sabe, com a maior tranquilidade, que nunca realmente houve apenas um. Há vários agentes do mesmo programa ou de programas de condicionamento parecidos com o de Jason Bourne caçando o pobre coitado nos filmes anteriores. Assim, o slogan não só já começa falido como revela a mais absoluta falta de originalidade no roteiro da fita.

Mas, pelo momento, chega de comparações diretas com a trilogia estrelando Matt Damon no papel de Jason Bourne e vamos tentar falar de O Legado Bourne sem traçar esses paralelos. Voltarei a essas inevitáveis comparações mais lá para o final.

O filme imediatamente nos apresenta a Aaron Cross (Jeremy Renner) boiando na água e visto de baixo por uma câmera submarina, em perfeita referência ao começo de A Identidade Bourne e ao final de O Ultimato Bourne. Logo notamos que ele está em local incerto e não sabido, no meio da neve, tendo que sobreviver por seus próprios meios e sendo perseguido por uma alcateia. Essa seqüência, que ainda continua por uns bons vinte e cinco minutos, é perpassada de cortes que mostram os acontecimentos da trilogia Bourne ocorrendo simultaneamente. O que vimos nos filmes anteriores acaba determinando a eliminação integral do programa Outcome, comandado pelo coronel aposentado Eric Byer (Edward Norton, introspectivo e um tanto sinistro), que criara Cross. É claro que essa eliminação não dá certo, Cross escapa e sai pelo mundo, juntamente com a Dra. Martha Shearing (Rachel Weisz), bióloga do programa que ele salva no meio da confusão.

Tony Gilroy, o diretor e co-roteirista com seu irmão Dan Gilroy, foi responsável por todos os excelentes roteiros dos três filmes anteriores e, portanto, pelo menos em tese, seria a perfeita escolha para capitanear um filme que é construído em cima da mitologia estabelecida de tal maneira que cenas  inteiras da trilogia anterior estão presentes nessa tentativa de recomeço. Afinal, quem entenderia mais profundamente a por vezes complicada trama de Bourne do que ele?

Aliás, falando em recomeço, para aqueles que, como eu, torcem o nariz para as palavras da moda remake e reboot, podem ficar tranquilos: O Legado Bourne é uma continuação que de forma alguma nega o que veio antes. Ao contrário até: os eventos que envolvem Cross e Shearing são muito proximamente ligados aos eventos anteriores, sem que, porém, seja necessário haver uma sobreposição de tramas. O novo filme é como um novo ramo da mesma árvore que estabeleceu a estrutura da trilogia.

No entanto, fui cuidadoso ao afirmar que Gilroy seria em tese a escolha ideal para dirigir o quarto filme. Carregando em seu currículo os bons Duplicidade e Contrato de Risco, o diretor, porém, apesar de realmente mostrar completo domínio sobre a linha narrativa anterior, deixa de capturar a essência do que fez Bourne ser Bourne. Não nos importamos tanto com Cross, pois ele não tem um conflito interno muito determinado e claro. O que o move é um instinto de sobrevivência apenas, não uma vontade de desvendar quem é. Não cobro dos Gilroy uma repetição do que fizeram antes, mas as motivações de Cross são básicas demais, simples demais para justificar um filme de 135 minutos de duração. Não que Renner não esteja bem no papel. Ele está daquele jeito que nos acostumamos a esperar do ator: concentrado, intenso. Ainda que mais para a frente na trama ele revele algo bem interessante sobre seu passado e o porquê de ele desesperadamente querer continuar tomando uma pílula que aumenta suas capacidades neurológicas (o programa Outcome baseia-se em sofisticados anabolizantes para melhorar as condições físicas e mentais dos agentes), esse aspecto não é desenvolvido. Aliás, passa tão rápido que até esquecemos dele.

Por incrível que pareça, preocupamo-nos mais facilmente com Shearing do que com Cross. Ela tem um arco evolutivo mais interessante, pois passa de cientista inocente para “traidora” consciente catapultada pela série de eventos traumáticos na película. Tony Gilroy não faz muito para reverter esse quadro e, em determinados momentos, não é muito difícil perceber Cross mais como uma guarda-costas dela do que qualquer outra coisa. Edward Norton, que normalmente está bem em seus papéis, não desaponta aqui, ainda que o material que lhe tenham dado para trabalhar seja muito simples: ele passa a fita inteira com feições preocupadas e dando ordens nos outros.

A cadência de O Legado Bourne, porém, é seu problema mais sério. Os Gilroy montaram um roteiro que, aparentemente, tem como objetivo ensinar os espectadores cada detalhe sobre o “desmanche” de uma operação confidencial. Ou é isso ou eles não tinham história para contar. Não que esse aspecto em si tenha sido o responsável pela queda de ritmo em vários momentos do filme. No entanto, a necessidade de explicar e explicar novamente o que está acontecendo, sob vários pontos de vista, acaba atravancando o desenrolar satisfatório da trama. Quem viu a trilogia original sabe que tanto Doug Liman quanto Paul Greengrass souberam dosar muito bem momentos frenéticos de ação com diálogos expositivos quase minimalistas, confiando na inteligência do espectador para ligar os pontos. Em O Legado Bourne, esses diálogos são longos, repetitivos e cansativos e só servem para “emburrecer” o filme e para frear a construção da história. Um exemplo claro desse tipo de diálogo é no momento em que, no meio de uma fuga automobilística, Cross para o carro e indaga se Shearing sabe onde há mais pílulas. O resultado é um longo diálogo que explica a natureza dos medicamentos, como se já não tivesse ficado óbvio pela quantidade de vezes que eles são mostrados antes desse momento. E o pior de tudo é perceber que, dos quatro filmes que receberam o nome Bourne no título,  O Legado é o que tem a trama mais linear, que mais dispensaria explicações. Seria possível resumi-la assim: (1) o programa Outcome de criação de super-espiões precisa ser eliminado; (2) um agente sobrevive; (3) ele foge com a bióloga que trabalha no programa e ambos são perseguidos. É só isso, nada mais. Como dizem os  americanos, não é rocket science.

O que chega a ser realmente cômico é o que nossa leitora perguntou e que eu resumi logo no começo da presente crítica. Afinal de contas, quantos programas secretos de criação de super-espiões tem a CIA? E será que toda vez que há um problema um desses agentes torna-se um rebelde descontrolado capaz de fazer ruir toda a corporação? Até aqueles que têm muita facilidade para suspender sua descrença não podem deixar de rolar os olhos para esse aspecto e soltar um incrédulo “de novo?” durante a projeção.

Mas nem tudo é imprestável. As atuações, apesar de não serem sensacionais, são agradáveis o suficiente. Renner pode realmente funcionar como um herói de ação e ele prova isso aqui ainda que, em termos comparativos, Matt Damon seja um Bourne melhor (mas a comparação é até injusta nesse ponto pois Bourne é um personagem bem mais complexo do que Cross). A fotografia com cores mais mudas funciona muito bem para o tom do filme e a montagem, que contextualiza os problemas de Cross em relação ao que veio antes, é muito astuta e interessante. Mesmo a história em si poderia funcionar muito bem em uma obra mais curta, menos ambiciosa, que não almejasse seguir os passos dos filmes que a antecederam.

O Legado Bourne tenta passar o bastão de um protagonista para o outro sem deixá-lo cair, mas não consegue. Não só o bastão cai como os velocistas tropeçam, acabando a corrida naquele “meio” genérico e desonroso que grandes campeões não se contentariam em ficar.

O Legado Bourne (The Bourne Legacy, Estados Unidos – 2012)
Direção: Tony Gilroy
Roteiro: Tony Gilroy, Dan Gilroy
Elenco: Jeremy Renner, Rachel Weisz, Scott Glenn, Stacy Keach, Edward Norton, Donna Murphy, Michael Chernus, Corey Stoll, Tony Guida, Sonnie Brown, Neil Brooks Cunningham, Zelijko Ivanek, Albert Finney, Dennis Boutsikaris
Duração: 135 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.