Crítica | O Lobo de Wall Street

estrelas 5

Se A Invenção de Hugo Cabret for o único filme de Scorsese que você assistiu, a primeira coisa que deve fazer é, imediatamente, ver as outras obras primas do diretor. Já se é familiarizado com Os Bons Companheiros, Touro Indomável, Cassino e Aviador, então a semelhança com O Lobo de Wall Street será notada de imediato.

A sensação inicial ao filme começar é a similar àquela de quando começamos a ver a história de Henry Hill e sua famosa frase que abre o longa “Até onde me lembro, eu sempre quis ser um gângster”. Em O Lobo, contudo, há uma grande diferença: já somos jogados de cabeça na loucura que se torna a vida de Jordan Belfort e de sua companhia Stratton Oakmont. Mas como o próprio personagem diz nos minutos iniciais da projeção, vamos voltar um pouco no tempo.

Jordan Belfort tem 22 anos, é recém casado e com uma grande ambição por dinheiro, logo ele vai para Wall Street e começa seu emprego em uma empresa de corretores de ações. Seu trabalho inicial é fisgar os clientes pelo telefone para passa-los para os corretores de fato. Logo nesses primeiros minutos já conhecemos Mark Hanna (Matthew McConaughey), uma caricatura humana e um vislumbre do que seria o Lobo no futuro. É esse personagem chave que ensina o que Belfort colocaria em prática eventualmente: os clientes não importam, o corretor deve simplesmente fazê-los comprar mais e mais, independente de lucro para fazer uma fortuna através da comissão.

Assim progride a vida de Jordan, já apaixonado pelo modo de vida de Wall Street, até que ele finalmente consegue sua licença de corretor. E seu primeiro dia cai exatamente na Segunda-feira negra, a maior queda de ações desde o crash de 1929. A empresa na qual o protagonista trabalha fecha suas portas e ele se vê no olho da rua e, novamente, distante de seu sonho de ser rico. Felizmente, por incentivo de sua esposa, ele acaba conseguindo um emprego em uma corretora que lida com ações de centavos. O cenário é desolador, principalmente quando ele entra no escritório e vê uma dezena de amadores vendendo a partir de anotações – nada de computadores. Logo Belfort descobre, porém, que sua comissão ali seria de 50% e não de 1% como era anteriormente.

Através de suas técnicas de venda agressivas aprendidas em Wall Street, o protagonista começa a vender centenas de ações de centavos, faturando logo em seu primeiro dia dois mil dólares. Logo sua fortuna vai aumentando e, após conhecer Donnie Azoff (Jonah Hill), decide criar sua própria empresa que, eventualmente, levaria à sua futura fama.

Essa é a história que, desde os primeiros minutos de projeção, consegue nos fisgar assim como o corretor fisga seus clientes. É uma trama que prende o espectador do início ao fim, mesmo com seus 180 minutos de duração. Através de um roteiro excepcional, passamos por momentos de riso, incredibilidade, desespero e até uma certa melancolia, algo que já experimentamos em Os Bons Companheiros, por exemplo. A trajetória de Jordan Belfort ocorre da maneira mais natural possível, até que passa a se tornar uma grande loucura. A semelhança de seu modo de vida com os bacanais da Roma antiga não são mera coincidência.

A ascensão (ou decadência) do Lobo de forma alguma é uma história leve, como ele próprio diz nos primeiros momentos de projeção, está repleta de prostitutas e drogas, sendo a maior delas o próprio dinheiro. Belfort vive em um mundo à parte, separado dos seres-humanos comuns. Se a queda de Henry Hill foi o tráfico, a de Jordan é sua própria ambição, por simplesmente não saber quando parar.

É claro que não é somente o roteiro ou a precisa montagem que fazem de O Lobo de Wall Street o que ele é. A atuação do elenco como um todo, com destaque para a ponta de Matthew McConaughey e o papel principal de Leonardo DiCaprio, é hipnotizante. A evolução do personagem é clara e desde as primeiras ligações de vendas até seus longos discursos, o ator consegue não só convencer o cliente, seus sócios, mas também o espectador. É um personagem que realmente acreditamos e mesmo dentro de toda a loucura de Stratton Oakmont, conseguimos crer em tudo o que se passa.

O Lobo de Wall Street é um filme de Scorsese, isto fica claro desde o início. É uma odisseia regada a dinheiro, sexo e drogas sobre a vida de Jordan Belfort que irá prender o espectador independente de sua duração. É um longa que consegue controlar as sensações de cada um no cinema através de seu ritmo frenético. Com o término da projeção ficamos com a nítida impressão de conhecermos o corretor e de termos o acompanhado por anos, o que aumenta ainda mais o impacto do filme.

O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street) – EUA, 2013
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Terence Winter (baseado no livro de Jordan Belfort)
Elenco: Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Margot Robbie, Matthew McConaughey, Kyle Chandler, Rob Reiner, Jon Bernthal, Jon Favreau, Jean Dujardin, Joanna Lumley
Duração: 180 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.