Crítica | O Leopardo (1963)

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O Leopardo (1963): opulência e ruína, jogo de forças entre a nostalgia do passado e a mola propulsora que dirige o presente ao futuro. Bailes aristocráticos, quadros valorosos, tapeçarias cuidadosas, bustos estatuários, cômodos intermináveis, a grandeza, o encanto visual; em paralelo, o pó, a melancolia, o vagar paralítico, a indefinição, o tédio, a morbidez, a iminência do fim. A obra-prima de Luchino Visconti é esse mosaico de sensações, faz conviver elementos tensionados sem nunca os resolver completamente, sempre respeitando a complexidade do que não se unifica.

Os amantes da obra do diretor italiano já conhecem bem as intersecções de sua arte com sua vida. Sabe-se que Visconti nasceu em berço de ouro e vem de família aristocrática; que sua maturação foi embebida pelas belas artes; que o menino Visconti assistia, maravilhado, às festas magníficas que seus pais proporcionavam à elite italiana; e que, indo ao ponto mais importante, este compósito de vivências viria a engendrar, no artificioso diretor, temáticas recorrentes e obsedantes: o peso da História (assim, com agá maiúsculo), os rituais característicos de certas classes sociais, o medo do fim, o arruinamento das vidas.

É essa atmosfera acabrunhada que predomina em O Leopardo. No seu princípio, já aparecem estátuas encardidas a mostrar que o tempo imprime corrosão. Num aposento, a família de Fabrizio (Burt Lancaster), príncipe de Salina, está reunida junto ao padre Pirrone (Romolo Valli): todos entoam uma reza monótona. Lá fora, literalmente, o destino bate à porta, pois chega a notícia do avanço dos sequazes do revolucionário Giuseppe Garibaldi, eminência parda histórica que nunca aparece concretamente no filme, mas da qual decorrem todos os nós da trama. O assustador transe político interrompe a ladainha, os familiares deixam o quarto apavorados e o contato com Deus intermediado pelos representantes católicos não pacifica os espíritos em tormenta.

Na contramão das reações aparvalhadas, Tancredi Falconeri (Alain Delon), sobrinho de Fabrizio, declara que vai compor as tropas subversivas e justifica a decisão com uma frase que se tornará a chave de compreensão do resto do filme: “Algo deve mudar para que continue como está”. Através dela, acabamos por perceber que o espectro da revolução não é tão temível quanto se imaginara; a aristocracia e a burguesia ascendente se unem num novo arranjo não tão favorável à primeira, é certo, mas mesmo assim garantidor da manutenção de privilégios.

Baseado no romance homônimo de Giuseppe Lampedusa, esta já foi considerado pelo jornal britânico The Guardian a melhor adaptação cinematográfica já feita. Não à toa: sua mise-en-scène é sublime, a fotografia de Giuseppe Rotunno (parceiro de Visconti também em Noites Brancas, Rocco e seus Irmãos e Boccaccio 70) realça a decadência carcomida dos cenários, as atuações são esplêndidas. Claudia Cardinale (interpretando, aqui, Angelica Sedara, filha de burguês) nunca esteve tão bela, e isso não só por causa de seus dotes, mas também porque a câmera de Visconti se apaixona pela personagem, filmando-a com movimentos desconcertantes e zooms ostensivos, quase tão destacados quanto aqueles de Morte em Veneza. Quando Angelica entra em cena pela primeira vez é como se o mundo parasse para olhá-la, juntamente com a objetiva igualmente extasiada. No que diz respeito a Burt Lancaster, é curioso lembrar que, inicialmente, ele não estava nos primeiros planos de Visconti (que preferia o soviético Nikolay Cherkasov); apesar das reservas do diretor e de alguns conflitos entre ambos, revertidos depois numa duradoura amizade, a atuação de Lancaster é antológica, ele vive como ninguém a figura do aristocrata decaído.

De longe, o príncipe Fabrizio é o personagem mais interessante da trama. Ele concentra grande ambivalência e sintetiza as forças históricas em confronto durante o Risorgimento, movimento de unificação italiana ao longo do século XIX. O tom de muitas de suas falas é cínico, pessimista e pragmático. Se no começo do filme o aristocrata ensaiava algumas cenas cômicas (contracenadas com o padre Pirrone), no seu decorrer as coisas vão piorando e o patriarca é lançado no amargor. O instinto de autopreservação pessoal, de sua família e de sua classe faz com que ele apoie o casamento de seu sobrinho com Angelica, cujo pai é Calogero Sedara, mesmo que a união provoque a tristeza de sua filha, apaixonada por Tancredi. O gesto de Fabrizio pode soar desarrazoado e cruel, mas em sua base está a inteligência consequencialista de quem fez o diagnóstico da época e percebeu que a única forma de sobrevivência da aristocracia é a ruptura da lógica endogâmica da elite aristocrática e a abertura à burguesia e seu dinheiro.

Sintomática do enredamento entre nobreza tradicional e classe capitalista é a entrada de Calogero (referido com um título nobiliárquico muito provavelmente não hereditário, mas comprado) nos círculos restritos da família de Salina. Seu fraque é desajeitado e carece de finura; seus gestos ainda não estão de acordo com as convenções refinadas da fidalguia; sua filha, ainda por cima, rompe com os bons modos e ri exageradamente em uma mesa de jantar. Esses comportamentos não puderam ser rechaçados, embora teoricamente inaceitáveis para o éthos nobre: os familiares e amigos de Fabrizio até glosam, pelas costas, a rudeza de Calogero, mas sua presença na casa é garantida pelo jogo de interesses.

O conluio entre as esferas sociais mencionadas também fez parte da vida de Visconti. Seu pai, duque de Modrone, uniu-se a Carla Erba, de proveniência burguesa. Muito graças a isso, o filme transpira genuinidade e verdade, como estivesse sempre a contar o que o cineasta simplesmente viveu. Se chama a atenção esse teor de exatidão e fidelidade, ele não anula o que há de artifício e fingimento em O Leopardo. O filme, no melhor modo viscontiano, é um melodrama operístico. Seu fausto é de um excesso bom, controlado e descontrolado como todo tour de force, a emanar o gosto do cineasta pelo universo da ópera e do teatro.

O Leopardo ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1963 e, no ano seguinte, concorreu ao Oscar de melhor figurino. As premiações oficiais, todavia, estão aquém da potência dessa obra eterna. A humanidade já logrou grandes feitos científicos e artísticos, unindo ambos com a prática de enviar músicas sublimes em sondas que singram o espaço sideral. Muitas sequências do mestre Visconti merecem a mesma homenagem, e neste O Leopardo acho que uma em específico faz jus a essa grandeza: aquela em que Fabrizio, sua mulher e seus sete filhos sentam-se nos bancos de uma igreja, empoeirados e sujos; no plano ao fundo, grafites em muro exaltam a revolução em andamento. Episódio-síntese do filme e da obra desse diretor italiano, este momento é muito tocante. As feições circunspectas dos personagens, o ar melancólico, a ruína tristonha da aristocracia que já se vê ultrapassada: em suma, o sublime no cinema, um dos pontos altos da história artística humana.

Tive o privilégio de assistir a esse filme no cinema (março de 2018), por ocasião de uma retrospectiva em homenagem ao diretor feita em São Paulo. A fita foi rodada em resolução 4K. A experiência de apreciá-la na telona é única, visto que a grandiosidade de Visconti é potencializada, o primor de sua direção é destacado e o talento da composição musical de Nino Rota se realça pelo poder sonoro dos equipamentos da sala. Quando o desfecho foi anunciado pela legenda do “fine” (“fim”, em italiano), o público aplaudiu entusiasmado. Que beleza, que ternura, que tessitura encantadora do estilo viscontiano! Filmes como esse renovam o contrato de amor do cinéfilo com sua arte. Mais ainda: justificam a razão de ser da nossa espécie.

O Leopardo (Il Gattopardo- Itália e França, 1963)
Direção: Luchino Visconti
Roteiro: Suso Cecchi d’Amico, Enrico Medioli, Pasquale Campanile, Massimo Franciosa e Luchino Visconti (baseados em romance de Giuseppe Lampedusa)
Elenco: Burt Lancaster, Alain Delon, Claudia Cardinale, Paolo Stoppa, Romolo Valli, Rina Morelli, Serge Regianni, Leslie French, Ivo Garrani, Lucilla Morlacchi
Duração: 186 minutos.

GUILHERME ALMEIDA . . . Estudante de Letras e apaixonado por literatura e cinema, acho Crime e Castigo o auge da inteligência humana, não consigo assistir Tarkovski sem acender uma vela e me emocionar, e toda vez que vejo Taxi Driver me olho no espelho e lanço um “You talking to me?”. Se por uma desgraça cósmica preciso passar um dia sem contato com a Arte, sofro de profunda abstinência e preciso ser amarrado numa camisa de força. Nesses momentos, não se aproximem.