Crítica | O Lixo da História

estrelas 4

Quem lê jornais, revistas ou está minimamente ligado às produções da nona arte no Brasil, sejam impressas ou online, com certeza já se deparou com charges ou tirinhas de Angeli, autor de personagens de sucesso como Rê Bordosa (R.I.P., Saudosa Diva!), Bob Cuspe, Os Skrotinhos e Mara Tara. Igualmente famosas foram as produções do artista paulistano para a revista Chiclete com Banana, lendário relicário da Circo Editora para uma geração ousada de quadrinistas da década de 1980.

Angeli sempre foi conhecido pelo tom de crônica social presente em suas realizações. Tendo o humor negro como linha básica para desenhar e intitular charges, o artista capturou momentos bizarros e polêmicos da História do Brasil e do mundo, seja na luta pelos direitos humanos, na crítica aos governos, no repúdio à guerra e à miséria.

O Lixo da História é um recorte temático da faceta engajada de Angeli. Uma antologia de suas charges políticas publicadas entre 2001 e 2012, cuja abrangência de temas se justifica pelo longo período do qual foram coletadas. É como uma retrospectiva cáustica de uma década de sangue, iniciada com as ações do Presidente Bush no Iraque e “finalizada” (pelo menos até onde o livro acaba) com a “nova postura belicista” do Presidente Obama.

Mas as críticas de Angeli também se estendem à indústria de armas, ao preconceito étnico, ao corrupto governo brasileiro, à sociedade excludente, à luta de classes (numa visão bastante irônica e hilária). Nunca economizando verdades, Angeli procura mostrar o grande absurdo de tudo o que nos rodeia, no medo instaurado em nossa sociedade e na paranoia que nos lembra os tempos da Guerra Fria, um sentimento de desgraça iminente que bate cartão nas mesas redondas e acordos diplomáticos entre as nações (isso inclusive é tema de uma charge do livro).

O Lixo da História teve organização gráfica de Elisa V. Randow (a mesma que cuidou do projeto de Toda Rê Bordosa) e traz as charges de Angeli publicadas no Jornal Folha de S. Paulo e no Portal UOL no período já citado anteriormente. O final do livro nos traz um apanhado histórico bastante pertinente e bem escrito por Érico Mello, mas que é pouco funcional, se levarmos em conta que a verdadeira mensagem de História Contemporânea já havia sido passada através das charges. Esse é um ponto que podemos eleger como negativo, algo que pode ser melhor descrito como “uma organização pouco prática do volume”. Talvez uma “introdução histórica” para cada ano ilustrado por Angeli fizesse mais sentido no todo do que um posfácio histórico isolado.

Mas independe de sua organização, O Lixo da História é um volume de quadrinhos muito interessante. Vale lembrar que se trata de um livro de charges políticas, portanto, o leitor não deve esperar por roteiros ou qualquer indicação complementar de informações, exceto o já citado posfácio histórico. Contudo, um conhecimento básico de atualidades e boa interpretação podem fazer toda a diferença e o livro acaba valendo muito a pena. Indicadíssimo para historiadores e profissionais ou amantes das “ciências humanas, políticas” e, claro, para aqueles que como Angeli conseguem ver nos quadrinhos uma forma de denunciar as barbaridades e o lixo que a nossa História atual anda produzindo.

O Lixo da História (Brasil, 2013)
Roteiro: Angeli
Posfácio histórico: Érico Mello
Arte: Angeli
Editora: Quadrinhos na Cia. (Companhia das Letras)
300 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.