Crítica | Tintim: O Lótus Azul

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estrelas 4,5

Publicado no suplemento infantil Le Petit Vingtième entre agosto de 1934 e outubro de 1935, O Lótus Azul é a continuação da história apresentada por Hergé em Os Charutos do Faraó, uma história que coloca o repórter do famoso jornal em perseguição a uma gangue de traficantes de ópio. O álbum com a história completa foi lançado em 1936, na sua versão em preto e branco e, 10 anos depois, com pequenos ajustes no texto e nos desenhos, na sua versão em cores. Se compararmos o tour de force de Hergé na coloração e remodelação dos álbuns anteriores, as alterações feitas em O Lótus Azul não passaram de uma pequena brincadeira, limitando-se apenas às páginas iniciais.

A história deste álbum é certamente mais madura que a dos anteriores (ou pelo menos em relação aos títulos antes de Os Charutos do Faraó), e traz uma rica pesquisa geográfica e exposição de elementos culturais do lugar visitado. Destaca-se aqui a primeira colocação pessoal de Hergé contra a segregação étnica e contra a guerra. O artista se vale das tensões entre a China e o Japão nos anos 1930 para buscar no passado dos dois países embates e problemas que igualmente geraram péssimos resultados para ambos os lados.

Dos eventos passados, podemos citar a alusão do autor às Guerras do Ópio, sendo a última finalizada em 1860, portanto, 74 anos antes dessa história começar a ser publicada. Há a citação literal da Guerra dos Boxers (1899 – 1900), na qual um garoto chinês que se torna amigo de Tintim diz ter perdido os pais. Apenas três décadas separava o evento do momento em que Hergé escrevia, então, a memória das mortes e os impactos ainda se faziam presentes, em especial, porque a China voltava a entrar num período de tensão política, desta vez, contra o Japão, oposição que culminaria com o tenebroso Massacre de Nanquim (1937) e daria início à Segunda Guerra Sino-Japonesa, que se estenderia do massacre até o final da Segunda Guerra Mundial.

Tintim em Shanghai plano critico

Tintim em Xangai.

O enfrentamento entre China e Japão é o plano de fundo deste conto, e de maneira bastante orgânica, Hergé constrói a ponte entre a estadia de Tintim na Índia, em casa do Marajá de Rawhajpoutalah, e sua ida para a China, já bem contextualizada no roteiro. O evento tem início após a visita de um faquir, já no início do álbum, e de um mensageiro de Xangai, que acaba ficando louco ao tentar transmitir uma mensagem ao jovem repórter, isso porque é picado por uma flecha embebida em radjaïdjah, o mesmo “veneno da loucura” que aparecera no álbum anterior. Por um momento, no desenvolvimento de O Lótus Azul, o leitor pensa que Tintim também foi envenenado, e descobre em seguida que ele apenas se deixou levar por uma injeção de água, que agiu como um efeito placebo no jovem por alguns quadros muito engraçados.

A sequência de eventos é bastante ágil — uma característica presente nas aventuras de Tintim, apresentada de forma caótica nos primeiros livros –, sem atropelos ou mal desenvolvimento do texto, mesmo quando se trata de tramas B ou gentilezas de Tintim e de seus aliados. Creio que o incômodo do álbum vem apenas com o adiamento da conclusão, sempre pontuado por um acréscimo de personagens ou situações que se estendem por mais algumas páginas. É claro que, ao final, a história tem uma admirável unidade, mas diferente de Os Charutos do Faraó, alguns elementos aqui parecem levemente desnecessários, como a aparição de Dupont e Dupond, por exemplo.

Mas esses elementos não comprometem a qualidade do álbum, que é um dos mais politicamente engajados de Hergé (que se põe claramente contra a atuação europeia no tratamento aos chineses e também contra o imperialismo japonês), ação que lhe rendeu diversas críticas quando a história foi lançada. Eis mais um motivo para se ler O Lótus Azul: o mesmo artista criticado (embora anos depois) por ter sido ‘racista’ em Tintim no Congo, recebe em seu tempo, críticas porque defendeu os amarelos e criticou os europeus. Vejam só o que o tempo pode trazer para as ideias de uma pessoa.

Le Lotus bleu (Bélgica, 1934 – 1935)
Publicação original: Le Petit Vingtième, 9 de agosto de 1934 a 17 de outubro de 1935
Publicação encadernada original: Casterman
No Brasil: Companhia das Letras, novembro de 2005
Roteiro: Hergé
Arte: Hergé
62 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.