Crítica | O Lobisomem (1941)

estrelas 4

Interessante observar como este clássico de monstros da Universal Pictures não mergulha apenas na seara fantástica, dialogando com detalhes supersticiosos e científicos. Em O Lobisomem, somos informados que a pessoa que sofre desta condição é um paciente com licantropia, ou seja, uma doença na qual os seres humanos imaginam que são homens-lobos. De acordo com o roteiro do filme e uma velha lenda, as vítimas assumem as características físicas do animal. Para complementar, alguém aponta que “o sinal do homem-lobo é uma estrela de cinco pontas, um pentagrama”.

A instigante história desta versão se inicia com a chegada do jovem estudante Larry Talbot (Lon Chaney Jr.) depois de uma longa viagem. Durante a sua nova estadia, ele se interessa por uma jovem e a convida para um passeio noturno. Ela, para seguir os bons modos da sociedade da época, principalmente por ser noiva, convida uma amiga para acompanha-los. Durante o passeio noturno Larry testemunha um ataque envolvendo a jovem amiga de sua “pretendente”, assassinada misteriosamente por um lobo. Larry tenta, é ferido pela criatura, consegue mata-lo com golpes de uma bengala com ponta de prata, mas um conflito se estabelece: a maldição do lobisomem se manifesta em seu corpo e ele precisa enfrentar os seus demônios para conviver diante desta nova “condição desumana”.

Há passagens emblemáticas e já saturadas pelo cinema desde então, mas que para a época e de certa forma, ainda hoje, são significativas. “Mesmo o homem que é de puro coração e faz suas orações à noite, irá se transformar num lobo quando o mata-lobos florescer e a lua de outono brilhar”. Este suposto excerto de um poema desconhecido é repetido diversas vezes no filme, por parte de personagens diversos, tendo em mira reforçar a condição dual do homem diante de tal maldição, o que nos remete ao clássico O Médico e o Monstro.

No que tange aos aspectos técnicos, podemos destacar como elementos de brilhantismo a maquiagem de Jack Pierce e o design de produção com castelos góticos, sequências noturnas com névoas e árvores fantasmagóricas. A direção de fotografia também é bastante eficiente, dando os devidos destaques através de enquadramentos e dinâmica interna que favorecem o clima de terror em cenas nebulosas e sombrias.

No quesito imaginário, percebemos como estas obras influenciaram a cultura popular e reforçaram os folclores nacionais. Nesta versão não há a lua cheia como influência para a transformação, algo que aconteceria apenas nos filmes posteriores. Consciente dos seus ataques, o lobisomem reluta contra os seus novos instintos, num embate físico e psicológico que vai alcançar proporções trágicas. É neste filme que os produtores introduziram o conceito do lobisomem vulnerável à prata.

A obra tornou o ator Lon Chaney Jr. popular e permitiu que ele reprisasse o papel outras vezes em clássicos do horror posteriores. Nestes filmes ele dividiu a cena com Drácula e Frankenstein. Outra questão que é preciso refletir é sobre a condição da história: além de ser uma história de horror, O Lobisomem também pode ser considerada uma lírica história de amor, salvas as devidas proporções. O filme também contou com a participação da ótima Maria Ouspenskaya no papel de uma mãe cigana que se mostra consciente da maldição e observa na morte uma espécie de libertação para os acometidos pelo mal. A participação de ouro, por sua vez, está no personagem cigano interpretado por Bela Lugosi, um dos medalhões do horror da época.

Com 69 minutos, O Lobisomem foi o primeiro sucesso financeiro desta criatura na história do cinema. O primeiro, segundo registros, foi O Lobisomem de Londres, de 1935, um fracasso de bilheteria e roteiro. Em 2010, o clássico com Lon Chaney Jr. ganhou uma refilmagem também interessante, tendo Benício Del Toro como protagonista. Os efeitos, sim, são outros, mas não importa a tecnologia quando uma narrativa se sustenta tendo o seu roteiro como principal ponto de partida, principalmente quando este é executado de maneira eficiente.

O Lobisomem (The Wolf Man) – EUA, 1941
Direção: George Wagnner
Roteiro: Curt Siodmak
Elenco: Claude Rains, Warren William, Lon Chaney Jr., Ralph Bellamy, Patric Knowles, Bela Lugosi, Maria Ouspenskaya, Evelyn Ankers, J.M. Kerrigan, Fay Helm
Duração: 69 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.