Crítica | O Legado de Júpiter

Deve ter sido excruciante acompanhar O Legado de Júpiter na medida em que a saga de Mark Millar e Frank Quitely era publicada. Afinal, só o primeiro volume, composto de apenas cinco edições e que acaba em um gigantesco cliffhanger, começou a sair nos EUA em abril de 2013, acabando em janeiro de 2015. O segundo volume – batizado no estilo Millar de O Legado de Júpiter 2 – e também contendo cinco edições, começou a ser lançado em junho de 2016 e só chegou ao final mais de um ano depois, em julho de 2017. Façam as contas e verão que o atraso de Frank Miller e Brian Azzarello com Cavaleiro das Trevas III: A Raça Superior nem se compara com o de Millar e Quitely.

No entanto, mesmo considerando essa injustificável demora, O Legado de Júpiter é uma história muito boa, certamente bem superior às mais recentes aventuras do Batman geriátrico de Miller. O leitor, porém, ao longo da maxissérie que compõe o chamado Millarworld, certamente terá diversos momentos de déjà vu, já que uma boa quantidade de elementos usados na história são pinçados diretamente de material preexistente de outras fontes da cultura pop, notadamente de outros exemplares da Nona Arte, algo que Mark Millar não tem – e nem deveria ter – vergonha alguma de utilizar, emprestando sua própria pegada. Assim, qualquer leitor notará o uso de origens clássicas da Era de Ouro dos quadrinhos, o tipo de Jornada do Herói que vemos em Star Wars, a ilha misteriosa de King Kong, o conceito de “quem vigia os vigilantes” e o tipo de violência que vemos em Watchmen, a proibição dos super-heróis e o retorno triunfal de alguns explorada em O Cavaleiro das Trevas, os herdeiros dos super-heróis traindo os ideias dos pais que vemos em Reino do Amanhã e um pouco em Terra X, o conflito de larga escala entre heróis de Guerra Civil e assim por diante. De certa forma, Millar e Quitely fazem, aqui, o que Quentin Tarantino costuma fazer tão bem em seus filmes, notadamente o excepcional mash-up Kill Bill.

Não é segredo para ninguém, porém, que Millar adora usar suas HQs autorais como plataformas para adaptações cinematográficas ou televisivas, fazendo-as funcionar quase que literalmente como storyboards para demonstrações diante de produtores ávidos por material novo. Isso acaba fazendo com que seus trabalhos sejam corridos e pouco desenvolvidos, privilegiando a ação e tornando tudo apenas divertimentos completamente esquecíveis.

Mas, felizmente, este não é o caso de O Legado de Júpiter.

Na saga, somos imediatamente levados para o fim de uma misteriosa expedição encabeçada por Sheldon Sampson, sua família e amigos, em 1932, atrás de uma misteriosa ilha no Oceano Atlântico que ele teria visto em um sonho e que estaria chamando por ele. Percebemos, logo de início, que ele é uma figura messiânica a quem todos seguem cegamente e que deseja, mais do que qualquer outra coisa, resolver os gravíssimos problemas sociais e econômicas por que os EUA passavam na época em razão da Grande Depressão. Quando todos finalmente chegam na ilha, o que acontece rapidamente e sem enrolações, aprendemos que todos ganharam poderes (nenhuma explicação é oferecida de imediato) e, então, a ação é completamente transposta para o presente, em que o foco está justamente no “legado” do título, representado principalmente por Chloe e Brandon Sampson, jovens filhos de Sheldon (o super-herói Utópico, claramente uma versão Millaresca para o Superman) e sua esposa Grace (que também ganhara habilidades na ilha e que, também muito claramente, é a versão deste universo da Mulher-Maravilha, chamando-se Lady Liberdade) que fazem parte da primeira geração de seres superpoderosos que nasceram assim. No entanto, os dois não têm os valores que seus pais tentaram imprimir ao longo de décadas de ações altruísticas e com a manutenção de identidades secretas, além de uma vida longe da fama. Chloe e Brandon, muito ao contrário, são estrelas milionárias que ganham dinheiro com a exploração de suas respectivas imagens, pouco se importando pelo uso de seus poderes para o bem e vivendo como astros de Hollywood em meio a bebidas, sexo, drogas e esbórnias em geral.

Diante de uma nova crise econômica, Walter Sampson, irmão de Sheldon que, em termos de poderes, parece-se muito com o Professor Xavier, dos X-Men, tenta convencer o irmão a ajudar mais diretamente o governo, usando os poderes (que incluem super-intelecto) angariados na ilha para levar a Humanidade ao seu próximo passo. Sheldon, porém, tem ideais inabaláveis que o levam a um conflito filosófico com Walter que, ato contínuo, usa a irresponsabilidade de Brandon para manobrá-lo para seu lado da revolta. Chloe, por sua vez, acaba inadvertidamente no outro lado desse violento conflito que eclode e quebra toda a imagem clássica dos super-heróis.

Se o cenário em si não é original, Mark Millar consegue fundir tão bem os diversos elementos conhecidos principalmente dos quadrinhos, que o resultado é único e instigante. O que chama atenção é como ele consegue desenvolver bem seus personagens principais – Chloe e Brandon – sem precisar de muito texto expositivo, trabalhando com arquétipos facilmente reconhecíveis pelos leitores. Isso, de certa forma, retira um pouco do efeito surpresa, mas, em seu lugar, vem uma saga de décadas dentro de um universo estranhamente familiar com que conseguimos automaticamente nos identificar e entender as motivações de cada um. Claro que não há espaço para trabalhar todo mundo, com Utópico, por exemplo, recebendo muito mais atenção do que Lady Liberdade e Walter Sampson fazendo as vezes do clássico vilão que tudo antecipa e tudo controla. Mas o foco está mesmo nos dois filhos que, especialmente a partir do segundo volume, que faz um pulo temporal de anos para uma terrível situação consolidada, ganham os holofotes completamente já que Millar não precisa mais se preocupar com o estabelecimento da situação. Por vezes, claro, ele se empolga e começa a introduzir personagens quase que do nada que ficam um pouco perdidos na narrativa, mas isso é de se esperar de uma obra curta demais para o escopo do que ele apresenta.

Mas O Legado de Júpiter não seria o que é sem a característica arte de Frank Quitely, em seu clássico estilo que, aos olhos de um leitor que se depare com seus desenhos pela primeira vez, exige um pouco de costume. O artista tem rédeas soltas e o que resulta daí é a criação de todo um belíssimo universo que, assim como o texto de Millar, bebe sadiamente de um sem-número de arquétipos dos quadrinhos e de outras obras, mas criando uma identidade visual própria e incrivelmente detalhada. Com uma dinâmica padrão que divide as páginas em quatro quadrantes com variadas disposições, Quitely avança a narrativa sem confundir o leitor e dando-se ao luxo de ir na minúcia de cada momento-chave, com detalhes de fundo que surpreenderão mesmo os mais detalhistas. Sua criação de novos super-heróis e seus uniformes, além da representação gráfica de seu poderes – é particularmente incrível a forma como ele representa os poderes psíquicos de Walter pela primeira vez – e a integração de tudo em um ambiente terreno, mas ao mesmo tempo não tão terreno assim, mostra uma enorme capacidade de “construir mundos” que são críveis e identificáveis pelo leitor.

O Legado de Júpiter é, sem dúvida alguma, um dos melhores trabalhos autorais de Mark Millar. Uma pequena joia independente que constrói e desconstrói aquilo que conhecemos e gostamos dos super-heróis. Mesmo tendo demorado quatro anos para acabar, a espera valeu a pena.

O Legado de Júpiter (Jupiter’s Legacy, EUA – 2013 a 2017)
Contendo: O Legado de Júpiter #1 a 5 e O Legado de Júpiter 2 #1 a 5
Roteiro e co-criação: Mark Millar
Arte e co-criação: Frank Quitely
Cores: Peter Doherty (apenas no volume 1), Sunny Gho (apenas no volume 2)
Letras:
 Peter Doherty
Arte digital: Rob Miller (assistente)
Editora original: Image Comics
Datas originais de publicação: abril, junho e setembro de 2013, março de 2014 e janeiro de 2015 (O Legado de Júpiter); junho, julho, agosto e outubro de 2016, julho de 2017 (O Legado de Júpiter 2)
Editora no Brasil: Panini Comics
Data original de publicação: agosto de 2016 (encadernado contendo O Legado de Júpiter #1 a 5) – O Legado de Júpiter 2 ainda não foi publicado
Páginas: 140 (encadernado brasileiro do primeiro volume), 135 (encadernado americano do segundo volume)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.