Crítica | O Lobo Atrás da Porta

estrelas 4

Primeiro longa de Fernando Coimbra, O Lobo Atrás da Porta é um interessante, ainda que falho, estudo sobre o ser humano. Trabalhando uma narrativa que aborda o mesmo assunto sob dois pontos de vista diferentes, bem na linha do clássico Rashomon, o diretor consegue prender a atenção por grande parte da projeção, perdendo-se na extensão de algumas sequências que não ajudam na progressão da história e só parecem estar lá para a fita alcançar um tamanho, digamos, regulamentar.

A proposta de Coimbra, que também escreveu o roteiro, é contar a história do sequestro de uma menininha, retirada da creche por uma mulher desconhecida. A investigação policial, vista quase que exclusivamente a partir da sala do delegado, é pontilhada pelos depoimentos da mãe e pai da menina, além da amante do pai. E é nesse trio que a narrativa foca, com um texto afiado que consegue fazer piadas boas em momentos certos, por mais sombrio que seja o tema abordado. Mas essa leveza só ocorre no terço inicial da projeção, pois a história progride em tons cada vez mais pesados, com o detalhamento no começo bem enevoado do relacionamento entre os três.

Fernando Coimbra acertou nesse foco e, também, na escalação. Milhem Cortaz, que trabalhou de maneira muito convincente em Alemão, divide os holofotes com Leandra Leal e Fabiula Nascimento em O Lobo Atrás da Porta. Ele faz o papel de Bernardo, pai, marido e adúltero que tem sua vida exposta ao delegado com o desaparecimento da menina. Cortaz sustenta muito bem a primeira metade do filme em que a história é vista mais sob seu ponto de vista. Quando a troca ocorre, e passamos a ver a história sob os olhos de Rosa, vivida por Leandra Leal, a amante de Bernardo, a química entre os dois convence e impulsiona bem a narrativa. Leal, com seu olhar de garota inocente e Cortaz, com seu olhar duro, mais selvagem, são opostos que se atraem e o espectador fica se perguntando por um bom tempo quem é o “lobo” do título.

E é interessante como Coimbra trabalha a fotografia de maneira a sempre vermos os atores por meio de reflexos ou através de superfícies que os separam de nós, espectadores. Há uma ideia permeando o filme: a duplicidade. E os reflexos (o espelho na casa de Rosa, o espelho retrovisor no carro amarelo de Bernardo) e as separações (a grade no apartamento do amigo de Bernardo) ajudam nessa ideia e o uso desse artifício, apesar de constante, parece natural e bem orquestrado.

Mas o problema que atravessa o filme repousa na montagem. Coimbra cisma em fazer sequências longas, com câmera parada ou com muito pouco movimento para reiterar determinados sentimentos dos personagens. Mas acontece que Cortaz, Leal e Nascimento fazem um trabalho bom o suficiente para tornar essa abordagem desnecessária na maioria das vezes. Há o “plano da tempestade”, o “plano do exame de gravidez”, o “plano do choro no apartamento” e por aí vai. Eles se repetem e se amontoam na fita dando a impressão que eles estão lá única e exclusivamente para estender a narrativa para além de 60 minutos. Afinal de contas, a história é simples o suficiente para ser captada com rapidez pelo espectador, mesmo que o gradual mergulho ao inferno seja importante no trabalho de Coimbra.

O Lobo Atrás da Porta merece destaque pelas atuações, roteiro e pela fotografia bem pensada de Coimbra, mas perde pontos pela sua teimosia em fazer a projeção demorar mais do que deveria, com planos sequência sem qualquer real necessidade. Chega a cansar o quanto a câmera foca nos personagens, sem muito revelar, pois não há mais nada a revelar. Mas é uma obra angustiante, pela temática e, como longa inaugural do diretor, merece aplausos.

O Lobo Atrás da Porta (Brasil, 2013)
Direção: Fernando Coimbra
Roteiro: Fernando Coimbra
Elenco: Thalita Carauta, Juliano Cazarré, Milhem Cortaz, Leandra Leal, Fabiula Nascimento, Tamara Taxman, Paulo Tiefenthaler
Duração: 100 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.